17 anos, Adolescência

Pelos mares da adolescência e do Autismo


*Use fones de ouvido para escutar melhor o áudio.

Adolescência. Todos nós que somos pais precisamos lembrar que passamos por ela também e por mais que isso soe como um clichê, algo que nem precise ser dito de tão óbvio, a verdade é que esquecemos quando nosso adolescente está bem em nossa frente nos desafiando e mostrando que nada do que tentamos fazer está funcionando de fato. 

Aqui vamos sempre somar o Autismo, aquelas mesmas dificuldades que todos temos ou teremos, mas em um nível de transtorno. Ou seja, os jovens autistas precisam se esforçar muito mais do que nós quando passamos por esta fase e, para piorar, todo mundo vai cobrar do jovem autista comportamento típico o tal do “normal”.

Os desafios da adolescência

Pois é bem assim, incompreensão do mundo; Corpo que muda em quem tem uma falha na estrutura de entendimento das mudanças; Dificuldade em perceber as próprias emoções e muitas vezes o impacto de suas ações na emoção de outras pessoas; Gostos e preferências que não mudam na velocidade das mudanças do corpo; Ser tratado como criança às vezes e ser exigido como adulto outras tantas.

E a lista de desafios não para. Enquanto você me lê milhões de jovens com Autismo estão pelo mundo se sentindo absolutamente incompreendidos, mesmo estando cercados de amor e terapias. Não são eles que se desconectam do mundo, somos nós que não usamos o que temos para nos conectar a eles.

Meu eixo, meu equilíbrio

Confesso que para mim como mãe tem sido difícil também. Não sou heroína ou guerreira, sou bem humana e me canso às vezes de ouvir a resmungação da minha mocinha quando parece que eu fiz tudo naquele dia em função dela, por ela e para ela e como recompensa recebo caras feias e respostas duras. Não é sempre, mas quando acontece meu eixo desloca e é justamente nela que eu busco inspiração para me equilibrar outra vez.

E sim, ela inspira!

Minha filha tem vencido tanto, tem tido tantos desafios diários que seus momentos de crise deixaram de ser sentidos por mim como ataques à minha pessoa. Hoje já consigo ver o pedido de socorro e a mensagem pro detrás da crise: “Mãe estou direcionando a você minha frustração, porque é você quem eu confio e eu sei vai me acolher.” 

Aceito, me organizo, busco a calma e sigo aprendendo a difícil arte de me acalmar mesmo vendo ela sofrer.

Exigir x Conduzir

Organizada internamente, eu dou os parâmetros pra minha filha se organizar também, e faço este tremendo esforço porque sei que ela precisa aprender. Enquanto eu puder e conseguir, ela vai aprender tendo meu amor como guia, não a minha imposição. Pois esta já se mostrou ineficiente. É claro que o meu descontrole acontece vez ou outra, claro que grito de volta vez outra e é claro que vez ou outra eu me tranco pra chorar. Porém, sempre me dou mal quando quero impor, sempre dá errado quando grito mais alto e exigir funciona menos do que conduzir. 

Até aqui, tem funcionado para nós o meu controle como âncora ou como bússola. Nada é perfeito, gente. Até porque esta palavra perdeu completamente o sentido sob a capa do Autismo – e que bom que foi assim. Mas na nossa imperfeita conexão, no nosso imperfeito modo de navegar no mundo de dores e alegrias, temos seguido e, embora cada um tenha seu roteiro único e particular, a gente tem conseguido mostrar que é possível sobreviver no mar de ondas que a adolescência agiganta, mas que faz também um bonito navegar. 

Que bons ventos conduzam os autistas jovens do mundo todo e que haja sempre portos amigos a espera daqueles que se sentem incompreendidos.

Avante, até que todo mundo saiba, até que todo mundo entenda.

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