15 anos

O Autismo e a arte de pregar botões


*Use fones de ouvido para escutar o áudio melhor.

Oi, tudo bem com você? Por aqui estamos bem, apesar da longa ausência… Nestes doze anos de blog, todos os períodos de ausência significaram desafios maiores, me exigindo atenção. E atualmente não tem sido diferente.

Acho que posso nomear este período de “adolescência e seus hormônios”. Período que nada mais é do que o ponto mais alto nesta montanha imensa chamada Autismo e que está exigindo atualmente tudo o que eu plantei, ou melhor, ensinei para minha menina ao longo dos anos. Parece que cada habilidade tem sido colocada a teste, cada minuto de terapia tem sido testado.

É isso mesmo. Em todos estes anos, muitas estimulações aplicadas por mim ou pelos terapeutas que não faziam muito sentido na época tem mostrado o seu valor. Lembrem que desenvolvimento infantil é base, aquele monte de pedras sobre as quais o edifício chamado pessoa adulta vai se construindo. Na hora aquilo tudo não tem uma forma, mas é fundamental para o que seremos no futuro.

A Milena tinha tanta terapia e quase todas envolviam brincar. Para mim, no começo, pagar uma terapeuta para brincar com minha filha não fazia o menor sentido. Hoje, quando a minha menina vai buscar lá atrás o que aprendeu, respiro aliviada ao saber que no momento em que ela mais precisa escalar ela tem os instrumentos que entregamos a ela ao longo da vida. E tem também a musculatura para subir e, olha, exercitamos muito e, até hoje, temos que reforçar coisas básicas, pois ainda há muito a subir!

Adolescência: o desafio dentro do desafio

Você vai concordar, eu sei, que mudar de país não é fácil. Então você é capaz de imaginar o quanto este desafio aumenta de tamanho quando esta mudança vem quando você está na adolescência. Aquele período da vida em que tudo parece intenso demais e manter o equilíbrio é quase fora de questão, pois este tal equilíbrio é ainda algo que você nem aprendeu. Agora some tudo isso ao fato de que existe um transtorno sério como o Autismo que bagunça todo o padrão de desenvolvimento desta pessoa! Minha filha é ou não é uma heroína?!

Se você que me lê tem um bebê com Autismo, ou uma criança com Autismo para tomar conta ou educar, saiba que a cada dia que você ensina ou reforça alguma habilidade, cada vez que você explica alguma coisa que te parece óbvio é como pregar botões que vão te dar pega lá na frente, quando tudo estiver sendo exposto. Não tenha medo do futuro, nem todo autista tem problemas na adolescência. Pense no hoje e invista o que puder em mostrar, ensinar, reforçar… Nunca desista, pois sua persistência vai te trazer a recompensa.

Brincadeira: um botão poderoso

Milena nunca gostou de brincar no padrão que as outras crianças brincam. Mas conseguia se engajar em brincadeiras nas mais variadas terapias que frequentou. De forma estruturada e planejada, ela adquiria alguns valores que não teriam vindo de forma “automática” como parece acontecer para a maioria das crianças que convivemos.

Foto do post “A difícil arte de brincar”

Sim, a gente sempre tem a impressão de que uma criança aprende sozinha um monte de coisas e, de fato, observando o mundo a criança não só incorpora regras e códigos, como ela te mostra o que aprende com muita rapidez. É na brincadeira que estes aprendizados se concretizam e se fixam no comportamento. A maioria das crianças com Autismo ou não brinca ou brinca de forma inapropriada… É onde precisamos atuar.

Uma criança com Autismo pode não aprender sem ajuda (enquanto outras aprendem) ou pode aprender e guardar para ela mesma, sem saber que precisa usar o que aprendeu. Ou então, não demonstra motivação em se mostrar.

Enquanto todos nós adoramos mostrar o que sabemos e amamos receber elogios, a pessoa que tem Autismo parece não ter tanta sede assim em se mostrar. Quantas vezes já contei aqui que minha filha mostrava o que tinha aprendido nos momentos mais inusitados e mostrava saber o que a gente nem sabia que ela sabia!

A importância de ter onde se agarrar

Esta fase da adolescência tem sido assim, a Milena anda mais impulsiva que sempre. Mas existem os “botões” que viemos pregando ao longo da vida dela. Lembro que eles estão lá, que ela os tem ao alcance e que é neles que ela tem que se agarrar quando tudo parece faltar.

Às vezes ela entra em choro profundo, silencioso ou fica com um mau humor que estraga o nosso dia. Então, ela mesma me procura e pede para a gente “mudar de assunto”, ou convida (como se eu fizesse parte dela): “vamos pensar em outra coisa?”. Nessa hora a gente começa a falar de coisas que ela gosta e na maioria das vezes, ela sai do estado de crise.

O ato dela buscar ajuda, se abrir para que eu entre, encontrar o caminho interno para vencer a força opressora dos hormônios da adolescência foi uma construção conjunta, um botão pregado na cortina que teima em se fechar, mas que ela, aos poucos, consegue acessar. Sem isso, tenho certeza, eu não estaria aqui escrevendo para vocês. Pois a força dessa correnteza que veio com a adolescência certamente teria nos levado por caminhos de muita tristeza.

Por favor, construa com seu autista todos estes caminhos que vão te servir no futuro, estabeleça estes pontos de encontro, pregue você seus botões. Todos nós precisamos de mapa ou de bússola quando estamos perdidos. Se perder é natural na vida de qualquer pessoa, mas as referências fixas no nosso mapa interno, nos mantém firmes na jornada.

A pessoa com Autismo tem qualidades incríveis que muitas vezes se escondem atrás de um comportamento inapropriado, porém, além das qualidades, existem também dificuldades e pedidos de socorro. Por favor, escute e veja, ajude construindo junto as estratégias para que uma autoestima forte sustente essa pessoa que está se formando.

Mais compreensão, por favor!

Eu sei que o texto está longo, mas como sabem, muitas mães me procuram para que eu compartilhe o que aprendi, é muito frequente eu explicar sobre as áreas que o Autismo interfere e que justificam muitos comportamentos.

Pois bem, algumas mães após me ouvirem explicar que seus filhos não agem daquela forma de propósito, após eu mostrar que eles olham para coisas diferentes e deixam de extrair as informações que precisam e que por isso não modelam ações como uma criança típica. Ainda assim ouço afirmações de que a criança faz por querer, faz para afrontar, se faz de surda, faz birra e age de propósito para chamar a atenção.

Sinceramente, se eu continuasse pensando assim, hoje em dia entre mim e minha filha não haveria essa linda ponte, haveria sim um grande muro e não seria culpa dela…

Sempre foi o meu papel construir na minha filha, uma estrutura de autoconfiança. Por isso sempre salientei suas qualidades, seus potenciais e festejei cada pequena conquista, mas o mundo dizia ao contrário e cobrava dela o que ela não tinha. Ela chegou na adolescência e percebeu o peso da cobrança social. Aquilo que era aceito por “ela ser apenas uma criança”, já não era mais aceito e ela sentiu. Processar o que ela é diante do que o mundo exige, está sendo pesado, mas ela sabe que estamos juntas e sabe que acreditamos nela. Imagina se, ao invés de incentivo, ela tivesse em casa a cobrança, e a não aceitação? Não tenho dúvidas que ela estaria em uma instituição ou em casa, gritando e se debatendo.

Bom, como o tal mundo do Autismo é feito de polêmicas e desentendimentos, tomo mais espaço de sua atenção para dizer que nem todo autista que está em crise, se encontra assim por “culpa” dos seus cuidadores… A tal correnteza de que falei acima, às vezes é tão forte que mesmo que um belo trabalho de apoio tenha sido feito, pode se perder com a força dos hormônios e das circunstâncias. Que gente julgue menos e acolha mais.

Tudo o que falo aqui diz respeito apenas ao que aprendo na vivência diária com minha filha e no contato com as tantas famílias que tenho o privilégio de aprender junto. Nada do que falo cabe a todos, não culpo ninguém de nada, cada um dá o que consegue. Eu apenas aponto as direções que trilhei na certeza de que cada caminho é único, mas que aquilo que eu observo pode, de repente, ter valor e ser útil para alguém mais.

Paro por aqui esse texto longo, espero que você me perdoe por falar demais, é que eu fiquei muito tempo sem postar 🙂

Desejo ter despertado alguma reflexão e tenho esperança que ela seja positiva.

Abraços fraternais.

A difícil arte de brincar

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10 Comentários em "O Autismo e a arte de pregar botões"

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Ânara
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Obrigada querida! Por iluminar o nosso caminho, por compartilhar o que você aprendeu e aprende!
Um grande abraço!

Andreia
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Ah, Fausta! Aqui em casa tá tão difícil. Estou escrevendo este texto e neste momento a Piettra está chorando sem parar e quando tem estas crises não consegue me dizer o que a incomoda. É pior tentar arrancar alguma coisa dela. Ja percebi que tenho que deixa-la chorar no canto dela, é como se ela precisasse se esvaziar de alguma angustia. Mas embora eu compreenda que é algo que ela não tem controle, isso é uma coisa que me tira do eixo, que me causa uma irritação absurda e como eu gostaria de não me sentir assim.Fico a me perguntar,… Leia mais »
Fabiana
Visitante

Cris, estava com saudades!!!! Amei seu texto e apesar do meu filhote ainda ser bebê, sei que vou me lembrar de suas palavras durante a jornada. Pregarei os botões!Obrigada! Bj! Fabiana.

Neusa Almeida
Visitante

Amiga amada e querida, você é muito sabia, seus textos trago para minha mesmo não sendo autista . Aprendo muito, e como vc disse as vezes precisamos de um mapa ou de uma bússola . Gratidão por compartilhar com tanta amorosidade

Silvana
Visitante
Amei o texto. Obrigada por fazer textos longos , tão sensíveis , maravilhosos e extremamente úteis.O Enzo , meu filho, é apenas alguns meses mais novo que a Milena, por isso seus textos sempre acompanham o momento que também estou vivenciando.Sempre me emociono com tudo que você escreve. E mais uma vez além da emoção, procuro seguir o que é possível no meu dia a dia com meu filho.Não há palavras em nosso dicionário que possa expressar o quanto lhe sou grata e tenho certeza que muitas mães também pensam assim.Que Deus abençoe, proteja, cuide, guie eternamente você, a Milena… Leia mais »