Preparar para a vida, preparar para a menstruação


*Use fones de ouvido para escutar melhor o áudio.

Começando a escrever este texto eu já pensei de cara: será que existe mesmo um jeito da gente se preparar para o que, de fato, só podemos mesmo aprender quando estamos vivenciando?

Este início de texto já dá uma pista de que respostas prontas e receitas mágicas não vão ser listadas aqui. Porém, faço o post na certeza de que o relato de todo o passo a passo do nosso processo como família, preparando e lidando com a menstruação de uma autista nível 2, ou seja, dependente de suporte, talvez sirva de inspiração para quem pretende começar a se preparar ou já se vê enfrentando esse desafio.

Quando tinha por volta de 09 anos de idade, notei os primeiros sinais de mudança no corpo da minha filha e entendi o tamanho do problema que estava por vir. Não que ela seja incapaz de enfrentar o desafio que tiver que enfrentar, mas pela hipersensibilidade sensorial apresentada por ela desde bebê.

Sim, ela sempre teve problemas com toque, sempre teve problemas com banheiro e sempre demonstrou extrema aversão a tudo o que nosso corpo produz: fezes, xixi, suor, catarro, fluidos de qualquer ordem. Eu já sabia disso, era preciso agir, preparar para o que viria no sentido de familiarizar ela com a ideia de que menstruação é algo natural.

Procuramos um especialista em crescimento e aprendi que aos nove anos a puberdade não é precoce. Nesta hora eu me arrependi por não ter começado mais cedo a me informar.

Em casa comecei a falar sobre o assunto com bastante frequência. Quando ela estava por perto comentava sobre menstruação com alguém só para ela ouvir, mas antes, combinava com a pessoa para que ela não ouvisse as reclamações tão comuns quando esse é o assunto. Mostrei propagandas de absorventes, fiz com que o assunto se tornasse pauta das nossas conversas diárias.

A partir daí comecei a contar que isso iria acontecer com ela. Interessante que alguns anos depois, em uma conferência, ouvi uma autista dizer que ficou extremamente em choque com sua primeira menstruação. Ela já tinha ouvido tudo a respeito do tema, sabia que acontecia com mulheres, mas ninguém nunca tinha dito a ela que aconteceria com ela também.

Se você acha estranho pense no quanto é comum, por exemplo, sei lá… ataque cardíaco. Mas de ser comum a saber que vai acontecer com você é algo bem diferente.

A gente faz essas inferências com muita naturalidade, mas nem todo autista é capaz de fazer conclusões que para nós são tão obvias. Por isso eu fiquei feliz por ter dito para minha filha que ela ficaria menstruada e ela ficou apavorada quando soube.

Segui por um ano tentando colocar um protetor de calcinha de vez em quando. Era muito raro o dia que ela deixava. Mesmo assim valeu para dessensibilizar um pouquinho. Depois eu a levei em uma ginecologista que conversou, mostrou naqueles manequins de consultório tudo o que acontecia internamente para a menstruação ocorrer. Não sei se ajudou porque quanto mais a gente explicava ela dizia que não queria sangue…

Eu também pedi para a mãe de uma coleguinha dela que estimulasse a filha a falar para quando estava menstruada para ela sentir mais proximidade e identidade. Fui colocando em cada área da vida dela este assunto.

O primeiro ciclo não foi tão desesperador e, mesmo assim, ela quase surtou. Experimentamos um anticoncepcional para ela não precisar menstruar, mas foi horrível, trocamos de pílula e foi pior. Decidi parar e enfrentar o desafio. Por quatro anos ela menstruou normalmente e por quatro anos sofremos todos os meses.

Veio a fase da síndrome do vômito cíclico, que fez ela ficar com ânsia de vômito por dias e dias que coincidia entre outros eventos com a menstruação. Por cima de tudo, ela começou a sentir cólicas, se recusar a sair de casa quando estava menstruada até que um dia ela passou quatro horas gritando sem parar e engatinhando pela casa porque quando se levantava ela sentia o sangue descer.

Quando aquela menstruação acabou eu estava decidida a agir. Foi quando comecei de novo a testar anticoncepcionais. Hoje em dia ela toma um sem parar, sendo que a cada 3 meses mais ou menos, vem um escape, porém é um fluxo menor e quase sem cólicas.

O remédio trouxe um ganho de peso, mas ainda assim o custo-benefício compensa. Vou tentar retirar ocasionalmente, mas quando estivermos fortes suficientes para esta que vai ser uma verdadeira batalha.

Nem sempre Autismo e menstruação significam sofrimento

Milena tem colegas de escola que tem o mesmo nível de Autismo, idades próximas. São oito garotas e nenhuma delas sofre tanto com a menstruação. Não sei se foi o suporte especializado recebido da escola a vida toda, pois todas nasceram aqui no Reino Unido, não sei se é algo pessoal, mas estou dizendo isso para não desanimar quem está lendo ou ouvindo este post para se preparar porque tem uma filha autista. Não há motivo para antecipar sofrimento.

É possível que uma autista passe pela experiência da menstruação sem dramas, desde que tenha a informação e a preparação para isso.

Deixo aqui para finalizar este post algumas dicas que, espero, possam contribuir para que vocês vivenciem esta experiência da forma mais tranquila possível.

  1. Comece com pequenas doses de informação a respeito da puberdade. Se possível, comece por volta dos oito anos de idade ou antes.
  2. Quando ela estiver por perto, converse com amigas ou parentes a respeito de suas menstruações, o objetivo é mostrar que toda mulher passa por isso e que nem sempre é ruim.
  3. Você vai precisar abordar o lado não tão bom como a possível ocorrência de desconforto, odores, necessidade constante de ir ao banheiro para trocas de absorvente.
  4. Fale sobre a rotina de troca de absorvente e higiene nestes dias. Após falar algumas vezes, deixe que ela te veja fazendo a sua própria higiene. Escolha dias de fluxo menos intenso e vá aos poucos mostrando como se troca de absorvente.
  5. Mostre as várias opções. As calcinhas absorventes são as preferidas entre autistas que perguntei.
  6. Esteja alerta para a hipersensibilidade sensorial. Leia sobre interocepção que é um dos nossos sentidos e dizem respeito a sentir o que acontece no interior do corpo como movimentos do intestino, fluxos e neste caso, o sangue a escorrendo desde o útero. Esse é um sintoma muito frequente que nem sempre se consegue explicar.
  7. Deixe aberto um canal de diálogo para a expressão dos receios. Há muitas garotas que entram em pânico ao saberem que podem deixar manchas em assentos ou nas roupas. Infelizmente, os estigmas estão presentes na sociedade, o que deveria ser algo natural é exageradamente condenado pelas pessoas.
  8. Crie um álbum, caderno ou diário da menstruação. Comece com desenhos, recortes, frases, fotos de tudo o que envolve o processo de menstruar. Deixe espaço para o registro da menarca (primeiro sangramento) e também os relatos daquele dia, as expressões, humor e tudo o que envolveu este dia memorável.

Tópicos que você pode abordar:

Sangue

  • Sangrar não é o mesmo que machucar
  • Sangue não é sujeira
  • Quanto de sangue a gente perde na menstruação?
  • E se vazar sangue, o que faço?

O ciclo menstrual

  • Calendário – atrasos e escapes: pode acontecer sem dia marcado
  • TPM – O humor pode mudar antes e durante

Por que da menstruação

Quem menstrua e quem não menstrua

Outros sinais de que estou crescendo

Cólicas menstruais

  • Nem sempre acontecem, mas às vezes sim

Absorventes

  • Modelos: apresente todos mesmo os que você não tem intenção de usar pois ela poderá ver alguma amiga usando
  • Como colocar, tirar, manipular
  • Aprender a levar consigo um absorvente

Falar sobre menstruação

  • Com quem posso conversar sobre isso
  • Quando falar sobre esse assunto
  • Quando não falar sobre esse assunto
  • Quem pode me ajudar
  • Com quem devo contar se precisar

É isso. Espero que este post tenha te trazido inspiração para que você ensine ou prepare para este período que embora natural, é tão delicado e que exige tanto da nossa capacidade de readaptação.

Um abraço com carinho, obrigada por ler ou ouvir e até o próximo post.

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