12 anos

Gente diferente e gente que diferencia: o preconceito nosso de cada dia

Talvez para você possa parecer muito pouco prático falar de preconceito quando nosso foco é a melhora do quadro de crianças com autismo, o ganho em independência e autonomia. Mas tem tudo a ver sabia?

Quando temos uma venda nos olhos caminhamos muito mal, quando estamos em um processo que nos exige ver além dos rótulos, enxergar a pessoa e o seu potencial real para além do que ela mesma demonstra (falamos disso aqui), precisamos ter o nosso olhar livre de padrões formatados e impostos. A resposta vai vir fora do padrão, o comportamento vai estar fora do padrão, se você não percebe isso, talvez seu caminho vai ser um pouco mais difícil.

Outro dia uma pessoa em um grupo sobre autismo, publicou a foto da filha, uma linda garotinha, gordinha e feliz com estes sorrisos que fazem quem olha sorrir também. Logo abaixo, um jovem adolescente comentou que aquela menininha devia mesmo ir para uma academia para emagrecer. Bom, este era um grupo sobre autismo e o comentário fora do contexto e sem nenhum filtro social me acendeu uma enorme lâmpada de alerta sobre o próprio autor do comentário ter um comprometimento qualquer, dentro talvez, do espectro do autismo. Eu li o comentário e sorri, pois era quase infantil, imaturo e a meu ver não merecia atenção, mas para minha tristeza o que veio a seguir foi desolador. As mães se revoltaram e agrediram verbalmente o garoto de todas as formas e uma delas mencionou um problema mental de forma pejorativa.

Para pedir aceitação, você precisa aprender a aceitar... e isso é muito difícil!

Sabe essas horas que você permite que toda a descrença do mundo venha à tona?! Pois bem, eu cedi e por muito pouco não entrei na sintonia daquele diálogo de ofensas. Mas reagi, virei meu botão interno para o positivo e pensei na dor daquelas mães, o quanto não estavam engasgadas com o mundo de preconceito que elas mesmas têm vivenciado e que trouxeram à tona o próprio preconceito, aquele que todos nós temos ainda que sem saber.

Imagine se eu por minha vez começasse a odiar aquelas mães e deixasse um outro comentário raivoso, o que não ia virar? Eu levanto uma bandeira de aceitação às diferenças, mas não aceito quem pensa diferente… é isso? Na verdade, eu não aceito a atitude de discriminação e não concordo com o preconceito, mas não posso enquadrar uma pessoa inteira, só porque um de seus princípios fere o meu padrão pessoal, eu sempre insisto que muitas vezes é sábio separarmos a pessoa e a atitude da pessoa, atitudes impulsivas nem sempre refletem o que a pessoa se esforça em melhorar.

Não faz mal aceitar alguém assim no teu coração, a vida se encarrega de manter junto de você as tuas afinidades, as outras pessoas se afastam naturalmente para os níveis de convivência em menor grau, que seja então uma convivência pautada no respeito mesmo quando não se pauta na concordância.

Na televisão Britânica tem um documentário que questiona se o povo aqui é preconceituoso e a repórter que é filha de imigrantes, uma morena linda, submete-se a uma ressonância magnética que mostra no cérebro a reação da pessoa diante de imagens mostradas, relacionadas ao preconceito. Ela, a repórter, que sofre preconceito até mesmo durante o programa, fica revoltada consigo mesma ao ver que lá dentro dela, escondido, estão impregnados os padrões sociais e que as diferenças mostradas nas figuras trazem uma reação cerebral imediata e incontrolável. É a raiz do preconceito plantada lá dentro, pela cultura, pela educação e que faz uma mãe de uma criança com autismo, manifestar sua revolta chamando o outro de “doente mental”…

O quanto nós realmente achamos tranquilo ver um rapaz de vinte anos namorando uma mulher de quarenta? Ou um casal onde o homem é obeso e a mulher é escultural? Quem de nós reage acolhendo, incluindo a pessoa que considera chata? Quem tem paciência com alguém que fala de um assunto só? Como olhamos uma mulher que veste burca?

A gente pede mesmo por um mundo mais inclusivo e eu sei que desejamos isso. Mas podemos mesmo exigir a mudança sem fazermos nada para nos mudar? “Seja você a mudança que quer ver no mundo”, foi o que Gandhi disse e eu acho que é bem por aí…

Quando morava no Rio, um dia passeando no calçadão, vi uma pessoa que acenava para todo mundo. Achei que era uma pegadinha ou algum estudante de psicologia fazendo um experimento… as pessoas passavam direto, fechavam a cara e seguiam. Eu parei, estendi a mão e ele surpreso, me chamou para ir ao cinema… Eu sorri, disse que era casada e ele disse que não tinha problema nenhum, dei uma desculpa e segui.

Continuei por vários dias me encontrando com ele, nos tornamos amigos. O cinema nunca aconteceu, eu nunca me encontrei com ele fora do calçadão, apenas dei meu telefone e ele me ligava todos os dias. Todos os dias no mesmo horário: – alô, a Cristina? Meu marido brincava: o que tem a Cristina? E ele emendava: chama a Cristina por favor?

Quando eu atendia ele perguntava logo: Cristina vamos no cinema comigo?

M. é autista, claro. Um autista adulto que anda pelas ruas e quer fazer amigos. Tem um jeito muito peculiar de abordar as pessoas e me disse que trabalha. Depois descobri que se trata de uma clínica em que faz terapia desde que era criança, onde ele paga para “trabalhar”, mas isso ele só conta para os amigos. Era preciso paciência para as ligações diárias, para a voz sem entonação e os mesmos assuntos, mas e eu me sentia honrada por ter me tornado sua amiga. Lidei com o meu desconforto de uma amizade fora do padrão e dei boas risadas ao tentar tirar dele alguma informação, emendando uma pergunta minha assim que eu terminava de responder a uma pergunta dele, e dizia que só respondia depois que ele me respondesse também. Aprendi muito, quando eu disse que ia me mudar dali uns meses, ele nunca mais me ligou.

Eu o vi, na última vez que fui ao Rio, assim que desci do táxi, foi a primeira pessoa que eu vi, passando do outro lado da calçada, sacolas de compras na mão, cabelos brancos já aparecendo. Eu sorri, ele não me viu.

Como eu quero que o mundo aceite minha Milena e suas intermináveis perguntas se eu não aceito quem faz uma crítica inocente a uma foto da minha filha? Como eu quero exigir que a pessoa ao lado aceite uma menina pulando na sua frente se na verdade eu ainda padronizo em grupos quem serve ou não serve para conviver comigo?

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Eu posso mesmo achar coerente seguir dizendo: aceite as diferenças e se você não as aceita eu não te aceito? Ou então: eu não aceito os rótulos, mas coloca um rótulo em todo mundo e divide o mundo em dois grupos o tempo todo?  Se você não vê o quanto é incoerente, talvez nunca vai ver o que deseja, pois o problema está justamente aí, no seu jeito de olhar.

Neste mundo cheio de desafios eu sempre acabo concluindo que refletimos o que está aqui guardado dentro da gente. E percebo estarrecida que séculos e séculos se passaram e a gente ainda não aprendeu quase nada sobre  “amar o próximo”, nem a “conhecer a si mesmo” e que o “eu sei que nada sei” é considerado por pouquíssimas pessoas e é justamente onde mora a mágica toda! Quando nos descobrimos aprendizes e nos livramos aos poucos dos padrões é libertador, mas isso a gente está apenas começando a aprender.

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Haydée
Visitante

Adorei o texto, querida. Tenho trabalhado muito contra esses preconceitos “escondidos” em mim mesma. Procuro olhar o rosto das pessoas, antes de qualquer outra coisa. Ele mostra muito e, ao mesmo tempo, nos iguala muito também. Somos iguais, não é? Acho que não vou conseguir me fazer entender, eheh, certos assuntos ficam fáceis quando falados, não sou boa na “escrivinhação”, ahah. Beijos, sorte por aí nessa nevoenta Albion.

Antonio Wanderley
Visitante

Olá Cristina!
Bom dia!
Penso que o preconceito está presente em tudo e em todo lugar. Às vezes grosseiramente, outras, sutilmente. Somos todos preconceituosos. A sinceridade, a coerência, o amor, a sabedoria são determinantes para o enfrentamento de todo tipo de intolerâncias.

Abraços,

Antonio Wanderley

Elisabete Santos
Visitante
Texto profundo e que vai ao cerne da questão! Sempre pensei muito sobre este assunto porque eu sofri muito de preconceito por ser diferente. E foi já em idade adulta que me apercebi que ainda tinha questões preconceituosas por resolver – eu! Que sempre achei que não era preconceituosa. Pois é, esta retirada do preconceito é um exercício constante ao longo da vida, porque a vida não para e está em constante evolução. Amei tanto a tua estória com o senhor autista do Rio! Tenho algumas histórias semelhantes ao longo da minha vida, de amigos que enriqueceram mais a minha… Leia mais »
Juliana
Visitante
Que bom que existem no mundo pessoas iguais a você! é nisso que tento me apegar! Meu lindo filho adora fazer amizades, dia desses fui a uma padaria sem ele e as moças do caixa perguntaram: _Cadê o nosso amigo?, fiquei tão feliz pq na verdade achei q elas nem davam moral prá ele… aí voltei com ele outro dia e elas disseram prá ele q ele estava sumido coisa e tal e ele saiu de lá se achando! No alto dos seus 6 aninhos ele é assim, dá amor de graça prá quem se aproxima dele, uns acham estranho,… Leia mais »
ingrid r m
Visitante

um tanto difícil fazer uma crítica em relacão ao assunto e a si mesmo, mas temos que nos corrigir todos os dias, somente assim conseguiremos nos realizar como indivíduo mais coerente!

monica
Visitante

Fausta com certeza ler seus pista me trouxe um alivio pra alma!!..gostaria de entrar vem contato com VC..como faço?.. Bjs

Cláudia
Visitante

Profunda e rara reflexão. Um abraço!

Cláudia
Visitante

Excelente texto, profundo e raríssímo. Parabéns Cristina!

Cláudia
Visitante

Cristina, excelente texto, profundo e raro. Parabéns!

Cláudia
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Excelente texto!

Amaury
Visitante

Excelente texto. Como diria São Francisco,é melhor compreender que ser compreendido.