Sobre essa pergunta constante: “o que fazer agora?”

Não… me desculpe, mas você não vai saber do que estou falando se não tem alguém com autismo ou algum transtorno do desenvolvimento em sua vida…. Justamente porque o desenvolvimento típico faz o seu papel e segue etapas naturalmente e que quase nunca precisa de ajuda e condução.

Para nós que estamos lidando com falhas neste ritmo, é preciso estar o tempo todo atentos ao processo e buscando a todo custo identificar e a preencher as falhas que prejudicam tanto essas pessoas que estão nesse curso de desenvolvimento atípico.

É assim: você sente uma felicidade sem fim pois seu filho, aluno, familiar ou paciente conquistou uma nova habilidade, mostrou que sabe algo que você nem sabia que ele ou ela tinha aprendido e a alegria que você sente é maior do que você consegue explicar. Pode ser algo tão comum como comer sozinho usando talheres, apontar algo para te mostrar, uma palavra nova, um pedido de ajuda. Se você é mãe ou pai provavelmente chorou sem que ninguém visse e agradeceu lá do fundo do coração por esta pequena conquista.

Passado o êxtase volta a inquietação com corda total, você já espera pelo próximo desafio. Você já enxerga uma nova dificuldade ou mesmo uma antiga e persistente e já pensa no que fazer para superar, já tenta visualizar o próximo passo.

Sim, eu sei, é difícil. Mas sei também que não há peso quando há amor, ou melhor, o peso é suportado quando há amor e você sabe que nunca vai desistir e sabe também que não há nada mais desgastante do que reclamar e se está no caminho a algum tempo entendeu que sua energia vai toda embora quando você deixa o negativismo te abater.

Aí mais uma vez, você começa de novo a fazer os esforços para mais uma conquista, para não perder o que já ganhou, para mais uma vez ensinar o que já vem ensinando a quase um ano e ainda vai conseguir não sei de onde, tirar paciência para ouvir alguém te dizendo que talvez, você não esteja fazendo a coisa certa. Pois é… tem gente que vive neste eterno lamentar, mas a grande maioria de nós estamos mesmo é na busca constante por melhores resultados, incansavelmente e na maioria das vezes nem percebemos isso.

E assim você comemora uma vitória no mesmo momento que identificou o novo desafio e segue rumo a ele, afinal, não vai demorar para surgir desta criança um adulto, que vai precisar de todos os instrumentos possíveis para ter autonomia e ser independente e esse é invariavelmente o objetivo que perseguimos.

Às vezes acontece – e acontece muito – de você não identificar o que fazer em seguida. A criança está bem no geral, mas se você olha de perto vê que ela precisa aprender e melhorar, mas não tem ideia do que fazer, e aí?

A gente vive dizendo e ouvindo dizer que não devemos comparar, que cada criança, com autismo ou não, é única e que você vai só se frustrar se ficar olhando para o quintal do vizinho que nem é tão verde assim… pois bem, aquilo que cura também mata, ou o que mata pode também curar. Direto ao ponto: comparar pode ser instrumento valioso se for usado da forma correta.

Você não vai comparar a criança no que ela “deveria ser se fosse normal” (creia, você jamais saberia dizer) nem ficar colecionando as habilidades que seu sobrinho tem e que sua criança não tem. Mas você pode e deve olhar para as crianças da mesma idade e ver qual a habilidade está faltando, o que sua criança precisa adquirir. Focar o olhar e deixar o seu coração apontar o próximo passo ao invés de simplesmente ignorar ou ficar achando que tal coisa nunca vai acontecer.

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Observe, estude, pesquise sobre desenvolvimento infantil

Hoje em dia, ao ver a minha Milena fazendo algumas coisas de forma independente eu penso no quanto ela me surpreende, pois eu realmente tinha motivos para acreditar que algumas destas coisas ela não iria conseguir fazer. E o que mais ela escuta de mim é: “você pode fazer o que quiser, se as outras meninas fazem e você quer fazer também, você pode”. Mas eu precisei acreditar nisso antes de falar.

Eu sei que não é simples, mas por favor, faça este esforço. Olhe para as crianças, veja o que falta conquistar e faça coisas simples que estimule estas habilidades.

Algumas perguntas que me nortearam:
– Como a criança de X anos brinca? Em que ela se interessa?
– Como a Milena passa o tempo dela?
– O que ela está fazendo quando está sozinha?
– Qual habilidade de independência ela aprendeu ultimamente? Como ampliar ou melhorar essa habilidade? (Por exemplo, se ela aprendeu a se vestir posso ensinar a escolher a roupa e colocar a roupa suja no lugar e guardar a roupa que ela tira).

Eu passo um tempo só com ela todos os dias. Tiro alguns minutos do meu dia para dar atenção exclusiva para ela, somos nós duas juntas por um tempo, ela costuma me cobrar esse tempo. Nestes momentos (que nem sempre são fáceis ou prazerosos, pois sou muito ansiosa) eu tento conversar, brincar, fazer o que ela esta fazendo quando ela me dá permissão.

Estes momentos são muito importantes para que eu tenha essa ideia do que está imaturo e do que está melhorando.

Usando o exemplo da comunicação. Você pode e deve perceber vários pontos na sua criança. Como ela se comunica? Ela conta sobre seu dia? Ela te busca para pedir ajuda? Ela sabe solicitar ajuda? Ela inicia um diálogo, ela mantém um diálogo? Ela consegue ler em você uma cara de susto por exemplo? Ou de nojo? Como ela reage a isso? Ela te consola ou ela procura encontrar o que te assustou ou o que te fez ter nojo? Ela pergunta para descobrir o porquê do seu susto/nojo?

Você só vai perceber tudo isso se observar muito bem as outras crianças e também sua criança. Mas não perca isso! Olhe, observe com cuidado e com pequenas ações dê modelo, faça com outro adulto o que você quer que sua criança aprenda, teatralize, mostre como se faz. Ensine ela a fazer, fale por ela, envolva-a pelas costas e fale como se fosse ela. Se quer ensinar ela a brincar, convide amigos para sua casa e junte-se a eles, brinque ajudando nas falhas que sua criança apresenta. Milena muitas vezes vinha até mim e me pedia: “mãe, você me ajuda a brincar com a fulana?”

Pode ser mais simples do que parece, dar modelos de comunicação e ajudando a criança a se comunicar melhor (falando por ela se preciso, se colocando atrás dela e falando com outra pessoa como se você fosse ela). Mas ensine sem cobrar, repita muitas e muitas e muitas vezes. Ensine ela a obter atenção, a pedir o que quer, dificulte sempre a vida dela, não fique feliz por ela ser independente em tudo, para se comunicar é necessário precisar do outro. Crianças com autismo muitas vezes são muito autônomas mas apenas dentro da rotina da casa e os pais acham lindo…

Na verdade, é preciso aprender a pedir ajuda, pois quando o ambiente for outro, esta pessoa não vai saber se virar sozinha, e a solicitação, o pedir é o primeiro degrau que vem junto com o chamar atenção para si (geralmente para pedir algo).

E são estes detalhes que fazem toda a diferença, saber que a comunicação tem etapas e que pular uma etapa não é vantagem, vai fazer falta em outros momentos e é quando o transtorno do desenvolvimento traz a limitação.

Muitas vezes você vai precisar dizer (por ela): “estou com raiva porque não quero parar de brincar” ou então: “você pode me ajudar? Não consigo alcançar meus sapatos”… Você diz no início e depois vá perguntando a ela como ela pode fazer para pedir, estimulando que ela peça a você ou ensinando ela a pedir para outras pessoas.

E assim com atitudes diárias de estímulo você vai auxiliando. Respeitando o ritmo e o tempo mas não se rendendo a ele. A nossa tendência é relaxar, se acomodar e é isso que uma criança que se desenvolve não pode fazer, ela precisa crescer sempre.

Leia sobre desenvolvimento infantil, podemos conversar sobre isso se você quiser, mas o mais importante tenha olhos de ver e observe esta criança. Seu coração vai dizer sobre o próximo passo. Por fim comemore, vibre a cada conquista, cada pequeno novo gesto ou olhar, cada nova palavra ou atitude. Vocês merecem vivenciar essa emoção, nós merecemos.

Estou aqui neste processo e analise agora mesmo com minha Milena. Ela já conseguiu tanto, tão mais do que eu mesmo pensei, mas há tanto o que conquistar!

Que a gente siga sem cansaço na certeza de que eles podem conseguir simplesmente tudo, a gente só precisa ter olhos de ver e sensibilidade de enxergar.

Vou deixar o link de um um texto que escrevi quando a Mi tinha oito anos e que descreve um pouco do que eu fazia para estimular o se desenvolvimento: https://mundodami.com/2011/06/03/estimulacao-sempre/

 

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5 Comentários

  • Responder Barbara 6 de maio de 2016 at 12:42

    Ah que perfeito… vc expressou nesse texto simplesmente tudo que eu acredito… Obrigada… Muito Obrigada… Me sinto mais confiante de que o meu caminho está indo pra direção certa.

    • Responder faustacristina 6 de maio de 2016 at 12:46

      Que bom!!!
      Fico mais do que feliz com seu comentário querida!
      Um abraço cheio de carinho e a torcida pelas conquistas que virão deste esforço!

  • Responder Malu Carli 7 de maio de 2016 at 15:38

    Bom dia, Fausta Cristina! Agradeço muito por eu ter escolhido ou ter sido escolhida para trabalhar nessa área tão rica em detalhes e manter a criança interna viva dentro de mim.É gratificante encontrar pessoas tão linda quanto você e ter o privilégio de ler algo tão agradável que são seus textos. Gratidão, grande beijo para vc e Milena

    • Responder faustacristina 11 de maio de 2016 at 07:33

      Malu
      Você sempre tão carinhosa! De verdade quem tem que agradecer sou eu por você me deixar fazer parte das suas escolhas e principalmente da sua admiração. Também admiro quem se propõe a trabalhar com nossas crianças tão lindamente especiais. Costumo dizer que eu não escolhi o autismo e por isso admiro demais quem o escolheu e só tenho que agradecer.
      Um abraço minha querida!

  • Responder BIANCA BITTENCOURT 9 de junho de 2016 at 18:17

    Voce eh sempre delicada e,ao mesmo tempo,firme em seus textos! Obrigada por este blog!beijos!

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