Entre minha neta e minha filha – o que o autismo não me deixa ver

Acabo de me despedir da minha neta, ela voltou para Minas depois de quase duas semanas aqui em casa. Além daquele vazio que vocês podem bem imaginar que fica na casa, ficou também o assombro que me assalta sempre que convivo com ela ou com qualquer outra criança com desenvolvimento típico por mais tempo.

Como pegam tudo tão rápido, como assimilam as coisas e transformam logo o que assimilaram em algo mais elaborado e pessoal!!!

Quem me acompanha a mais tempo sabe que sou uma apaixonada pelas teorias do desenvolvimento infantil, eu passo horas lendo, assistindo, aprendendo sobre desenvolvimento. Comecei a gostar na faculdade mas se tornou paixão depois do autismo.

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Depois que você entende as etapas que todos nós percorremos quanto estamos crescendo e aprendendo, fica mais fácil identificar e ver este verdadeiro milagre acontecer toda vez que cruzamos com uma criança, principalmente nos primeiros anos de vida.

Saber mais sobre desenvolvimento faz com que nós, mães de crianças com transtorno do desenvolvimento, possamos ver o que nossos filhos estão deixando de explorar.

O desenvolvimento de uma criança começa já no útero e aos poucos várias etapas vão sendo percorridas. Cada etapa superada se torna base para outra mais complexa e nenhuma etapa mais básica pode ser pulada, ou seja, não adianta estimular na hora errada. Nós muitas vezes cometemos este erro ao tentar ensinar coisas comuns à idade dos nossos filhos, mas se algo ficou para trás sem se desenvolver, esta conquista não virá.

Os teóricos interacionistas vão dizer que o meio precisa oferecer oportunidade e desafio para que a criança construa este crescimento, as crianças típicas vão buscar isso o tempo todo, as crianças com autismo muitas vezes vão precisar ser estimuladas a buscar.

Costumo dizer sempre para as mães dos pequenos, com autismo ou não: Dificulte a vida de seu filho, quanto mais problemas ele precisar resolver mais ele poderá sedimentar os conhecimentos que adquiriu. A pior coisa que fazemos é adivinhar o que nosso filho quer antes mesmo dele pedir.

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No autismo o processo de desenvolvimento que se dá por etapas acontece de forma diferente, não é linear, há avanços “invisíveis” pois às vezes você só sabe que a criança aprendeu muito tempo depois, quando ela decide fazer algo que você nem sabia que ela sabia fazer. O processo de acomodação da aprendizagem, (que não me cabe aqui explicar por que seria chato para um post), é muito particular e no autismo ele é indefinido, pode demorar ou muitas vezes até mesmo fazer parecer que a criança perdeu habilidades que conquistou ou que “desaprendeu” o que sabia fazer.

E é aí que toda a teoria se embaralha e deixa de fazer sentido. Eles mostram saber muito de alguma coisa e quase nada de outra que parece ser básica.

A gente até entende que não dá para aprender a andar sem ter se erguido para sentar e que não é possível aprender a ler sem ter noção de que existe sequência, ritmo, tempo, símbolos. A aprendizagem concreta tem que vir antes da abstrata e assim por diante… Mas o difícil é perceber os aprendizados mais sutis em quem não tem interesse nenhum em se mostrar ou às vezes aprendeu a fazer mas quer fazer de outro jeito.

Na pessoa com autismo o desenvolvimento também segue as mesmas etapas mas é sua expressão que nos deixa confusos.

Uma criança com autismo pode aprender a andar, ela sabe, você a viu caminhando algumas vezes e de repente ela para de andar e volta a engatinhar apenas. Por dias, semanas ela não anda mais até que um belo dia retoma o processo não antes de te matar de susto e angústia!

Os testes e avaliações precisam ser aplicados com cuidado e por alguém muito experiente, pois as pessoas com autismo não revelam o que sabem em qualquer ambiente ou quando queremos e pedimos…

Você ensina algo e ela não te dá retorno imediato para você saber se ela “captou” a coisa toda ou não! Ela não tem a motivação que nós temos, quando eu aprendo a patinar por exemplo, eu quero postar no face, mostrar por marido, dizer para vizinha que agora eu sei patinar! Além da minha satisfação pessoal, quero mostrar, compartilhar dizer ao mundo como eu me saí bem diante deste desafio que foi aprender a patinar.

A pessoa com autismo não. Ela não se orienta pela mesma linda de motivação e é por isso que muitas vezes eles fazem algo incrível e quando você pede para repetirem para a vovó ver você fica com cara de mentirosa. Ou como aconteceu no Camp com o Eric, eu disse para ele que eu não conseguia por mais métodos que eu buscasse, ensinar a Mi a abotoar a calça, chamei ela desabotoei o botão e pedi para ela abotoar (queria que ele visse que era uma dificuldade motora) e ela simplesmente abotoou.

Nunca tinha acontecido! Ela abotoava com auxílio ou com a roupa fora do corpo… e ela simplesmente fez como se tivesse feito a vida toda.

Por isso fiquei tão completamente encantada olhando a Bruna, ela atendia à minha orientação e ficava feliz da vida com meu elogio ou simplesmente fazia algo por iniciativa própria e vinha me mostrar com alegria de quem escalou o Everest,!

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Não sei se já aconteceu com vocês, mas é uma sensação bem estranha. Eu sei que meu caminho interno é acolher, entender a minha filha em seu jeito único de se desenvolver e sei que aceitar os desníveis que acontecem faz parte disso, apesar de saber, fica este oco dentro de mim quando me pego pensando nas formas de ajudar. O que fazer? Como estimular?

É ler de novo um livro no seu idioma depois de passar anos lendo em grego : ] Aprender grego é bem bom, mas ler em português é relaxante se é que me entendem.

Em uma estrada onde a dúvida orienta meu caminhar muito mais que as teorias conseguem responder, é bom poder contar com a experiência de saber que onde a resposta não chega o amor sustenta. Muitas respostas eu encontrei dentro de mim e muitas outras com amigas e profissionais, mas nem de longe elas são suficientes para calar esta minha vontade de fazer tudo o que posso.

Por mais entranho que pareça posso dizer atualmente continuo na busca, mas mesmo assim nada me falta. Espero que seja assim para você também!

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6 Comentários

  • Responder Fabiana 12 de março de 2015 at 19:52

    Como sempre, seu texto é lindo e cheio de informações preciosas para todos os que educam e enfrentam o desafio de ser mãe. Me pergunto quanto nos passa despercebido no desenvolvimento deles, os filhos e netos, que carregam nossa mensagem para o futuro. Aprendo a cada dia lendo seus posts, com saudades envio mil beijos para vc e sua linda família!

    • Responder faustacristina 13 de março de 2015 at 22:54

      Obrigada Fabiana por esta pareceria virtual. Seguimos vendo nossos filhos crescerem fazendo cada uma do seu jeito, o melhor para eles e por eles. Que bom ser sua amiga, que bom!!!

  • Responder Janice Torres 13 de março de 2015 at 11:19

    Lindo, parabéns pelo texto. O autismo é singular e plural ao mesmo tempo. O que nós move é a busca constante pela melhor adaptação deles no mundo, buscamos..buscamos e buscamos…

    • Responder faustacristina 16 de março de 2015 at 21:40

      É isso Janice, singular e plural, muito bem definido!
      Um abraço grande para você, obrigada por comentar : ]

  • Responder faustacristina 13 de março de 2015 at 22:56

    Obrigada Michele. Adoro quando as pessoas deixam seus comentários seja onde for, eles são estimulantes e esse carinho que eu recebo de vocês acerta em cheio meu coração. É isso aí, continue semeando boas palavras, elas voltam para você em forma de flor : ] Beijo!

  • Responder Gente diferente e gente que diferencia: o preconceito nosso de cada dia | Mundo da Mi 21 de outubro de 2015 at 11:48

    […] enxergar a pessoa e o seu potencial real para além do que ela mesma demonstra (falamos disso aqui), precisamos ter o nosso olhar livre de padrões formatados e impostos. A resposta vai vir fora do […]

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