Aprendendo sobre o autismo de minha filha

O Autismo transformou radicalmente a minha vida. Hoje, ocupo o meu tempo livre estudando e compartilhando o que vou aprendendo sobre a síndrome. Fazendo uma junção dos olhares da pedagoga, da psicopedagoga e da mãe, posso doar um pouco e retribuir as muitas dádivas que recebo da vida.

Impressionante pensar no quanto Milena muda a cada dia e como eu vou também mudando o jeito de encarar os desafios do Autismo. Se antes era aflição, ansiedade, expectativa as minhas principais emoções, hoje são acolhimento, aceitação e força. forteb

Acho que essa musculação que eu fiz nos primeiros anos, levantando os pesos da dor e da busca frenética pela “cura possível” me fizeram fortes o suficiente para encarar o fato de que mirei alto demais (e tinha que ser assim), transferi um objetivo meu para outro indivíduo que tem seu próprio tempo, que tem seu próprio ritmo.

Perceber hoje com serenidade, que as limitações de minha filha não dependem apenas de estimulação para serem superadas, significa que eu estou muito diferente.

batepapo

Bate Papo Autismo & Vida

Eu recebo pais, familiares e profissionais de pessoas com Autismo, semanalmente na sede do Instituto, um trabalho que se chama, Bate-papo Autismo e Vida. Pois bem, a grande maioria são pais de crianças pequenas com diagnóstico recente e eu consigo identificar os níveis de ansiedade, mais que naturais, Alguns procuram como eu já procurei,uma receita de passos a serem dados que sejam eficazes para os problemas que estão enfrentando com seus filhos.ansiedadeautismo

Olho para eles e me vejo, eu os compreendo tanto que talvez por isso saem tão reconfortados! Nem tanto pelo que ouviram de mim, mas principalmente por sentirem essa compreensão acolhedora. Recebo nestes encontros, muito mais do que o pouquinho que consigo dar.

Olhar Milena hoje é perceber que embora todos os nossos investimentos, ela imprimiu o ritmo dela e cresceu no tempo dela. Não mudaria uma só linha da história que estamos escrevendo até aqui, acho que a tal busca frenética pela estimulação tem que existir e tem que nos impulsionar, só não podemos focar tanto nas terapias a ponto de esquecer quem somos nós (o que queremos, o que de fato buscamos) ou esquecer quem é a criança (sua personalidade, seu jeito de ser).

Esta semana, minha princesa teve um ataque daqueles. Gritos agudos, choro intenso, tapas e beliscões. Tive que dar uma palmada, pois ela estava me testando a ponto de quase me dar um tapa na cara… Dei uma palmada no bumbum e isso a paralisa, pois nunca fazemos isso, diante do inesperado ela fica estática. Também precisava mostrar a ela que bater dói e ReceitaBirrabtambém mostrar quem manda. Nem preciso dizer que fiquei arrasada né?

Tudo aconteceu porque fui busca-la na escola e uma auxiliar do pátio, muito querida, me disse que ela estava batendo e beliscando… Eu vim rezando um sermão até chegar em casa, como se eu não soubesse que hora de crise não é hora de educar, sermão não significa nada para quem tem Autismo… Como EU não estava em um dia bom (o que influencia muito) acho que falei demais só para desabafar. Aí não deu outra, ela entrou no elevador e começou a me bater e gritar…

Nem precisei me esforçar para saber o motivo da crise, é que a acompanhante dela na escola, a segunda este ano, saiu e ela ficou muito fragilizada…

Eu sei que o ideal seria contornar a situação direcionado sua atenção para algo que ela gosta, desta forma eu iria fornecer estímulos reconfortantes e calmantes. Depois com um sistema de recompensa por seu bem desempenho conseguiria motiva-lá a não repetir o comportamento, como apoio poderia contar histórias sobre meninas que batem e beliscam.

Por isso é tão importante cuidar do nosso próprio emocional… Aquela comparação que sempre faço por aqui sobre a instrução do avião: máscara de oxigênio primeiro no adulto (como no post de 21/12/2011). Sim, precisamos estar bem, não chegaremos no padrão ideal pois ninguém é de ferro, mas no padrão do esforço possível.

AutismofraseINTOLERANCIANeste dia da crise, eu tinha acompanhado uma mãe em uma reunião na escola que expulsou seu filho com Autismo apenas dois meses após a matrícula… Eu estava mal com os absurdos que ouvi da diretora. Chorei muito e tudo o que eu não precisava era de uma crise da minha autistinha, mas foi o que aconteceu e não passei no teste, porém consegui reconhecer e identificar cada parte de erro do processo todo.

É por estas e outras que fico orgulhosa ao olhar pra mim mesma hoje em dia e ver quanto amadurecimento nesta jornada intensa vivenciando o Autismo diariamente. Ainda que eu não consiga dar conta de todas demandas que chegam minuto a minuto, consigo olhar para tudo de forma diferente.

Se no início desta jornada, o Autismo de minha filha era uma parede que se erguia assustadoramente entre nós, hoje ele se tornou uma camada transparente que ainda está presente, mas não me impede mais de enxergar a pessoa fantástica que ela é. Atualmente o Autismo ainda me assusta, mas se tornou “apenas” um desafio a mais.

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Para terminar, Milena sempre me vê justificar frente às pessoas que se admiram com o seu comportamento atrevido e indiscreto, traduzindo suas perguntas e acrescentando: ela é especial, ela tem autismo. Outro dia enquanto me esperava em um banheiro, ela tentou puxar assunto com a moça da limpeza, perguntou, elogiou e a mulher só olhava séria. Eu fiquei de longe observando e em seguida chamei-a para irmos embora. Quando viu que a mulher não ia mesmo falar com ela e estava até meio brava ela mesma manifestou: – não liga moça… Milena é “atista”. E saiu naturalmente em minha direção 😉

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