15 anos

Obsessões, fixações, manias e apego à rotina


*Use fones de ouvido para escutar o áudio melhor.

Minha mente está constantemente soando pensamentos, preocupações e dúvidas. O tempo gasto com minhas obsessões é o único tempo em que tenho a mente clara. Isto me traz aquele tão buscado relaxamento.

Adulto com Autismo

Pessoas com Autismo podem ter um interesse restrito e obsessivo desde muito cedo. Embora isso também possa surgir mais tarde. Porque no Autismo é mesmo assim, coisas comuns a todos podem não ser o comum para muitos. E é por isso que você tem que pensar na pessoa mais do que no Autismo.

Pessoas autistas podem se apegar a rotinas, objetos, pessoas, lugares e podem eleger objetos de preferência e eles podem ser bem estranhos. Ou podem ainda se apegar a movimentos como agitar as mãos, rodar fios ou barbantes, girar rodas ou alinhar brinquedos. Algumas manias não chegam a ser um problema, podem até mesmo servir para relaxar ou para ajudar na auto regulação. Outras manias terão um impacto negativo quando se tornam uma obsessão ou impedem a criança de aprender tomando seu tempo e sua atenção.

Repetições que acalmam

Me lembro lá no início desta minha jornada de aprendizado de conhecer um garotinho lindo quando eu fazia estágio em um programa de intervenção comportamental. Ele ficava o dia todo passando um trenzinho diante dos olhos somente parando para as atividades do dia a dia, nunca brincava, nunca interagia… Aquilo me impactou.

Pode parecer estranho, mas ações repetidas ajudam a trazer calma, ajudam a colocar certa ordem na variedade ampla de estímulos e informações que todos recebemos o tempo todo e que, em nosso desenvolvimento sem transtornos e em nosso cérebro com funções executivas relativamente eficientes, conseguiremos organizar priorizando aquilo que o momento pede.

Enfileirar coisas é uma grande diversão. (…) Quando brincamos assim, sentimos nosso cérebro centrado e organizado.

Naoki Hihashida, autista, no livro  “O que me faz pular”

Uma máquina chamada cérebro

Imagina uma máquina que possui um emaranhado de fios e que cada fio a seu tempo traz um impulso específico, com potência variada e que, para funcionar, a máquina define o impulso que chega e dá uma função a ele. E se, um curto circuito desregule esse sistema faça os impulsos elétricos chegarem ao mesmo tempo causando uma sobrecarga e isso exija que a máquina seja desligada de tempo em tempo para não queimar de vez.

É assim que o nosso cérebro típico pode seguir navegando neste mar de estimulação trazidos pelas luzes, sons, cheiros, emoções. E mesmo em meio a tudo isso tomamos decisões, lembramos o que dizer, decidimos quanta força empregar, que direção tomar e assim por diante. Ao nosso lado, alguém com Autismo que estiver em um momento de sobrecarga pode necessitar de toda a paciência, respeito e espera para se organizar. Não há nada de “errado” ali, não se trata de bom/ruim, capaz/incapaz, trata-se de diferentes formas de funcionar e necessidades diferenciadas.

Todos temos mecanismos mentais que falham vez ou outra. Como quando a gente fica horas em um ambiente com muito barulho tendo que prestar atenção a uma conversa qualquer ou defender uma ideia. É cansativo, mas nós nos regulamos. As pessoas com Autismo em muitos momentos não conseguem fazer esta regulação.

Por isso a rotina acalma. Por trazer uma certa previsibilidade, por ser familiar, por trazer ordem ao que a gente poderia chamar de confusão interna.

E é assim que os mais experientes viajantes ficam ansiosos no dia da viagem. A barriga esfria no primeiro dia do novo emprego ou no primeiro dia de aula. Não é rotina, é desconhecido. E o que é desconhecido desregula. Para muitos autistas que não são donos da programação das suas rotinas e, no mais das vezes nem são informados do que irá acontecer no seu dia, cada dia é como se fosse aquele dia de viagem.

Significando comportamentos e manias

Os comportamentos repetitivos podem ser reduzidos à medida que a pessoa se sente mais capaz e mais autoconfiante e você pode ajudar com isso. Dê significados aos comportamentos e manias, faça uso deles para incentivar qualquer outro comportamento que você está tentando ensinar. Use as manias e as preferências para redirecionar a atenção quando uma birra ou crise estiver no seu início. Ou apenas permita que elas ocorram nos momentos em que eles precisam descansar.

Aqui em casa tem que ter espaço para os comportamentos repetitivos e reguladores. Se eu deixar, Milena fica presa neles e se perde de nós, por isso tenho que abrir os olhos, o coração e a minha disposição, pois é bem mais fácil deixar ela por lá. Porém, eu sei que essa “facilidade” significa desafios futuros bem maiores. Por isso dedico tempo e atenção. Saio para caminhar, sento com ela e puxo conversa ou trago ela para a minha rotina nem que seja por breves momentos. Porém, quando ela está em crise, quando algo aconteceu que a perturbou eu deixo que ela fique nas suas repetições até que ela se sinta melhor.

Ou então, assim que ela começa a se desorganizar eu faço a voz do Furby ou falo sobre a amiga que ela ama e isso ajuda demais redirecionar sua atenção e desviar o desenvolvimento da crise. Sempre que preciso negociar algo que ela não quer fazer, uso as manias como motivação (apenas cuide para não usar como um suborno). Ela sabe que o “sim” dela significa o meu “sim”. Quando a chamo para arrumar a cama ela diz que “não”, eu lembro a ela desse nosso acordo. Hoje em dia, isso é quase sempre suficiente para que ela se engaje.

– Milena vamos arrumar a cama e trocar o pijama?

– Não quero

– Você tem certeza que a resposta é não? Posso te dar um não também quando você me pedir algo?

– Tá bom, mãe…

E assim ela sai com cara de adolescente revoltada e eu secretamente acho lindo esse ar de rebeldia e mais feliz fico por conseguir este acordo.

Fora da zona de conforto

Parece simples enquanto escrevo, mas é um desafio de vida. Porque a nossa mesmice (rede social, novela, série, conversar) também nos seduz e o esforço cansa. Por isso preciso me policiar muito para não deixar pra depois e ficar eu mesmo navegando nas minhas preferências dentro da minha própria zona de conforto.

Transformar os momentos em que estamos juntas em momentos prazerosos não é fácil mesmo, mas é possível e necessário. Isso não tira apenas a Milena das suas mesmices, me tira também das minhas, sim, nós os chamados neurotípicos, não vemos mas também ficamos no “nosso mundinho” com muita frequência, não é?

É muito importante respeitar a necessidade das manias, mesmo não estimulando que elas permaneçam. Conhecer ou entender os motivos que levam a criança a buscar estes comportamentos vai ser a chave para suas intervenções. Faça isso com cuidado e carinho. Ao invés de impor seu desejo, junte-se a ele ou ela, veja pelo mesmo ângulo, tente sentir o que a criança sente e com delicadeza vá redirecionando, pode ser bem complicado no começo, mas os resultados são tão animadores que irão te motivar, você vai ver.

O desafio das férias escolares

Por aqui neste momento estamos em férias escolares. São quase dois meses e cada dia traz esse desafio. Eu sei que para você isso pode ser difícil e muitas vezes você pode achar que não vai conseguir, mas o futuro do seu filho ou filha vai ser muito mais tranquilo se você entender, acolher, respeitar os limites. Mas mais do que isso, olhar, identificar e acreditar em tudo que ele ou ela é capaz. Essa crença por si só opera milagres, por isso nunca deixe de acreditar.

Mesmo autistas de grau clássico com comprometimentos sérios podem conseguir um nível de autonomia muito bom. Se não conseguir não é sua culpa e, claro, isso não depende apenas do que você faz ou deixa de fazer. O que defendo aqui é a crença na possibilidade e o investimento de tudo o que você for capaz. E se em algum momento isso se tornar pesado demais, que seja o amor por esse filho, por essa filha, que te façam prosseguir acreditando, investindo e te alimente de energia. No final a paz virá quando soubermos que fizemos não o que foi perfeito, mas tudo o que nos foi possível.

Encerro por aqui na certeza de que eu escrevo melhor, aquilo que mais preciso aprender. Obrigada por sua leitura, por sua escuta e por seu incentivo.

Só de olhar alguma coisa rodopiar, nos enchemos de alegria profunda durante todo o tempo em que ficamos ali admirando aquele movimento perfeito e regular. É sempre igual, cada vez que fazemos isso. Coisas constantes nos confortam, e existe uma beleza nelas.

Naoki Hihashida, autista, no livro “O que me faz pular”

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Fabiana
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Fabiana

Cris, adorei seu texto. Muito sabedoria em suas palavras. Saber dosar, deixar, mas buscar para junto. Esse desafio eu ja estou vivendo e nao quero nunca me acomodar. Obrigada por compartilhar sempre. Bjs!!!

cecilia
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cecilia

oi Fausta, incrível mas tu comentou exatamente o que tenho me perguntado e questionado ultimamente. Meu filho tem 9 anos e tenho aprendido muito contigo nos teus posts.Muito obrigado por dividir tuas experiencias com a gente.Grande abraço Cecília