15 anos

A impulsividade no Autismo e o quanto é realmente difícil entender


*Use fones de ouvido para escutar o áudio melhor.

Este blog é um espaço destinado principalmente às pessoas que tiveram suas vidas tocadas pelo Autismo. Mas frequentemente recebo visitas de corações sensíveis que buscam apenas informação para melhor se apropriar do conhecimento das diferenças humanas e poder agir de forma mais espontânea e natural diante de alguém com TEA. O que me move profundamente, pois diante do cada vez mais frequente diagnóstico de Autismo, a pessoa mais informada fará a diferença positiva na vida de muita gente.

É bom compartilhar a minha vida e ampliar a conscientização sobre o Autismo, afinal, tudo que o autista é nós também somos. A diferença entre quem tem e quem não tem autismo fica por conta do desequilíbrio destas características que, de fato, estão presentes em todos nós. Assim a impulsividade será demais ou de menos, a socialização pode ser demais (sim!) ou de menos e é daí que vem a grande confusão das pessoas. Por isso dizem “toda criança é assim”, “eu também faço isso”.

Ver característica de Autismo em quem não tem Autismo ou vice e versa é bem comum, afinal, elas não vieram de outro planeta. As crianças com Autismo se desenvolvem também como toda criança, são carinhosas, atenciosas, espertas como toda criança e vão aprender com o mundo que as cerca… como toda criança!

Porém, durante o seu desenvolvimento, haverá um desequilíbrio entre o que ela capta e a forma como processa isso em sua mente. O que enxerga é diferente, onde coloca sua atenção na hora de se apropriar da informação é muito diferente. Além do mais, haverá com frequência uma sobrecarga de estímulos a bloquear aprendizagens rotineiras. Haverá habilidades que não serão aprendidas da mesma forma que uma criança sem Autismo e há também a dificuldade em diferentes níveis de se comunicar com o mundo.

Esse conjunto de desequilíbrios trazem um transtorno que vai prevalecer pela vida.

Uma deficiência chamada Autismo

É verdade que o filho da vizinha também gosta muito do desenho do trenzinho Thomas. O que ela precisa entender é que o gostar da criança com Autismo pode virar uma obsessão que, se não compreendida e usada, pode ser tornar tão intensa que vai atrapalhar seu desenvolvimento e durar a vida inteira.

Identificar características comuns entre autistas e não autistas é muito legal, pois mostra que ser autista é ser gente. Porém tentar com isso reduzir a dificuldade que essas pessoas têm ao colocar todo mundo na mesma “caixa” ou dentro da mesma etiqueta, é negar o quanto para eles é difícil o esforço de se enquadrar.

O autista que se adeque, ele que aprenda… Esse é um jogo inverso no Autismo, que não vemos em nenhuma outra deficiência: não se exige do cego que leia, não se exige do tetraplégico que saia andando. Mas se exige do autista que se comporte igual a todo mundo, que seja “bem-comportado”.

Abrindo um parêntese aqui: o Autismo é uma deficiência e, se você tem problemas em categorizar como deficiência, você pode estar sendo preconceituoso. Pois todos nós somos ou seremos deficientes em algum ponto da vida, quem usa óculos é deficiente da vista, quem a idade faz ficar mais lento e desequilibrado tem deficiência motora e por aí vai. Autismo é deficiência e não tem problema algum de ser visto assim, viu? É o seu preconceito que torna o conceito: deficiência, algo negativo. Pois bem, voltando…

Minha filha tem que se adequar, claro, e eu não devo deixar de ensinar a ela como se comportar. E mais, devo esperar que ela aprenda, afinal, ela é tão capaz de aprender como qualquer outra criança! Porém, quando acontece o comportamento inadequado eu preciso buscar o que este comportamento quer comunicar e entender se ele ocorreu por ela estar sobrecarregada ou não ter conseguido se ajustar às regras sociais tão confusas e incoerentes. Nesta hora todos temos o dever de acolher. Não julgar e, sim, ajudar.

Se você entende isso, nem precisa continuar lendo ou me ouvindo. Mas o que parece tão simples quando colocado em palavras, é bem difícil na prática, por isso eu vou continuar falando disso com exemplos nossos.

Milena é muito impulsiva, melhorou muito com o passar dos anos e eu sei que isso vem do Autismo. De novo: todo mundo é impulsivo em alguma medida. Porém, no Autismo, isso é algo que traz transtornos, pois a impulsividade de alguém com Autismo é muito mais intensa, imprevisível e incontrolável do que se possa imaginar.

Corrigindo comportamentos

Quando ela era menor, era comum que ela subitamente tomasse da mão de quem fosse a comida, o brinquedo ou o qualquer coisa que ela quisesse. Era muito cansativo ir à praia com ela, a praia é desenhada como um espaço coletivo, talvez por isso, ela achava que qualquer brinquedo ali na areia era de todos e qualquer barraca era dela também. Quando eu ia corrigir dizendo que ela não devia pegar o biscoito de fulano, que o brinquedo tal era de outra criança, os adultos intervinham me pedindo para deixar e se eu explicava sobre o Autismo a unanimidade do comentário era: “toda criança é assim”. E muitas vezes tinha aquele olhar de “pare de se vitimizar”, mas eu tinha, sim, que ensinar e tinha que ser em todos os momentos que o comportamento ocorresse, entendessem as pessoas ou não.

A questão é que eu não podia deixar aquele comportamento se enraizar. Sim, de fato toda criança é assim, mas as crianças vão amadurecer e entender o conceito de privado, vão dominar rapidamente a habilidade de ler nas entrelinhas, o comportamento social adequado para cada situação, como quando e o que pode ser compartilhado. Mas a minha filha terá muito mais dificuldade para fazer isso, eu sabia, mas o mundo todo não.

Entender a dificuldade da Mi nunca significou desacreditar no potencial dela em aprender. Eu aprendi ao longo dos anos que mesmo sem me olhar ela me ouvia, mesmo sem prestar atenção ela aprendia. Porém, era necessário ensinar muitas vezes e de diferentes formas. Não dava para falar isso ali na praia e esse tal de deixa, “ela é só uma criança” seria bem mais pesado agora que ela tem quinze anos. Ainda bem que eu não deixei…

Ainda hoje, quase toda vez que eu tento explicar uma dificuldade da minha filha tenho essa impressão de que a pessoa que está ouvindo, entende que eu estou a apresentar desculpas pelos erros dela ou que eu estou fazendo drama, mas não é nada disso.

Explicar a dificuldade de alguém com Autismo é fornecer os elementos para que se entenda determinados comportamentos que agora vêm de uma criança bonitinha, mas que, em breve, virá de um adulto. Se as pessoas não entendem o que está por trás do comportamento de um autista, como vão aceitar (leia-se incluir) a pessoa com Autismo quando ele for um adulto e agir fora do padrão?

Impulsividade: um grande desafio para todos

Cada autista é impulsivo em um nível diferente. Alguns expressam isso apenas em casa, outros mostram em todo momento de crise ou desorganização. A impulsividade frequentemente nos coloca em uma situação complicada, pois eu conheço a minha filha, mas as outras pessoas não. Elas vão ler a pessoa naquela única atitude e o rótulo que vem é o pior. Eu, porém, sei que Milena se arrepende instantaneamente do que fez e dá para sentir o peso que ela carrega de ter fracassado no auto controle. É quando ela mais precisa de compreensão, e é quando ela menos encontra.

Estávamos na estação de metrô lotada, multidão em funil para descer a escada rolante. Passou papai, eu, e logo atrás seguia a Milena e a avó dela, mas neste momento uma mulher com uma criancinha de quase dois anos no colo veio em diagonal furando a fila no topo da escada rolante, Milena foi com mão para empurrar ela, mas eu consegui num reflexo segurar o braço que ia, com certeza, bater na criança.

Foi um momento tenso de quase terror. A mulher que estava simplesmente se dando o direito à preferência, não viu naquela mocinha linda, uma deficiência… Ficou instantaneamente brava e, se a escada rolante não tivesse nos afastado, ela e o marido teriam feito um escândalo. A Milena olhou para mim assustada e perguntou: “eu ia bater na menininha?”, mostrando que nem ela tinha entendido o que motivou aquele impulso e na mesma hora começou a chorar e ficou quase o trajeto inteiro falando a respeito de forma repetitiva e desorganizada. Até que eu expliquei por várias vezes que ela não tinha visto a menina e queria afastar a mulher da nossa fila, eu disse que isso não ia mais acontecer e que a gente devia esquecer o que aconteceu.

Aquela não era hora de educar, não era hora de ensinar o que ela já sabia. Era hora de acolher e foi o que eu fiz.

Qual a reação de quem assiste a isso? Como incluir quando um autista perde a razão e empurra ou bate? Quase ninguém vai ficar ao lado dele justamente porque quase ninguém vai entender.

Por isso a base tem que ser forte.

Por isso temos que dar elementos que facilitem este auto controle.

É tão comum um autista se irritar porque alguém não está obedecendo regras e mais comum ainda é alguém desobedecendo regras. O pior é que quase ninguém percebe isto como motivo de desequilíbrio e o autista não consegue explicar por si só.

Por isso, nos momentos em que o autista faz algo assim tão espontaneamente, é necessário entender os motivos por traz do comportamento e ensinar ele a trazer para o racional e assim bloquear o impulso. A gente faz isso com imagens (apoio visual), estratégias de controle e suporte emocional.

Estratégias de controle e suporte emocional

Antes, quando a Milena entrava em crise, de forma impulsiva levantava a mão e me dava um tapa. Eu sempre reagia de forma hiper exagerada, fazia um verdadeiro drama e dizia estar triste não com ela, mas com a atitude dela, enfatizava que ela era linda, mas aquela atitude era feia e em seguida ficava em silêncio. Quando a crise passava eu explicava e dizia que se ela me batesse eu não ficaria na cama com ela até ela adormecer, o que para ela é muito importante. Assim, quando vinha me bater, ela tinha que parar para pensar no que ia perder e ela nunca mais me bateu.

Sobre o episódio da escada rolante, eu vi que precisava ajudar ela com seu auto controle. Comecei a mostrar o que podemos fazer quando alguém entra na nossa frente na fila, ou quando alguém faz algo que não gostamos. Recordei o episódio e ela ficou muito assustada quando eu disse sobre o perigo daquela mãe cair na escada com a criança no colo. Se acontecer de novo algo parecido, ela vai pensar nas possíveis consequências e terá estratégias para recorrer e trazer para o racional, tirando o impulso de sua forma, raciocinando sobre sua atitude.

Então, vou finalmente finalizar aqui. Quando você diz “toda criança é assim”, pense bem. Não coloque todas as pessoas numa cesta só. Não tente agrupar e colocar uma etiqueta dizendo que tal coisa seja “normal”. Quando se trata de ser gente, essa palavra perde o sentido, pois todos somos diferentes e autistas ou não, etiquetas nunca vão nos definir.

A explicação das atitudes de nossos filhos serve para abrir seu coração para o entendimento e te possibilitar compreender para acolher, não para justificar a nossa inabilidade em educar. Tomara que a gente exercite mais a empatia, pois até para se colocar no lugar do outro é necessário saber um pouco mais que lugar é esse.

Um abraço com carinho e até o próximo post.

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MarcelaAndrezza PaolaAndreia GrecoAna Recent comment authors
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Ana
Visitante
Ana

Que texto maravilhoso, riquíssimo de informações muito uteis para quem tem filhos,principalmente filhos especiais. Meu filho tem asperger, ele tem 5 anos, e eu sou muito grata a você, que tem me ajudado tanto compartilhando sua experiencia com sua filha. Amei você ter falado de impulsividade, eu tava mesmo querendo uma luz sobre como agir em certas situações e você clareou minha mente. Quero que saiba que já coloquei em pratica com meu filho, varias coisas que você nos contou que fez com a Milena e deram muito certo com ele também , nos ajudando a melhorar a cada dia.… Leia mais »

Andreia Greco
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Andreia Greco

Fausta querida, sempre fico tocada e me identifico com seus posts e desta vez não foi diferente. Piettra se incomoda muito com o olhar das pessoas, chega a ser algo até persecutório; sempre me pergunta porque fulano tá me olhando? Certo dia no ônibus ela começou a se balançar e uma moça que estava ao nosso lado ficou olhando para ela fixamente. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa a própria Piettra olhou para mim e me questinou num alto tom de indignação “nossa, o que foi, ela tem algum problema??? Porque fica me olhando??? Queria um buraco para me… Leia mais »

Andrezza Paola
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Andrezza Paola

Ameeeeeeeeei! Ouço essas comparações quase que diariamente, os “ahh, ela não tem nada” então, como se o acompanhamento psiquiátrico e as terapias fossem apenas um hobby. Não tenho nada pra fazer da vida, vou semear um autismo aqui na minha filha.

Marcela
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Marcela

Ao ler esse texto me deu uma vontade de lhe abraçar e agradecer por descrever tão bem nossos filhos e nos apontar estratégias tão humanas.