13 anos

A difícil arte de brincar

Toda vez que sento para escrever um post é como se eu tivesse diante de um trabalho para o qual sou paga para fazer, sabe aquele senso de responsabilidade? Aquela vontade de fazer o melhor, da forma mais competente possível? É bem assim. Ainda mais depois do post de aniversário ter nos trazido tantos comentários e mensagens carinhosas. Fiquei emocionada e li para a Milena que ficava muito empolgada em ver o quanto ela é “popular”.

De fato, o nosso blog não é nenhum campeão de acessos e nem foi nossa pretensão fazer algo para agradar, por isso escrever aqui é meio como estar em casa mesmo, não é uma vitrine onde preciso provar como somos bem sucedidos, mas mesmo assim eu sinto o peso de ser lida e levada em consideração. Em alguns casos, tocamos corações e isso para mim é sagrado. Por isso um post novo precisa de tempo, preciso mesmo me sentindo em casa, ter a consciência que o terreno que piso é o dos sentimentos, ter você aqui me lendo é mesmo uma grande honra a qual procuro fazer jus.

Hoje eu pensava sobre um tema para escrever e uma pessoa com quem converso já a algum tempo entrou em contato com dúvidas sobre as terapias do filho de quase quatro anos. Foi o sinal que eu esperava e o que eu tentei explicar para ela quero reproduzir aqui neste post.

Verdade seja dita, quase ninguém tem dinheiro para cobrir os custos das terapias que seriam indicadas para alguém com qualquer transtorno do desenvolvimento. Se a gente pudesse, teria o trabalho da fonoaudiologia, da terapia ocupacional, do terapeuta comportamental, da psicopedagogia e isso só para começar a conversa. Mas além de significar colocar a criança em uma agenda desgastante (horas de consultório, trânsito mais o tempo para a escola) ainda tem o dinheiro que vai em tudo isso, o trabalho de encontrar o profissional que combina com a gente e é competente, enfim nem sempre conseguimos. Eu já fiz bem mais que isso de terapias ao mesmo tempo na época da intervenção precoce e vi Milena “aprender” e “desaprender”. Mostrava resultado em consultório, mas não trazia para a vida o que fazia lá.

Valeu? Simmm. Mas a ênfase aqui é: seu filho não vai morrer se você não tem dinheiro para pagar por tudo e talvez, você consiga simplificar a sua vida mesmo sem se tornar uma mãe/pai/familiar terapeuta.

O que mais me perguntam é justamente isso: O que fazer?

Eu passei por várias fases e morei em cidades diferentes, cada fase vivenciei um tipo de experiência com preços, distâncias e agendas diferentes. Das coisas que vivemos o que mais fez diferença foi o brincar. Quantas vezes ao ver as terapeutas com a Milena eu ficava pensando que aquilo era brincadeira pura (direcionada por um tanto de conhecimento, claro) e pensava também que qualquer mãe, pai, irmão ou avós, poderiam aprender não a ser terapeutas de filho (aqui isso nunca funcionou) mas a voltar a ser a criança que brincava e assim ajudar a preencher as lacunas que ficam por este brincar diferente de alguém que tem autismo.

Nas teorias do desenvolvimento vemos o quanto o brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil. Autismo é transtorno do desenvolvimento, então para que o impacto deste transtorno seja menor, é melhor tentar ver o que está ficando para trás, e corrigir estas lacunas. Dar modelos, elogiar, direcionar aprender a ler comportamento como comunicação e sobretudo brincar, brincar, brincar.

Bom lembrar que essa é a base de terapias mega conhecidas como Sonrise, DIR-floortime, Playproject, entre outros. E não estou dizendo que estas terapias sejam “apenas” brincadeira não… são terapias com rico embasamento teórico e que exploram o brincar como fonte de desenvolvimento humano e que na falta de recursos a gente pode e deve lançar mão destas estratégias que podem acontecer naturalmente.

Aqui não foi fácil, Milena não gosta de intervenção nas coisas que ela faz então eu sempre tenho que inventar um teatro para chegar até ela e interagir.

Vou tentar listar algumas dicas que funcionaram por aqui:

O que meu filho está perdendo

Olhe para as crianças da idade do seu filho, assista vídeos, vá na pracinha sem ele por perto e observe. Como aquelas crianças brincam? Como elas se movimentam? Como compartilham, como trocam de papéis. Esse é o seu modelo, é o que você vai tentar reproduzir com seu filho nem que seja meia hora por dia.

A brincadeira é da criança

O maior erro de adulto que vai brincar com crianças é assumir a postura de ensinar… a gente quer mostrar como joga e chega intervindo na brincadeira, direcionando.

Entre na brincadeira como quem entra no templo do outro, entre com respeito, tente entender o que ela/ela está fazendo. Se está atirando uma tampinha para cima para ver como ela cai, tente achar o que tem de tão interessante nisso, aos poucos, muito aos poucos intervenha. Talvez seja preciso mais de um dia para que você consiga este “consentimento”, saiba esperar.

Geralmente as crianças com autismo gostam de repetir, tente quando achar que pode, quebrar esta repetição. Vá devagar e com certeza no primeiro momento sua intervenção não será bem vinda, insista. Aos poucos pequenos gestos seus vão sendo notados, aceitos e incorporados. Quando uma pequena intervenção for aceita… YES!!! Você conseguiu! Continue enriquecendo e sobretudo interagindo, trocando e alternando papéis, faça a brincadeira que antes era de um se tornar uma brincadeira a dois.

Sem querer querendo

Não entre na brincadeira com a proposta de ensinar. Se você tiver um objetivo em mente, talvez fique preso no objetivo e perca a criança. Mas é possível estabelecer grandes metas e sempre que possível conduzir as brincadeiras na direção destas metas.

Exemplo: Sua criança não é capaz de atender ordens simples. Me dá, joga fora, abre, pega pra mim, etc… Você começa a trabalhar isto em casa, dando modelos a ela ao pedir coisas simples para as outras pessoas que moram na casa, quanto mais a criança vê acontecendo ao seu redor, mais vai aprender. Junto a isso, você também mostra crianças obedecendo a ordens, você conta historinhas curtas em que personagens obedecem a ordens e junto a este conjunto de ações, para ensinar à criança algo que geralmente eles aprendem “sozinhos”, você também vai brincar.

E se ela estiver como sempre, sei lá, jogando as tampinhas…Você então pode se sentar no chão, observar ela jogando as tampinhas por um tempo e de repente falar: “joga” e daí você emenda: “muito bem você jogou!“. Ficou apenas parecendo que foi uma ordem, mas ela vai se sentir bem com o elogio e talvez começar a entender o conceito de fazer algo que outra pessoa quer.

Jogue você também uma tampinha, colocando algo para a tampinha cair dentro… fale com a tampinha: “caia na bacia” e você “elogia” a tampinha… Ou seja, você trouxe para a brincadeira o tema que está ajudando a desenvolver e incorporou tudo em um mundo de significados para sua criança.

Busque referências

Há muitos vídeos no youtube sobre estas terapias que usam o brincar, muitos em inglês, não importa se você entende ou não, assista. Veja como as outras mães fazem e você vai ter uma base. Acima de tudo o importante é você e sua criança, sem regras, só o seu coração e o desejo sincero de ajudar no desenvolvimento e se divertir de verdade.

Exemplo 1

Exemplo 2

Exemplo 3

Explorando o mundo

Olhe documentários sobre uma criança e sua forma de aprender explorando o mundo e olhe para uma criança com autismo. Você vai identificar o quanto elas perdem pistas sociais, elas se fixam em alguns detalhes pequenos e perdem detalhes importantes para a aprendizagem. Leia as biografias de autistas, você vai entender melhor esse jeito diferente de funcionar, mesmo sabendo que cada um é diferente.

FullSizeRender 22Envolva sua criança e mostre tudo. Eu me colocava e ainda me coloco muito nas costas da Milena, braço com braço, mão com mão e mostro texturas diferentes, as flores no jardim, ajudo ela a pegar, cheirar, apalpar. Mostro tudo: pessoas, situações, menino chorando, menino gritando, adulto gargalhando, tudo o que ela perde eu mostro. Lembro de mostrar o natal por anos antes que ela realmente entendesse o seu significado. Na maioria do tempo eu tinha a sensação de que ela não via, nem olhava para onde eu apontava, mas hoje ela se lembra de coisas que mostrei a ela, quando ainda era pequeninha e é gratificante.

Apenas brinque

Mesmo que você não consiga colocar a brincadeira no eixo de algo que queira ensinar, mesmo que não consiga interagir do jeito que gostaria, apenas não desista de brincar e que seja divertido para você e para criança, na verdade, só isso basta.

Brincar com alguém que não te dá as respostas naquele padrão que você está acostumado nem sempre é fácil, mas por favor acredite, vale insistir. Meia hora, uma hora por dia, apenas sente no chão, leve na pracinha e se balance junto, brinque na areia ou vá junto para dentro da bacia d’água.

Finalmente…

Toda criança dá significado ao mundo brincando. Por mais que a criança de hoje esteja no mundo virtual entre o tablet e o smartphone, em muitos momentos ela está brincando, imaginando mesmo que você não repare. Na rua, no carro, na escola ou na cama antes de dormir toda criança brinca e sim isso vai ser fundamental para o desenvolvimento de competência importantes para a vida toda.

Milena nunca soube brincar. Se eu a deixasse sozinha no tapete por exemplo, ela tinha uma exploração pobre dos brinquedos, repetitiva e desinteressada. Ela sempre queria brincar com brinquedos e estar entre as pessoas mas com o olhar especializado a gente via que ela não brincava e não interagia do mesmo jeito que as outras crianças, era como se não soubesse o que fazer.

Espero que você tenha tido paciência de chegar até aqui e que este post faça algum sentido para você. Mais uma vez, obrigada por me ler, obrigada por tua companhia e eu fico na torcida de que todos nós possamos ser mais criança, sorrir e brincar.

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Ana Flávi Fazolo
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Ana Flávi Fazolo

Cris obrigada!!
Mil vezes obrigada por compartilhar sua experiência de maneira tão generosa e carinhosa com a gente.
Me identifiquei muito com o texto e vou continuar insistindo no brincar.
Beijos pra você e pra lindona da Milena!

Mari
Visitante
Mari

Vc é linda e sua filha mais ainda… bjs
Amo seu blog

Aninha Gouvea
Visitante
Aninha Gouvea

Otimo post ,Fausta!! Muito bom poder ter encontrado vc e seu blog!! Inspiraçao!!!bjs nossos!!

Isolda
Visitante
Isolda

Oi, Cris. Minha estreia no formulário de comentários, mas, não no blog. Obrigada, mesmo, pelos seus textos. E a forma cronológica como você os marcou é genial. Gosto muito de leitura, você poderia escrever um post sobre livros temáticos ou deixar alguns títulos aqui mesmo na resposta? Estou chegando agora ao incrível, imprevisível e enigmático mundo do TEA, através do meu filho mais velho de apenas três aninhos. Beijos.

edilene josefa da silva
Visitante
edilene josefa da silva

Já faz uns quatro meses que leio o mundo da mi e sempre me emociono,você não sabe o quanto tem me ajudado pois ponho em pratica e vejo muitos resultados
. atenciosamente
. Edilene Silva.

Juliana
Visitante
Juliana

Estou fazendo um curso sobre DIR, estou amando os novos conhecimentos q venho adquirindo, e já tenho começado a implantar as novas mudanças, tudo para o bem do meu pequeno.
Com essa vida tão corrida e o cansaço do dia a dia a gente se esquece que eles são pequenos e vão crescer! por isso é importante não pular etapas na vida deles, e a brincadeira é muito importante, é a hora mais fácil para ensinarmos a eles a se relacionarem.
Beijos

mauriperkowski
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Querida Cris,
gratidão imensa por cada palavra compartilhada, o amor nelas refletido é contagiante!!! Estou nesse tempo de brincar, o máximo de tempo que consigo, justamente por não ter condições de bancar mais horas de terapia na abordagem que acredito ser a que mais ajuda meu filho. Mas, sempre com essa angustia de achar que precisava ser algo mais elaborado, com mais clareza das metas e obejtivos a serem desenvolvidos na etapa em que meu filho se encontrava… vejo agora que tudo pode ser tão simples e ao mesmo tão profundo e transformador quando feito com alteridade e amor!!

Angélica
Visitante
Angélica

Olá! estou escrevendo pq precisava urgentemente falar com alguém. Não alguém qualquer, mas alguém com empatia e conhecimento de causa sobre o assunto. Porquê estou muito mal. Tento ser forte. Tento mesmo. Admiro tanto, tanto, mas tanto, sua forma positiva e tranquila de encarar os desafios. Queria ser assim. Mas estou falhando. Não estou conseguindo lidar com o autismo do meu filho e tenho me sentido sem esperança, sem fé no futuro…

Isabel
Visitante

Olá Fausta! Acho que fui eu que te escrevi pedindo orientação para definir as terapias de meu filho, recém diagnosticado…Gostaria de agradecer muito pelas suas valiosas contribuições para nós, mães que ainda estamos iniciando essa jornada. O pouco tempo que iniciei o brincar de faz de conta com meu filho, percebi que ele começou a se interessar pelos seus brinquedos e entender o que é uma brincadeira e o mais legal é ver ele tendo prazer em brincar! Vc é uma pessoa especial que me ajudou muito! Obrigada de coração!

Maluisa
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Maluisa

Parabéns, Fausta Cristina!!! Texto maravilhoso, bjs

Fabiana
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Fabiana

Fausta minha flor Sempre com palavras cheias de sensibilidade e aprendizado. Sempre acompanho seu blog, embora não comente. E sempre tiro uma lição incrível, com sua forma de ver e compartilhar experiências com sua linda Milena. Me identifico muito com sua forma de pensar. Embora esteja somente ingressando nesta vivência do autismo. Acho que no fundo, é bem isto, ver o mundo com os olhos de uma criança e adaptar esta visão a dos nossos. Com amor e dedicação vamoa quebrando as barreiras. Seu blog deveria sim, ser campeão de acessos… para que todos pudessem aprender um pouquinho mais com… Leia mais »

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