Incoerências: autismo e os nossos exemplos

Outro dia fiquei muito brava, estava na porta da escola esperando Milena sair e uma mãe, parou em fila dupla, por conveniência, pois tinha uma vaga disponível, mandou a filha dar a volta e entrar pelo lado da rua e advertiu a coitadinha – porque uma criança desta é uma coitada! – para que se sentasse no banco de trás, pois quem iria no banco da frente seria o irmão, um bebê de dois anos aproximadamente, que foi em pé no banco do carona, sem cinto de segurança, assim como a menina no banco de trás.

Agora alguém me diz, quando uma mãe assim vai poder cobrar algo desta filha? Ela diz em alto e claro som (com atitudes): – não tô nem aí para regras.

Minha filha tem rigidez de pensamento, ou seja, ela fixa em padrões determinados de pensamentos e atitudes, por isso a pessoa com autismo adora rotina, tem aversão por novidades e pelo que é imprevisível. Vou dar um exemplo: quando estamos em uma festa, não sabemos o que vai acontecer, mas se algo repentino acontece, se um balão estoura, logo nosso mecanismo interno nos situa que estamos em uma festa e que tem balões e que os balões estouram e ficamos tranquilos. Isso não iria acontecer se estivéssemos na fila do banco. No mínimo a gente iria levar um grande susto pensando se tratar de um tiro. Pois bem, podemos nos organizar para saber que tiro é tiro e balão é balão e sobre quando esperar por um ou por outro. A pessoa com autismo tem extrema dificuldade de fazer este movimento mental, ela acha que barulho inesperado é um problema esteja ela onde estiver, a não ser que aos poucos ela se acostume, vai querer ir embora da festa naquele momento. Rigidez de pensamento.

Pois bem, se você diz a uma criança com autismo: – não grite. Ela vai entender, pode demorar, mas vai entender. Se você gritar algum dia, ela vai te cobrar ou vai esquecer que gritar não pode, afinal, você está gritando. Por isso educar uma criança com autismo é uma grande desafio, assim como uma criança típica, mas esta ultima irá se acomodar a estas contradições, ela vai perceber sozinha e aos poucos vai também se socializar, mentir, dissimular, coisas que a gente acha feio, mas que faz o tempo todo, quase de forma impulsiva.

A pessoa com autismo vai ser muito mais sincera e exigir de você explicações todas as vezes que vir alguém furando fila, uma vez que você insistiu tanto para que ela aprendesse a esperar sua vez. Por isso, atitudes como a que descrevi me deixam tão indignada. Somos assim mesmo, mentimos para o governo para receber o seguro desemprego, burlamos o sistema e exigimos de nossos filhos honestidade e retidão, obediência e respeito. Estamos no meio do sermão sobre não minta para mim e se o telefone toca dizemos de cara limpa: – ‘fala que eu não estou’…

Muitas vezes alguns aspectos do autismo são tomados como positivos. Essa característica, ser verdadeiro e coerente me faz pensar que temos muito o que aprender com eles.

Um beijo enorme a todos. Milena está bem, ainda com mania de querer objetos inusitados de todo mundo, mas tem feito grandes progressos e continua muito carinhosa e falante. Obrigada pela visita!

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