16 anos

Comportamentos e fases desafiadoras – Parte 2


*Use fones de ouvido para escutar melhor o áudio.

Imagina que você recebe um convite para fazer parte da tripulação da NASA rumo ao espaço. Por mais que fosse seu sonho ser astronauta, exigiria de você conhecimento e preparo, você teria que aprender a mexer em todos aqueles milhares de botões e, talvez, fosse exigido um conhecimento avançado de aviação. É provável que você recusasse o convite diante do desafio imenso.

E se você, simpático a escaladas, fosse selecionado para subir o Everest, mas seu preparo físico neste momento não te permitisse nem subir os andares do seu prédio e você tivesse que reconhecer que não tem condições para aceitar o convite?

Estas situações, mostram que para grande parte do que fazemos precisamos nos preparar, certo? Na verdade, para tudo o que fazemos, absolutamente tudo nós temos que aprender.

Do instinto básico de sobrevivência que veio impresso nos seus genes, aquele que te trouxe ao mundo pronto para sugar, por exemplo, todas as outras habilidades foram aprendidas.

Você aprendeu a modular força pra pegar objetos, aprendeu a se equilibrar, aprendeu a usar a sua voz, na altura, no tom e na intensidade para cada situação e até para cada pessoa. A complexidade que envolve cada mínima ação do nosso dia a dia passa despercebido. Mas se pensarmos um pouquinho, cada gesto nosso exige uma quantidade imensa de etapas que essa máquina fantástica chamada corpo humano executa no modo automático.

Um conjunto imenso de habilidades são necessárias para que a gente aprenda a se comportar. Mesmo quando não há ninguém te olhando, chamamos essas atitudes comportamento e quem rege o “como fazer” não é apenas você e sua vontade. Mas a cultura, os costumes, a regra social, a necessidade, o ambiente, entre outros fatores.

Do comportamento instintivo do recém nascido até a capacidade de apenas com um olhar alguém conseguir se comunicar, existe uma longa trajetória de comportamentos que foram moldados por elogios e críticas, por recompensas e perdas e foram substituindo os impulsos pela racionalização.

Como isso funciona na ótica da pessoa autista?

Muitos estudos mostram que, ao rastrear o olhar de bebês (pesquise os estudos do Dr. Ami Klin, da Universidade de Yale), fica claro que, mesmo nos primeiros dias, eles procuram pistas sociais. Olham mais tempo nos olhos, preferem pessoas a objetos e estão atentos ao que se move. O mesmo estudo com bebês que mais tarde se confirmaram autistas mostra que não há essa preferência. Isso significa que desde o berço a criança traz impedimentos de ordem física que impossibilita que ela absorva a informação que chega do mundo da mesma forma que as crianças típicas.

Comportamentos e fases desafiadoras – Parte 1

Se no início se achava que a criança com Autismo não recebia carinho necessário, mais tarde se comprovou que o carinho estava presente, mas a captação deste carinho não vinha da mesma forma. É o desenvolvimento infantil acontecendo fora do padrão gerando as características de um transtorno. Uma vez que o Autismo afeta 1 em 56 crianças que nascem atualmente, ainda que você não tenha nenhum caso na família, vai conviver em algum ponto com alguém que tem a síndrome e, como aldeia que somos, será muito bom saber compreender este alguém.

Comportamentos desafiadores, entenda também este rótulo

Para a maioria de nós o comportamento desafiador vem de alguém que usa o comportamento de propósito para desafiar. Como se a pessoa escolhesse se comportar de determinada forma para nos tirar do sério.

Bom, precisamos rever nossos princípios… Na verdade, o desafio aqui representa mesmo a nossa falha em entender a função do comportamento em questão, pelo menos no que diz respeito ao Autismo. Representa um desafio, sim, para nós entendermos.

[…] comportamento é também comunicação, mas um detalhe importante que diferencia as pessoas no TEA das demais é que nem sempre esta comunicação é intencional.

O indivíduo com Autismo não vai ficar elaborando um plano sobre como agir na melhor forma de nos atingir. Ele vai, na verdade, atender a um impulso quando precisar pedir algo, escapar de algo que não quer fazer ou de um lugar que não quer estar, ou ainda precisar chamar a atenção seja por carência ou busca de regular suas emoções com alguém.

O primeiro ponto a observar é o que todos sabemos: comportamento é também comunicação. Mas um detalhe importante que diferencia as pessoas no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) das demais é que nem sempre esta comunicação é intencional, na maior parte das vezes ela é involuntária e será assim se não houver um trabalho para mudar este quadro.

A gente tende a desconsiderar o teor comunicativo de um comportamento, por exemplo, quando uma criança joga o prato de comida no chão fazendo muita bagunça.

Esta situação traz tanto estresse, que a última coisa que nos ocorre é procurar traduzir essa “linguagem”. Porém, este comportamento é a comunicação de alguma coisa e não o seu filho planejando te tirar do sério e sentindo prazer nisso.

Um comportamento é desafiador porque nós entendemos assim, é uma etiqueta que nós criamos, mas na grande maioria das vezes a função do comportamento não é desafiar e se você olhar para o comportamento dessa forma, já ajuda muito, afinal, todo rótulo carrega um pré-conceito. Além do mais, é muito importante ressaltar que a forma que você reage dá poder ou não ao comportamento. Se você reage dando atenção, a criança pode gostar e, mesmo que este não tenha sido o objetivo inicial, ela pode voltar a agir daquela forma para ganhar atenção outra vez, mesmo que seja por uma bronca.

Se ela está nervosa e te busca para se regular, você não pode somar seu nervosismo ao dela. Ao invés do nervosismo dela regular você, é a sua calma que vai regular a criança.

Poder como reforçador

Há um poder no comportamento e quem dá esse poder é você. As palavras também têm poder. Se para autistas verbais ou não verbais o comportamento substitui a palavra, vale lembrar que sua resposta, muitas vezes, é a maior responsável pelo comportamento se intensificar.

A sua reação a um comportamento vai com certeza favorecer que ela aconteça outra vez ou vai deixá-lo tão sem importância que ele não vai trazer poder.

Por exemplo, se alguém vem até você e diz: “porta” você tem uma reação, mas se alguém diz a palavra “incêndio” a sua reação é totalmente diferente. As palavras tem peso, mas não a palavra pura e simples, é o significado que ela carrega, não é? Da mesma forma o comportamento, para a criança indígena que mora em uma aldeia ficar pelado terá talvez um significado muito diferente da criança da cidade.

A sua reação a um comportamento vai com certeza favorecer que ela aconteça outra vez ou vai deixá-lo tão sem importância que ele não vai trazer poder ou valor nenhum e vai ser bem mais difícil ser eliminado.

A não ser que este comportamento seja uma forma de regulação sensorial, uma expressão de dor ou desconforto que não depende em nada de sua interferência para que ele ocorra.

De uma forma ou de outra, você vai precisar observar, ser detetive, investigar. Com o tempo, isso se torna tão bem treinado que você nem precisa de muito tempo. Ao olhar para a criança ou jovem, você já saberá o que está motivando o comportamento.

Decifrando, traduzindo, entendendo

No Autismo, o comportamento que mais desafia é aquele impulso que parece difícil de ser educado. Porém ele nunca acontece sem um antes e um depois, por isso a melhor coisa que você pode fazer para aprender a lidar com ele é relacionar o comportamento aos eventos anteriores:

  • O que aconteceu antes?
  • Quantas vezes aconteceu no mesmo dia ou na mesma semana?
  • Houve algum sinal antes do comportamento?

Muitas vezes, você consegue entender o que o comportamento está comunicando e ajudar a criança ou jovem a se expressar de forma mais adequada. Vença a resistência e tome nota, vale a pena.

Quando se percebe compreendido e acolhido na sua necessidade, a pessoa tende a adotar a forma de comunicação que mais agrada a todo mundo, é do seu próprio interesse pois é o que, na verdade, motiva o comportamento.

Por isso, o primeiro passo é sair da irritação natural que o comportamento desafiador desperta e tentar identificar o que motivou o comportamento, esse é o primeiro passo para aprender como lidar com este tipo de comportamentos (e um dos mais difíceis passos).

Continua na terceira parte com algumas questões a considerar quando sua criança está apresentando comportamentos desafiadores…

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