Diagnóstico

Autismo em Bebês, minha visão – Sinais precoces

*Use fones de ouvido para escutar melhor o áudio.

Esse texto é uma continuação de uma série sobre a nossa história do diagnóstico, desde a desconfiança de algo errado aos quatro meses de idade até o diagnóstico de autismo aos quase quatro anos.

O olhar

Super importante para o desenvolvimento infantil, claro. Porém, não basta ter a capacidade de enxergar, é preciso que a criança também capte e interprete sinais sociais que vão ser importantes para que ela aprenda a se posicionar no mundo. Estudos diversos já comprovam o quanto a criança com TEA olha de forma diferente para o mundo e por isso, essa pode ser uma das áreas que você deve direcionar toda a atenção.

Como seu bebê olha? Como ele ou ela comunica com você através do olhar? É um olhar que está atento a tudo ao redor? É um olhar que fixa pessoas, objetos e principalmente as novidades que o mundo apresenta?

O olhar da Mi foi minha primeiríssima fonte de desconfiança. Tanto foi, que o primeiro especialista que procurei foi um oftalmologista infantil, que achou exagerada minha preocupação e me disse que não havia maturidade suficiente para avaliar a visão da minha bebê (ela tinha apenas quatro meses).

Explicar esse olhar diferente é difícil, pois não é que ela não olhava nunca, mas em muitos momentos esse olhar era… “vazio” se é que me faço entender. No vídeo abaixo por exemplo, você vai perceber que Milena olhava pra gente, mas sempre foi um olhar que não comunicava, um olhar que “atravessava” a gente. Como eu disse, muito difícil de explicar.

Ainda sobre o olhar

Um dos pioneiros na pesquisa do diagnóstico precoce de Autismo é o brasileiro radicado nos EUA, Dr. Ami Klin, que desenvolveu suas pesquisas justamente no olhar e na atenção dos bebês. Recém-nascidos por exemplo, demoram mais o olhar em um quadro contendo um rosto humano do que em um quadro mostrando um objeto. Mas quando a pesquisa envolveu crianças com irmãos autistas, portanto com maior risco de virem a apresentar Autismo, ela mostrou que os recém-nascidos que detém mais o olhar no objeto, são aqueles que confirmam este diagnóstico mais tarde.

O psiquiatra infantil Dr. Walter Camargos, bem como outros especialistas em Autismo no Brasil, também defende que o diagnóstico de Autismo ou pelo menos, a detecção de sinais claros de Autismo em bebês não só é possível como pode facilitar a intervenção precoce e com isso melhorar o prognóstico.

Voltando para o meu relato, me incomodava muito aquele olhar ausente na minha bebê. Era como se a Milena não estivesse nem aí pra gente sabe? Ela até olhava, mas ficava muito “na dela”, faltava aquela interação pelo olhar que os bebês tem. Afinal, na falta da fala, os bebês comunicam muito com o olhar.

Além disso tudo, Milena era muito quietinha, exageradamente, hoje consigo dizer. Ao contrário dos bebês autistas da maioria das minhas amigas que choravam muito, queriam colo o tempo todo, a minha mocinha não chorava nunca, a gente surpreendia ela acordada no berço e se deixasse sozinha, ela ficava lá sem reclamar. Estes extremos de diferença são comuns, as vezes é o ‘demais’ em alguns, às vezes o ‘de menos’ em outros.

Há muitas áreas a se considerar ao observar um bebê que deve despertar nossa atenção. Vou seguir tentando cobrir as principais, sempre considerando a minha experiência. A minha maior explicação vai ser referente ao que eu chamo de engajamento em comunicar, pensando a comunicação não apenas como o ato de verbalizar, mas sim como troca, como compartilhamento.

Já vimos então que toda criança olha de forma diferente do adulto, pois estão a cada segundo incorporando todas as informações que para ela são novas. Você já viu uma janela um milhão de vezes, um bebê não… eles olham para uma janela e um novo caminho neuronal surge, conexões são feitas no cérebro e cada segundo da vida de um bebê significa aprendizado. É esta sede de aprender, esta fome de informação, esta atenção interessada que a gente precisa ver em um bebê, mas além de olhar descobrindo, os bebês querem mostrar seu encantamento, eles precisam compartilhar!

Somos seres sociais, a gente interage o tempo todo e fazemos isso desde que nascemos. Por isso à medida que o bebê vai crescendo o ponto que precisamos observar é a interação com pares e isso acontece enquanto brincam.

Muitas mães que me procuram contam que seus filhos brincam, mas a questão não é se eles brincam, é como e com quem eles brincam. Coloque dois bebês de seis meses de idade juntos e eles vão interagir. Mesmo que esta interação seja curta, mesmo que não haja uma comunicação pela fala, eles vão trocar olhares, toques e vão ficar muito interessados um no outro.

Se você está investigando atrasos, não busque avaliar interação com uma criança mais velha ou muito mais nova, são os pares de idade que realmente contam aqui, pelo menos idades aproximadas. É que a criança mais velha tende a preencher as lacunas da falha que o outro mais novo pode trazer e a criança mais nova não vai exigir as competências que aquela da mesma idade exige. Por isto veja como sua criança interage com seus grupos de idade. Mesmo que haja timidez, tem que ter vontade em interagir, prazer mesmo em conviver. Se isso não acontece seu sinal de alerta deve ficar ainda mais forte.

Compartilhar é mostrar um brinquedinho, olhar para o amiguinho com atenção e interesse, talvez haja até mesmo a tentativa de tocar no outro, se já tiver fala vai ter verbalização, pode ser que um tome o brinquedo do outro e provoque uma queixa, um choro. Mas há interação, rica e constante e sem interferência de um adulto, ou seja, interação que acontece naturalmente.

Mesmo quando a interação não é com outras crianças, é possível perceber algum atraso quando existe uma falta de busca do outro, como o pedido de ajuda, por exemplo. Relatos de independência são comuns em bebês e crianças com Autismo: “meu filho prepara a própria mamadeira”. Claro que isso por si só não diz que há Autismo aí, mas também não descarta o Autismo. Crianças pedem ajuda, expressam seus desejos porque sabem que precisam e que podem contar com ajuda. Além do que, solicitar ajuda é base para comunicação. Se o bebê ao invés de pedir pega o adulto pela mão e leva até onde está o que ele quer usando o adulto como instrumento, saiba que não é natural e também não é natural ele se virar sozinho o tempo todo. Mas lembre-se, coisas assim acontecerem vez ou outra não significam Autismo, se forem comportamentos frequentes, talvez.

Pedir, seja falando, apontando ou resmungando significa: reconhecer um desejo ou necessidade, saber chamar a atenção para isso e reconhecer que outra pessoa pode ajudar. Ou seja, pedir é entender a mágica (e a utilidade) de compartilhar desejos ou necessidades.

Você pode ouvir a palestra do Dr.Klin (em inglês) no TEDx aqui:

Você também pode ler sobre o trabalho dele em português clicando aqui.

Comportamento

Este termo tão abrangente, que vamos encontrar definido no dicionário como ação ou ainda, a reação frente a um estímulo qualquer, é também entendido como o proceder de alguém em situações determinadas. Ato, atitude. E é ponto central no Autismo, um transtorno essencialmente comportamental.

O que define a forma de alguém se comportar? Alguém vai dizer que é a educação ou o ambiente, a cultura, a circunstância ou a personalidade, o estado emocional, a idade e eu diria que é isso tudo combinado. A gente aprende a se comportar, a gente copia comportamentos, adaptamos o que vemos no mundo de acordo com o que nos convém e essencialmente agimos para obtermos os resultados que esperamos.

Mais uma vez habilidades-base vão ser exigidas aqui. Muitas crianças dentro do transtorno do espectro do Autismo irão usar o comportamento como forma principal de comunicação. Por isto entender o que um comportamento comunica é muito importante e vai te ajudar muito a desvendar mensagens e traduzir atitudes!

Milena adorava colocar sua mãozinha fechada em frente aos olhos quando era bebê, como sempre aquele “toda criança faz isso” me tranquilizou por um tempo porém, quando eu chegava no berço e encontrava ela acordada sem chorar ou solicitar minha presença olhando para a sua mão fechada de novo e de novo, isso me fazia ficar muito desconfortável. Quando feliz ela esticava as perninhas e pés numa estereotipia que existe ainda hoje, lembro quando ela começou a gritar quando a gente ia ao shopping, expressando sem que eu soubesse na época, que ela estava superexcitada com tanta cor, barulho e cheiro diferente.

O tempo passou e ela começou a morder a mãozinha, depois corria sem parar ou apertava a gente quando estava no colo. Ela atirava tudo o que tinha na mão, arremessava as coisas longe e falava “oi” compulsivamente pra todo mundo o tempo inteiro, porém ela não falava nesta época, daí as pessoas reagiam querendo conversar e ela seguia apenas repetindo o tal “oi”.

Cada um destes comportamentos comunicava o que eu não entendia, não sabia ainda que comportamento é comunicação e foram tantos comportamentos diferentes que ela desenvolveu que eu faria um livro só deles. Lembro que quando ela começou a andar logo aprendeu a pular, pulava até suar quando estava super excitada pelos estímulos sensoriais como barulhos ou então pelas mudanças na rotina que ela não entendia. Esse foi o primeiro comportamento que decifrei, eu acho.

Ainda bebê ela começava a ficar enjoada, mesmo sem chorar ela resmungava e se remexia e não conseguia dormir e aí eu aprendi que ela queria cama ou se deitar em algum lugar que não fosse o colo. Ela se cansava de ficar no colo, embora sempre procurasse carinho, amasse abraços e beijos, ela não gostava muito de colo, nem de ficar muito tempo longe de casa.

Hoje em dia, consigo ver minha filha ao longe e perceber como ela está se sentindo.

E até consigo interpretar vez ou outra outros autistas também. Estava dando uma palestra há pouco tempo atrás e um jovem com Autismo me disse, no intervalo, que iria embora pois não estava se sentindo bem e não conseguia dizer porque. Eu apontei possíveis razões: o cheiro de comida vindo da cantina perto, uma lâmpada mal colocada que ficava piscando e o barulho constante pela disposição das cadeiras, quando alguém entrava ou saia da sala, . Ele olhou pra mim assustado e disse: “definitivamente o cheiro da comida, eu nem tinha percebido, mas eu odeio alho e está cheirando alho queimado”.

Pessoas com desenvolvimento típico tem mecanismos de ajuste que dão conta de forma quase inconsciente de processar os estímulos. Por isso não percebemos o enorme esforço que nosso corpo faz a cada segundo selecionando ao que prestar atenção ou ajustando a postura, isolando estímulos não importantes para o momento e buscando conforto o tempo inteiro. Por isso às vezes vamos a uma reunião por apenas uma hora ou damos uma volta no shopping e nos sentimos exaustos depois.

Nosso corpo reclama e a gente inconscientemente ajusta, as pessoas com Autismo podem ao invés disso entrar em crise ou agir de forma impulsiva. Quantas pessoas autistas agem de forma agressiva com quem amam e depois pedem um milhão de desculpas porque sabem, mas não conseguem segurar o impulso. Isso se chama controle inibitório e está dentro de um grupo de habilidades chamado Funções Executivas. Precisamos entender essas falhas para julgar menos e ajudar mais.

É comum que bebês com Autismo se comportem de forma diferente dos outros bebês. Pequenas manias, o gosto por coisas que giram como um ventilador, abrir e fechar portas ou enfileirar objetos, fixar a atenção em pequenos fios ou linhas, segurar sempre um objeto… Tudo isso pode parecer bonitinho e passar desapercebido, mas já mostra uma inflexibilidade que deve, se possível, ser trabalhada com estimulação o quanto antes.

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