16 anos

Ensinar para proteger: sexualidade e Autismo


*Use fones de ouvido para escutar melhor o áudio.

Minha área de formação é a educação. Sem dúvida alguma é o que eu faço com maior interesse e prazer. Porém, nada me preparou para a aventura que tem sido educar uma linda mocinha autista.

Das coisas que aprendemos juntas, uma se destaca e eu sempre compartilho: precisamos ensinar tudo. E eu realmente quero salientar este tudo.

Detalhes de uma educação atípica

Precisamos ensinar uma criança típica o que ela precisa falar em uma brincadeira? Provavelmente não. Você faz algumas intervenções aqui e ali, mas em geral a criança com desenvolvimento típico consegue captar as regras, o que é adequado ou não, para a maioria das crianças com autismo não é assim.

Veja, por exemplo, Jonh Elder Robinson em seu livro biográfico “Olhe Nos Meu Olhos”. Ali ele nos mostra suas tentativas de entender a lógica de fazer amigos. Em uma situação, ele se aproxima de uma colega de sala e tenta ensinar ela a brincar direito com um trator de brinquedo e a garota, claro, se afasta. Ele tenta outra vez no outro dia, se aproximando e derramando sobre ela tudo o que sabia sobre dinossauros e a garota o ignora. Arrasado, ele tenta de novo afagando a cabeça da coleguinha, já que ele se sentia muito bem quando a sua mãe fazia isso e, claro, isso faz com que toda a turma rotulasse ele de esquisito e ele acaba ficando sozinho sem entender o porquê. Trata-se de alguém que conseguiu tocar a vida sem diagnóstico e sem intervenção, mas que sofreu bastante. Ele recebeu o diagnóstico depois dos 40 anos.

Pois bem, aqui as coisas são bem assim. Ensinamos a pegar no garfo, mas também ensinamos que não se toma sopa com garfo e que o garfo não é um brinquedo que se pode carregar com você para a escola.

Desta forma, a gente acaba prestando atenção em detalhes da educação e vê que muita gente nem percebe a maioria das coisas que o filho aprendeu por si mesmo.

Por mais que a gente tenha vindo todos estes anos ensinando absolutamente tudo, com a adolescência tivemos novos desafios como todos vocês podem imaginar. Temos uma moça linda (meu lado mãe coruja sempre aparece) e comportamentos nem sempre adequados.

Hora de ajustar as velas, ou seja, procurar procedimentos para ensinar o que é dificílimo para qualquer pai e mãe, não é? Sexualidade é, sim, algo que nos faz sair da zona de conforto e pra alguém com Autismo que tem no comportamento um dos desafios de base, é preciso muito tato e muito preparo.

Começar pelo começo: o conceito de privacidade

Como sempre digo e mostro por aqui, a gente tem que dar modelo, mostrar imagens, associar um recurso visual para que o aprendizado se dê de forma mais efetiva no Autismo. Conceitos subjetivos como saudade, ansiedade, medo, entre outros, precisam ser “desenhados”, sim! E outras coisas que para nós são claras e evidentes também precisam de imagens ou modelagem.

Agimos como espera-se que a criança ou jovem aja, por isso falo tanto dos teatrinhos que fazemos em casa quando a Milena está por perto. Estas encenações dão o modelo para ela agir como nós ensinamos falando.

Falar e mostrar figuras ou exemplos quando o assunto envolve partes privadas e sexualidade é bem mais complicado. Neste sentido foi muito bom estarmos em uma escola com tantos anos de experiência com Autismo, pois eles nos deram a diretriz.

Começamos ensinando sobre privacidade, categorizamos, separamos em grupo atividades que podemos fazer na frente das pessoas e o que fazemos apenas quando estamos em casa ou no banheiro/quarto. Tomar banho, trocar de roupa, etc.

Você pode usar revistas, recortar, contar história, montar joguinhos, mostrar no desenho animado ou no mundo mesmo: “Olha aquela mãe está levando a filhinha ao banheiro do shopping”, “Olha este lugar é público”, “Aqui só entra quem trabalha, então é privado mas é só porque não pode entrar quem quiser, mas esse lugar também é público porque tem muita gente, isso significa que aqui a gente só pode fazer coisas que outras pessoas podem ver”, “Vestuário de loja é privado, tem cortininha pra ninguém ver”, “Deixe sua irmã no quarto dela, ela tem direito à privacidade”.

Ensine o quanto puder

Dessa forma, aos poucos, o conceito de que nem tudo podemos fazer em público fica claro. Eu não achava que Milena precisava desta etapa, ela nunca tirou a roupa em público. Mas com a adolescência percebi que estava errada.

Por exemplo, um dia ela queria brincar com algum adulto da família e tocou o cinto da pessoa para mostrar que a fivela era diferente… Imagina a cena… Ela chegando sua mão nesta região da pessoa inesperadamente.

A gente faz essas suposições que nossos filhos não vão entender ou que eles não precisam ser ensinados, entretanto em algumas situações eles podem ser rotulados erradamente e a gente nem ficar sabendo o motivo. Por isso, mesmo que você ache desnecessário, ensine, antes pecar pelo excesso do que pela falta, não é?

Não faz muito tempo um terapeuta foi preso depois de descobrirem fotos impróprias de seus pacientes com Autismo em seu computador. Sim, é doloroso demais, mas é real.

Voltando ao preparo de nosso autista, uma vez que este conceito privado e público seja ensinado para lugares, para partes do corpo, para comportamentos, poderemos avançar mais um pouco.

O complicado conceito de nível de relação

É hora de começarmos a pensar o quanto precisamos resguardar nossos autistas da maldade humana e isso é bem delicado! Creia em mim, nem sempre as crianças sabem que estão sendo abusadas… Muitas vezes, elas só percebem mais tarde, quando amadurecem e quando percebem se sentem usadas, se traumatizam e carregam consigo este estigma doloroso.

Me lembro de ler e estudar o assunto incansavelmente quando fui voluntária em um abrigo e convivi com crianças que sofreram abusos absurdos. Por isso, todo o cuidado é pouco, o perigo é real e, não, você não consegue proteger seu filho ou filha 100% do tempo.

Comece a mostrar no mundo, em novelas, séries ou desenhos animados o que vem a ser um amigo, um conhecido, um estranho, parceiros, casais, namorados, profissionais, pessoas que conhecemos só superficialmente, pessoas que precisamos confiar (médicos) pessoas que podemos confiar…

Privacidade X Confiança

Esse conceito confiança é outro desses desafios que falei. Traga o tópico para as conversas da sua mesa no jantar… Em quem confiamos? O que é confiar?

A partir disso, comece a informar qual o nível de relação estas pessoas tem. Por exemplo:

“Olha sua prima e o namorado dela. Eles se abraçam, eles se beijam. Namorados podem se beijar e abraçar.”

Vá falando então sobre os pais, irmãos, familiares, atendente da padaria, porteiro, o seu médico… Vá mostrando, de preferência com atividades, recortes de revista, fotos, o que cada pessoa é na vida de seu filho e como pode ser a relação de cada uma destas pessoas com seu filho ou filha.

Aqui na escola eles têm uma tabela onde colocam a foto da pessoa que convive com a criança (mesmo que seja o moço da padaria) e na parte de cima da tabela colocam o aperto de mão, abraço, toque de ajuda, toque de carinho, beijo no rosto, beijo na boca. A criança precisa entender qual personagem pode o que. Como o material tem direitos autorais, não posso mostrar aqui, mas é mais ou menos como na imagem abaixo.

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Mara SantiagoWanya Recent comment authors
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Wanya
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Wanya

Por aqui… assiti algumas palestras… E ele sabe sobre casais.. namoro.. pergunta quando a namorada vai chegar… a sexualidade veio naturalmente.. ele aprendeu antes que pudesse ensinar…fica no quarto sozinho em cima dos travesseiros com a porta fechada e depois vai ao banheiro sozinho. Me surpreendeu pelo jeito como ele mesmo soube resolver… antes foi a fase de querer abraçar e tocar sim nas mulheres ai sim tive que intervir.. ensinar que não era adequado sem que a pessoa autorizasse . Assim como ele quer mexer na orelha das pessoas pois tem quem não goste. As cenas mais quentes ele… Leia mais »

Mara Santiago
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Mara Santiago

Adorei sua matéria, estou insegura com relação a como preparar minha filha para esta nova e perigosa fase, ela tem 11 anos PC/ Microcefalia