milena sentada em um banco

Sonho Real


*Use fones de ouvido para escutar o áudio melhor.

Uma noite eu tive um sonho que de tão real, quando penso nele mais parece a memória de algo que vivi de fato. Sonhei que eu estava sentada em uma praça e observava tudo em minha volta, achando lindo aquele cenário diferente. Um grupo de garotas em um banco logo à frente me chamou a atenção. Eram lindas, jovens e estavam rindo… Aquele jeito que adolescente tem de se despreocupar do mundo e aproveitar o momento. Como se já soubessem que jamais voltariam a ele.

De costas, uma jovem me intrigava bastante e eu não conseguia parar de olhar. Ela era muito parecida com minha Milena. Mesmos cabelos. Mesma altura. Mas faltava aquele algo especial, aquele jeito de participar sem se entrosar, aquela postura que a define tão bem! Mas mesmo faltando tudo isso, a menina era tão ela que me chegava a doer o peito em uma aflição que eu nem consigo descrever.

Após minutos de pura tormenta ela se vira, olha diretamente pra mim e sorri e, sim, era ela, a minha filha!

Foi um choque que durou um segundo e logo uma familiaridade trazida não sei de onde me dizia que aquela menina era uma pessoa que eu conhecia muito bem. Confusa, eu queria levantar e correr. Pois quando a razão não encontra caminhos ela pede espaço para pensar, um lugar para se isolar. Mas eu não pude correr. Minha menina se aproximou com o mais lindo dos sorrisos, totalmente à vontade em seu personagem de mocinha típica que eu me senti colada ao banco na expectativa do que estava por vir.

Ela quase fez graça do meu espanto, naquele jeito adolescente de achar adulto tolo. Me falou quase dando gargalhadas: “Mãe, quê isso? Parece que viu um fantasma!”

O beijo na testa que se seguiu foi como um alimento. Aquele mesmo beijo que é tão familiar, vindo de alguém que eu conheço sem reconhecer.

milena dando um beijo na minha testa no sonho

Começamos a conversar e nessa parte a memória fica um pouco falha, mas alguns pedaços deste diálogo ainda estão aqui ressoando nos meus ouvidos. Aprendizado para nós duas, momento de provar nosso amor, você tem se saído tão bem, lágrimas minhas e dela misturadas, mão com mão e minha única palavra recorrente: por quê?

Naquele momento era ela que me guiava, ela ensinava e eu ouvia, bebia cada segundo, olho no olho que já não se afastava mais.

“Mãe, tá tudo bem, já nos encontramos tanto e você sempre demora a me ver como eu sou, porque insiste em me manter na forma que me molda no mundo. Mas seu coração adivinha que aquela embalagem carrega uma pessoa plena e tão igual a todo mundo. Resiste menos mãe a me ver com os olhos de agora mesmo depois de acordar. A lagarta não deixou de ser lagarta confinada no casulo, quem desacredita dela jamais vai assistir ao voo da borboleta!

Mãe, o mundo tem desafios a todo momento e eu sei bem que você fala isso para todo mundo. Mas não pensa que os desafios estariam ali de qualquer forma, com autismo ou sem. Eu sou feliz mesmo quando você não consegue me entender. Mesmo quando estou confusa e me comporto mal por não ter outro jeito de me comunicar. Ou quando não posso segurar o corpo em crise com a sobrecarga sensorial… Mesmo assim, eu me sinto segura, mãe. Porque mesmo sem falar, mesmo sem conseguir me expressar,  eu consigo sentir o seu amor.

Eu não quero te ferir, o que eu quero é tão igual ao que todo filho quer, mãe. Eu só quero que você sinta orgulho de mim. Por isso, nas minhas crises, o que me mais me dói é ver sua dor, como desejando que eu fosse outra pessoa. Nesse momento, eu quero mesmo te bater pra te dizer: ei, olha pra mim, eu tô sofrendo aqui neste momento e tudo que eu quero é que você me ajude, que você me acolha, que você me enxergue além da casca. Quando eu tento te atingir, mãe, é só porque nesse lugar de dor eu me sinto sozinha e quero você aqui doendo comigo. É eu sei… É egoísta, mas depois, mãe, eu percebo que eu preciso mesmo é sair dali. E eu sempre saio, nem sei porquê, mas eu sempre saio é por você.

Mãe, pare de se culpar tanto, você tem se saído tão bem, tão bem! A minha gratidão por você ressoa na eternidade, mãe. Pode ter certeza que nem todo filho compreende tanto o valor de uma mãe como eu e é por isso que te sobrecarrego porque é o que você dá que me traz paz”…

Pacto de amor

O som dessa voz, a eloquência dessa voz ainda ressoa aqui enquanto eu escrevo.

Todos os meus porquês se desfizeram nas lágrimas e eu acordei muito impressionada com o que vivi.

Quando tive esse sonho Milena era uma menina, quase oito anos eu acho.

Hoje ela é exatamente igual a mocinha do meu sonho, e quando me beija na testa ela me relembra este acordo que nós fizemos, este pacto de amor.

Filha, nem sempre consigo honrar com o compromisso da aceitação sem limites, mas nunca falho no amor. Hoje, percebo muito bem que na nossa relação a mestre é você. E sou tão grata por você me conduzir! Obrigada por me aceitar incondicionalmente e por me corrigir de forma tão meiga. Ainda faço um curso da linguagem de comportamento e aprendo a te entender. Quem sabe conseguimos ainda por aqui, acordadas como estamos, ter outra conversa desta. E quem sabe possamos sonhar juntas um futuro qualquer.

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14 Comentários

  • Responder Ânara 27 de abril de 2017 at 13:44

    Nossa! Quem tá chorando de emoção agora sou eu!

    • Responder Fausta Cristina 28 de abril de 2017 at 20:26

      Sempre comigo né amiga? E que bem que me faz!
      Obrigada sempre!!!

  • Responder Fabiana 27 de abril de 2017 at 17:06

    Como não se emocionar com um texto desses? Com um sonho desses? Só o amor dos filhos pode nos alentar no árduo aprendizado de ser mãe. Esse amor está expresso nos diálogos: O do sonho, uma projeção de desejos íntimos e puros, e o diálogo fora dele, a cada momento que passam juntas, mãe e filha.

    • Responder Fausta Cristina 28 de abril de 2017 at 20:26

      Sim minha querida amiga. Obrigada por se emocionar comigo, significa muito pra mim ter vocês sempre “por perto”.
      Um beijo nos seus teenagers :] Estão lindos!!!

  • Responder Renata 29 de abril de 2017 at 16:27

    Tão meu, tão verdadeiro. Você conseguiu expressar em palavras a angústia que vai no coração de toda mãe, independente de qualquer tipo de diagnóstico. Obrigada querida!

    • Responder Fausta Cristina 30 de abril de 2017 at 16:07

      Feliz Re querida, em ver que no meio das tais diferenças a gente sempre encontra o pedaço de caminho tão comum a todos nós! Não é o que nós temos em comum, mas o que temos de diferente que nos faz especiais, porém o ponto onde nos encontramos nos traz o sentimento de acolhida, nos afasta da solidão. Isso só pra dizer que temos pontos em comum e pontos individuais e que todos são fundamentais. Obrigada por me trazer ao ponto de interseção :]

  • Responder Madalena 30 de abril de 2017 at 19:59

    Que lindo!!

    • Responder Fausta Cristina 9 de maio de 2017 at 21:03

      Obrigada Madalena, pelo elogio e por tirar do seu tempo para me dizer. A gente nem sempre percebe, mas pequenos gestos como este, fazem uma diferença tão grande!
      Siga espalhando boas palavras. :]

  • Responder Isolda 3 de maio de 2017 at 14:20

    Faustita. Quando estava na porta desse mundo autismo – naquela fase: meio pé dentro meio pé fora – lembro de ter sonhado algumas vezes com Bento sem as limitações do autismo. Nos sonhos ele conversava livremente, me contando coisas sem entraves, conversava com os amigos no mesmo clima. Havia o impacto de acordar. De sentir que era sonho. Um sonho sem pecado que me fazia sentir culpa cristã. Eu não estava rejeitando meu filho. No sonho ele era essencialmente ele mesmo. Mas, rejeitava as limitações. O que no final das contas era um pouco rejeita-lo, sim, aprendi depois, já que pessoas são um todo e não pedaços. Precisei de tempo e investir em autoconhecimento para perceber que as limitações também não devem ser rejeitadas. O que nos limita também é o que somos. O modo como lidamos com esse entendimento faz muita muita diferença. Beijos.

    • Responder Fausta Cristina 9 de maio de 2017 at 21:12

      Então Isoldita ( hahaha… se essa moda pega ) Quando era adolescente adorava brincar assim de inventar finais diferentes para os nomes e rimar um tanto de adjetivos depois tipo Isoldita bonitita, queridita…

      Mas quanto ao sonho, sua análise foi bem lá pra linha da psicanálise… achei profundo. Eu fui lá pra religião mesmo… ou melhor na minha filosofia da pre-existência e continuidade da vida… vidas sucessivas e por aí vai. Ninguém é autista, surdo, cego ou patrão… estamos em fase de aprimoramento ocupando esta posição. Minha Milena é muito mais do que o autismo deixa ver e sim, ela é completa, única e eu sou aquela chata super criticada que fica sempre vendo o lado bom do autismo… Mas concordo que lá dentro de mim no mesmo canto em que o preconceito se esconde e o medo se aloja, deve estar alguma parte de rejeição… hora destas eu descubro, ou não.
      Obrigada pela visita e por investir seu tempo, amei o feed back :] Recebe meu abraço!

  • Responder Carla 3 de maio de 2017 at 14:53

    Fausta, como as suas palavras tem força, tem vida!! Passa um filme na minha cabeça a respeito do que já foi e do que é….faço o treinamento comigo de não pensar muito no que virá. Esse blog trás um bálsamo, me acalma, me faz refletir, querer mais, sempre mais para o meu filho.

    • Responder Fausta Cristina 9 de maio de 2017 at 21:18

      Carla eu fico tão contente em saber que alguém em algum momento lê minhas palavras e elas fazem sentido, sinto que uma ligação muito especial acontece neste momento e dá sentido a tudo isso. São tantos os momentos eu que eu não vejo sentido em continuar… sempre acho que tem tanto texto bom por aí que não vale todo o meu investimento… aí eu escrevo um post e leio os comentários que são postados aqui, no face ou por email… de novo eu me sinto encorajada a continuar, pois se o texto me liga a alguém assim desta forma especial, eu preciso seguir escrevendo.
      Obrigada Carla, seu filhote há de te trazer imensas alegrias!!!

  • Responder Wanessa Bittencourt 4 de maio de 2017 at 13:28

    Como não chorar? Meus sonhos com Gabriel às vezes estamos conversando, tão livres, sem traduções, nos entendendo, um ao outro. Quando li seu texto, chorei e chorei e chorei, principalmente na parte das crises, pois ultimamente aqui estão fortes, misturadas às birrasde um rapazinho com 3 anos. E fico doida tem hora. O que é crise? O que é birra? E qdo mistura as duas? Só Jesus. Rs Ele me ouviu chorar e veio enxugar minhas lágrimas, como que ele quisesse reforçar o que vc fala no texto: “Calma mamãe, vai dar tudo certo.” Muito obrigada!!! Um forte abraço!

    • Responder Fausta Cristina 9 de maio de 2017 at 21:22

      Wanessa que bom! Tudo o que eu disse no comentário acima se aplica também ao seu comentário. Obrigada por me fazer bem.
      Olha eu vi que as meninas (Karla e Luiza do Estou Autista) postaram um texto que parece muito interessante sobre birras e crises. Dá uma olhada, tem o link do blog aqui no Mundo da Mi.
      Eu tenho uma apresentação que preparei para uma palestra, vou ver se consigo postar algo assim bem específico. Mas eu te digo uma coisa, são fases que vem e vão… você vai ver que vai melhorar.
      Se quiser me manda email… trocamos umas ideias, quem sabe ajuda?
      Um abraço para você e para o Gabriel!

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