O limite que exclui, o padrão que isola


*Use fones para melhor escutar o áudio.

É muito interessante como o autismo acaba polarizando as coisas. Revelando aquilo que sempre esteve presente, mas que, de alguma forma, você não via com clareza. Como algumas pessoas que você sempre considerou com carinho, mas que te traziam um certo desconforto como que uma sensação de algo que não se encaixava. Aí seu filho chega, sua vida muda, o diagnóstico exige aceitação de novas verdades e aquela pessoa, até então educada e que você tinha em alta conta, se revela como é começando por criticar seu filho; negar as dificuldades dele; não aceitar ouvir sobre autismo; e insiste em querer te ensinar a ser uma mãe melhor.

De repente você se sente como se ao descobrir o autismo do seu filho, alguns amigos, parentes ou vizinhos se tornassem outras pessoas. Ainda bem que para os dois polos, pois pessoas que você nem notava direito se tornam inesperadamente presentes, se esforçam em te dar suporte real e acolher seu filho. Pena que elas sejam bem mais raras do que as pessoas que querem te dirigir na estrada que você trilha com seus próprios pés. Elas insistem que a direção correta para você seguir, apenas elas podem dar.

Não é à toa que a maioria das pessoas com autismo ou outras deficiências responde sempre que sua maior dificuldade é a falta de compreensão. Não é o que falta nelas que traz a dificuldade. É o que falta no coração de quem se auto intitula normal. Quem defende teorias próprias e se fecha para o entendimento de uma pessoa não a falta de vontade nem a falta de educação, mas uma deficiência.

Pois é… Se a palavra deficiência te choca, reveja seus conceitos. A conotação negativa dessa palavra não precisa existir. Deficiência não precisa significar menos. Muitas vezes ela significa apenas ser gente. Ser humano, pois todos nós, sem exceção, em algum ponto, carregamos alguma deficiência. Sim, o autismo é um transtorno que traz deficiências que interferem no desenvolvimento infantil do indivíduo. Isso vai imprimir diferenças no modo de captar informações do mundo e impactar no modo de agir e reagir às situações. Isso não devia ser assim tão complicado de entender.

Quando gente se reúne

O que geralmente acontece é que pessoas reunidas fazem regras rígidas (e incoerentes) sem perceberem. Reuniões significam vestir uma roupa certa, ter um comportamento esperado, e estranhamente algumas destas regras são validadas, outras ignoradas.

De repente alguém que bebeu demais pode dizer uma besteira ou outra, pode agir de forma estanha. Ninguém nem comenta a respeito. Mas se uma criança grita e se debate porque está em crise, isso, sim, traz um desconforto geral.

Se seu filho tem autismo e se comporta fora do padrão, logo começam as perguntas e sugestões sobre como a criança é inquieta. Sobre o fato dela não atender a ordens de imediato. E terminam com imposições totalmente infundadas.

  • Você não acha que ele já está bem grandinho para entender?
  • Mas será que se você falasse todo dia, repetisse muito mesmo ela não ia aprender?
  • Se essa menina fosse minha filha, tenho certeza que ela seria outra pessoa. (Sim, com tristeza eu te digo que eu já ouvi isso).
  • Seu filho está pegando o brinquedo do meu sem parar, você pode ir lá falar com ele por favor?
  • Ele tem autismo mas precisa entender essas coisas.

Não pense você que eu estou aqui defendendo a anarquia da educação ou a ausência da imposição de limites. Toda criança com autismo ou sem ele precisa aprender a ser relacionar no mundo. E isso implica seguir regras e saber se comportar. Mas, sem ajustar as suas expectativas e rever a sua concepção de criança educada; sem considerar as dificuldades e sem respeitar o tempo desta criança especial, posso te afirmar que isso não vai acontecer.

Dê uma festa sem fofoca, sem alguém que beba além da conta ou alguém que fale o que não devia. E eu te dou uma criança que nunca “incomoda” ninguém.

Contrapontos necessários e úteis

  • Cada pessoa precisa de limites, mas cada pessoa vai responder ao limite de um jeito particular.
  • Educar não é impor à força e a pessoa mais educada não é a mais obediente.
  • Ensinar é mais do que falar, ensinar é mostrar como se faz fazendo e de preferência de forma natural.
  • Querer que o outro seja o que nem você consegue ser é desumano e covarde.
  • Transferir para o outro as nossas próprias frustrações, e exigir o que nem nós mesmos fomos capazes de conquistar, é algo bem humano, esse pode ser o seu caso. Se auto avalie antes de julgar.
  • O tempo de processar informação em alguém com autismo é muito diferente, por isso você precisa esperar.
  • Festas, barulhos, gente estranha e falta de previsibilidade fazem com que estas crianças, jovens ou adultos se desorganizem. Mesmo sem que transpareça, eles estão nervosos e sobrecarregados. Entenda.

Eu não deixo de educar minha filha e nunca deixo de incessantemente tentar separar a dificuldade trazida pelo autismo da desobediência ou caprichos naturais em toda criança. O que eu peço é exatamente isso, que as pessoas tentem também enxergar essa diferença.

Se fosse assim tão simples fazer com que alguém com autismo pare de se comportar de forma diferente e passe a agir como uma criança com desenvolvimento típico, talvez não teríamos mais crianças com autismo.

Julguem menos, por favor…

Quando o familiar segue insistindo que o problema está na forma como a mãe ou o pai agem, eles estão justamente insistindo em julgar. Desta forma, estabelecem cada vez mais um distanciamento que exclui e isola a criança da família.

Tentar enquadrar alguém que é diferente é preconceito em ação.

O autismo é visto (erroneamente) como uma síndrome que isola a pessoa em seu próprio mundo. Podemos dizer que, de verdade, o autismo isola mesmo é a família inteira pela rigidez desta tal sociedade em aceitar que, às vezes, por mais que os pais se esforcem, o comportamento padrão não vai acontecer. Talvez o mais justo seja questionar o tal padrão e não a pessoa que não consegue se adaptar a ele.

Me canso de ouvir “toda criança precisa de limite, inclusive a criança com autismo”. Nada mais correto. Mas tem tanta coisa implícita nesta afirmação!

Não dá pra pensar em limite como algo estático… Dar limites para filhos, por mais óbvio que pareça, é algo que é extremamente complexo e nós estamos neste exato momento vivendo uma crise no conceito de educação, onde a maioria dos pais das tais crianças ditas “normais” também não sabem como agir.

Vamos ser a mudança que desejamos

Se você tem na família alguém com autismo, não tente fazer de conta que isso não existe. Fale a respeito, abertamente. Conversando e se informando você vai entender que autismo não é de longe o que a novela mostra. Ou o que o filme diz. Cada pessoa com autismo é única e seu familiar merece ser visto para além do diagnóstico que recebeu.

Detone os mitos do autismo, tem autista chato, autista legal, autista tímido e autista extrovertido. Ele vai exigir mais de você em termos de compreensão. Mas prepare-se porque uma pessoa que não se deixa manipular por aparências pode ser uma das mais incríveis que você terá o prazer de conviver.

Eu continuo achando que o autismo traz no seu pacote coisas bem positivas como a imposição da educação pelo exemplo. Pais, mães, familiares e profissionais que lidam com autismo sabem que não adianta nada falar e não fazer. A criança vai te cobrar cada vez que você fizer algo que você disse que não era para ela fazer.

A Milena não tinha nem cinco anos e mal falava quando nos viu comendo pipoca no sofá e sentenciou que lugar de comer era na mesa, me cobrando obediência à regra que eu mesma impunha a ela.

Já passei por algumas situações em reuniões familiares. Mas tenho muita sorte por ter uma família que procurou se informar e hoje em dia conhece e entende a minha filha e sabe diferenciar o comportamento inadequado fruto do déficit no desenvolvimento, do comportamento mal-educado.

Que bom para eles, pois se tornaram pessoas melhores, conseguem hoje ver as diferenças com mais aceitação real.

Vou parar por aqui torcendo para que os eventos familiares sejam mais inclusivos e que as pessoas (grupo no qual me incluo) julguem menos e compreendam mais. E que as festas e reuniões familiares sejam mais amigáveis para quem tem autismo. Se você contribui para isso, tenha certeza de que você é também uma pessoa especial.

Até a próxima!

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14 Comentários

  • Responder Ânara 16 de fevereiro de 2017 at 14:17

    Como eu adoro seus textos!

    • Responder Fausta Cristina 9 de março de 2017 at 16:48

      Obrigada minha amiga!

      Saiba que houve um momento de pensar em deixar o blog de lado e você com sua participação, sem querer me fez repensar.
      Serei sempre grata!!!
      Beijo!

  • Responder DENIS MARTINIANO DE LIMA 16 de fevereiro de 2017 at 15:33

    “Dê uma festa sem fofoca, sem alguém que beba além da conta ou alguém que fale o que não devia. E eu te dou uma criança que nunca “incomoda” ninguém!”. Fausta Cristina, o MUNDO precisava ouvir e entender isso. Parabéns por seu texto e sucesso pra Milena, vc e todos aqueles que “tão junto” com vcs nessa caminhada!!!

    • Responder Fausta Cristina 9 de março de 2017 at 16:47

      Que bom que gostou Denis!

      Fico por demais grata. Sucesso para você também!

  • Responder Ana Lucia Bassi Finhana (mãe da Ana Clara, a menina mais linda de Dourado SP) 16 de fevereiro de 2017 at 22:37

    Grata! Um abraço apertado. Bj

    • Responder Fausta Cristina 9 de março de 2017 at 16:46

      Obrigada Analu!!! Um outro super abraço a você, mais grata ainda :]

  • Responder Alessandra Satie 28 de fevereiro de 2017 at 08:45

    Eu li, ouvi, compartilhei. Fausta como sempre abordando temas difíceis de modo tão sensível.

    • Responder Fausta Cristina 9 de março de 2017 at 16:38

      Ale minha querida!!!
      Obrigada pela leitura e pelo comentário. Sabe que sigo teus passos também, por isso é muito especial receber sua visita.
      Beijo!

  • Responder Andreia Pereira Do Carmo 21 de março de 2017 at 12:37

    Adorei o blog….sou mãe do Pedro, 03 anos e 03 meses, hiperativo, amoroso, adora dançar e lindo….está em processo de diagnóstico pela neuropediatra, mas com base em dados clínicos sugestivo a ter autismo. Confesso que já desconfiava, mas preciso ter certeza para ajuda lo…Vou precisar de apoio e ouvir muitas experiências só assim aprenderei com ele e ele comigo dia a dia.

  • Responder Andreia Greco 21 de março de 2017 at 22:31

    Fausta e seus textos maravilhosos que TODOS deveriam ler, pois inevitavelmente nos levam sempre a uma profunda reflexão sobre os outros em relação aos nossos filhos e principalmente sobre nós mesmos.
    “Dê uma festa sem fofoca, sem alguém que beba além da conta ou alguém que fale o que não devia. E eu te dou uma criança que nunca “incomoda”. Esta eu vou levar pra vida e repetir toda vez que ouvir algum comentário inconveniente em relação a minha Piettra. Vc é td de bom! precisamos muito da sabedoria das suas palavras e da sua serenidade, por isso não pense jamais em nos abandonar. Vc e a Milena já fazem parte das nossas vidas e de muitas famílias com autistas. Parece que já as conheço a muitos anos, torço e vibro com as conquistas da Milena assim como vibro com as da Piettra. Vcs são muito queridas. Um beijo grande❤

  • Responder Betânia 5 de abril de 2017 at 18:56

    Parabéns Fausta!Sempre busco teus textos como forma de reflexão…são maravilhosos.

    • Responder Fausta Cristina 9 de abril de 2017 at 10:46

      Muito obrigada Betânia. Fico muito feliz em saber!

      Um abraço carinhoso para você!

  • Responder Júlio Cézar Soares De Anhaia 19 de abril de 2017 at 09:13

    Meu filho é Autista, sinto certos ares de receio das pessoas que se dizem normais, que são invejosas, fúteis, mesquinhas, se elas tivessem a metade da inteligência e da benevolência de um autista seriam pessoas melhores!!!!

    • Responder Fausta Cristina 21 de abril de 2017 at 18:14

      Júlio te entendo!
      Depois que a gente convive com esta falta de malícia de uma criança com autismo fica difícil mesmo dar significados positivos aos comportamentos moldados para o padrão normal.
      Mas eu insisto em acreditar que dentro de cada coração, ou pelo menos a maioria deles, existe um lado bom que sofreu com uma educação empobrecida (claro que sem relação com o financeiro) ou traumas ou ainda ausência de oportunidades mesmo.
      Por isto eu prego a inclusão e a compreensão porque acredito que a gente pode se esforçar em ver este lado bom e aceitar as pessoas como são.
      Apesar deste meu jeito de ser, não aceito o preconceito e luto com todas as armas para a aceitação de minha filha e de todos as pessoas que trazem dificuldades em qualquer nível.
      Bom, temos muito o que fazer né?
      Obrigada por sua visita, que possamos somar juntos!

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