13 anos

Milena e a autocensura


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Se você não leu o texto anterior, dê uma olhada nele, pois falo a respeito deste mito de que o autista vive em um mundo próprio, isolado do nosso.

Hoje eu vejo que a minha filha tem sim o seu mundo particular, mas como eu tenho e você também, e isso nunca significou isolamento. Ultimamente ela tem trazido para fora sua voz interna, ela fica murmurando coisas nos momentos em que está sozinha, quando estou por perto e escuto ela “falando sozinha” presto atenção para entender o que ela fala e tentar entender como as coisas se processam na sua cabecinha. Adoro esses monólogos, mas confesso que às vezes me entristeço com o que ouço…

Nossa voz interior que a alimenta

Sabe a sensação boa que vem quando você coloca um belo prato de comida saudável e seu filho se alimenta dele? Ou quando você faz uma receita e as pessoas comem tudo e elogiam o sabor? Sabe quando você se sente bem em ter feito algo que fez bem a alguém?

Esta voz interior, essa sensação de competência e esse valor que damos ao fato de alimentarmos alguém é trazido por um conjunto de informações que você colheu ao longo da vida e também está lá nos seus genes. É um retorno que vem naturalmente mesmo que não tenha ninguém te olhando, mesmo que ninguém te elogie. Mais do que fazer algo para ganhar dinheiro, mais do que fazer algo para ser reconhecido, algumas ações te recompensam só por você as ter executado.

Como espécie, fomos programados para buscar alimentos e para garantir a continuação da espécie, por isso sentimos um prazer extra ao prover e ao alimentar pessoas. É quase um instinto, nem precisamos de pagamento ou reconhecimento, sentimos bem só em fazer.

Esse sentir-se bem mesmo que ninguém veja o resultado do que fazemos, deveria ser ampliado para tudo na vida, a gente teria muito mais auto estima e precisaria muito menos de terapia não é?

Já o elogio é uma recompensa social, experimentamos prazer ao sermos elogiados e essa sensação interna de bem estar que o elogio traz é mais importante para nós do que pensamos. Falo aqui do elogio de verdade, sincero que reconhece o esforço e não aquele usado como pagamento, como bajulação, esse a meu ver traz mais estrago do que benefício.

quando recebemos um elogio

Já mencionei aqui o quanto alguém que tem a dificuldade de se adaptar e entender este nosso mundo, está sujeito a repreensões o tempo todo.

Li certa vez que uma pesquisa americana revelou que uma criança com autismo ouve mais “não” em uma hora de convivência com adultos do que uma criança com desenvolvimento típico ouve em dois dias.

É um tal de “não é assim que se faz”, “não sente deste jeito”, “pegue assim”, “deste jeito não”, “não pode gritar”, “não está na hora disso”, “não vá por aí”… Por toda parte a criança recebe do mundo esta formatação constante e permanente.

Além de todo esse “não”, há muitas coisas que ela tenta fazer e não consegue, muitas outras coisas que ela tenta entender e não consegue também. Qual será o resultado disso para o adulto que está por vir? Como criar a satisfação em fazer algo se tudo o que eu faço ou não é reconhecido ou é criticado?

Como são impulsivas, as crianças com autismo tendem a fazer tudo o que nós mesmos queremos fazer, mas nos seguramos para não fazer feio… para sermos aceitos… para ficarmos “bonitos na foto”.

Essa coisa de agradar o outro não faz parte da essência de alguém com autismo e por isso se ela está estressada, ela vai se jogar, vai gritar, vai empurrar como uma forma de dizer: “estou farto, quero ir embora”.

Quantas vezes fiquei envergonhada com Milena dizendo para uma visita: “então tá… agora você pode ir”.

A falta deste filtro social junto com a impulsividade, resultam em ações e comportamentos diferentes e que geram estranheza para quem está por perto. Por isso é que muitas repreensões acontecem e a pessoa se sente ainda mais deslocada, afinal, ela não age por mal, ela obedece à sua lógica interna, uma lógica que pouca gente entende e todo mundo se sente no direito de “corrigir”.

O que acaba acontecendo é que todo mundo, inclusive os coleguinhas vão ficar dizendo o que pode e o que não pode, vão cobrar, vão “paternizar” ou “maternizar” a criança .

Quantas vezes eu chegava na escola da Milena e achava meigo ver todas as crianças da turma cuidando dela. Mas e ela, como será que se sentia? Como era ver que só ela era objeto de cuidados? Como seria para nós termos pessoas por perto o tempo todo dizendo como devemos ou não agir?

A voz interna que censura

Hoje eu sei um pouco mais, pois a fala interna que surge da boca da minha menina de treze anos é essencialmente essa: “Milena não é assim, você fez errado, vou te ensinar”, “não pode fazer isso”, “não pode gritar”, “isso é feio”. Ela fica cochichando esse tipo de coisa consigo mesma e eu sinto um misto de culpa e assombro, pois, sinceramente trabalhei muito para o oposto disso! E assim, uma tonelada cai na minha cabeça a cada vez que escuto essa autocensura.

Eu já estava na pedagogia quando fiquei grávida da Milena e desenvolvimento infantil sempre foi minha área de estudo. Coisa que eu sempre cuidei foi não enfatizar erros, apontar o certo ao invés de chamar a atenção, elogiar os acertos e ignorar os desacertos…

Coloquei muita energia tentando mostrar para minha filha o quanto o que ela faz ou tenta fazer tem valor. Infelizmente porém, não escapei da cultura que me educou com o “não” e com a repreensão constante.

Dar limites sempre, limitar nunca!

Foto: Ian Harding/CC

Foto: Ian Harding/CC

Essa linha delicada que sempre busquei seguir não livraram minha filha desta constante repreensão interna e é comovedor ver ela se repreendendo em quase tudo o que faz, respondendo com um não antes mesmo de eu abrir minha boca, como que antecipando a minha resposta, me mostrando que, mesmo sem querer, não é o que mais falo para ela.

Cuide para que seu filho se sinta acolhido nas suas competências, faça isso por ele, mas lembre-se que para ele ou ela entenderem isso você precisa mostrar este reconhecimento de uma forma mais forte que palavras.

Use o desenho que ele fez como quadro, deixe ele fazer do jeito dele a salada, deixe que algo que ele fez seja usado por todos. O elogio pelo elogio não produz muito… a recompensa de fazer bem feito é interna e deve acontecer mesmo quando o elogio não vem.

Construir esse reconhecimento interno e instintivo não é fácil para nossos filhos típicos, para quem tem autismo é ainda mais desafiador, porém poucas coisas serão tão importantes quanto isso.

Me lembro quando a Mi ainda era ainda bem pequena, se ela derrubava uma água ficava absolutamente amedrontada… eu não sabia de onde vinha isso, pois todos sabem o quanto eu sou paciente com esse tipo de coisa. Não me abalo nem quando deixo uma panela de óleo cair no chão da cozinha limpa.

Por isso, ver a Milena olhar assustada por fazer sujeira, mesmo com todos de casa dizendo que estava tudo bem, nos faz perceber que de alguma forma passamos esta mensagem por outras vias…

E assim ela cresceu com um limite mínimo para o erro… sendo sempre muito exigente com suas próprias falhas, muito mais exigente do que nós mesmos. Um perfeccionismo incoerente para alguém com tantas dificuldades.

Pois bem, o mundo interno da minha filha é maravilhoso! Ela é generosa, doce, carinhosa como todos que a conhecem podem atestar, mas ela tem revelado também a internalização de todos os nãos e repreensões que recebeu, mesmo sob minha vigilância maternal, mesmo com o carinho enorme sempre presente no ambiente que a cercava.

Acolhimento é aceitação. Conduzir as pessoas ao caminho da competência não é catequizar, não é doutrinar, não é ser o professor que tudo ensina e cobra… O nosso papel acolhedor é conduzir ao aprendizado, é reconhecer esforços e direcionar os erros é deixar a pessoa buscar e construir o seu saber.

Dar limites não é ser punitivo, não é impor sua verdade e seu saber. Dar limites é apenas apontar a direção e esperar que a pessoa acerte seu passo e decida caminhar.

Achar que a pessoa com autismo vive isolada, falar sobre esta pessoa como se ela não estivesse ali, apontar o tempo todo que ele ou ela está errando, dizer o tempo todo como é que se faz é uma forma desumana de praticar o preconceito. É a nossa crença na incapacidade desta pessoa expressa em palavras e atitudes.

Ensinar é acima de tudo dar exemplos e tudo o que estou escrevendo, estou escrevendo também para mim como mãe, porque eu tenho que aprender.

Por enquanto eu sigo por aqui respondendo “sim você pode”, “é claro que você consegue”, “este é um outro jeito de fazer que você descobriu, gostei muito”, “eu te ajudo a consertar/catar/arrumar pois isso também acontece comigo”… Desta forma eu tento reprogramar este mundo de discriminação que minha filha agora elabora e que tanto me dói.

Se aprender com a experiência do outro é válido, tomara que você aprenda a tempo de ajudar uma criança com autismo que certamente está tendo que lidar com este constante “não conseguir”.

Não pense que eles não percebem, não acredite que estão isolados… expresse seu amor e acolha, valorize de verdade seus resultados e você vai fazer com certeza, uma grande diferença no mundo de alguém.

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10 Comentários em "Milena e a autocensura"

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rosery
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Sempre aprendo com vocês. Bju p Milena!

Ânara
Visitante

Nossa, nuncs tinha me atentado pra isso. Meu filho de 4 anos também repete baixinho as repreensões que recebe.

Claudineide Reis dos Santos
Visitante

Fiquei muito emocionada com sua gravação. Me trouxe a memória todas as vezes em que ficava chateada com meu Saulinho quando ele aprontava algo como sujar o chão que eu tinha acabado de limpar. Sendo que me preparo para ser paciente em tudo o mais. São os pequenos detalhes do dia a dia que fazem valer cada pequeno grande esforço dele.E eu preciso respeitar mais isso, essas pequenas grandes tentativas dele em realizar algo. Muito obrigada.

Janaína Duque Ferreira
Visitante
Fausta, suas palavras sempre me inspiram, o blog da Mi foi o primeiro que eu encontrei depois do diagnóstico de autismo do meu filho e fui lendo ele todo e através de suas palavras entendendo e aprendendo um pouco mais. Esse texto em especial me tocou muito porque esses nãos internalizados vem de todos os lados… em casa falamos não (ele está com mania de bater, não por agressividade mas por empolgação com algum desenho ou brincadeira, e sempre corrigimos e pedimos para ele repetir : não pode bater), na escola ele ouve muitos nãos, na casa da avó… enfim,… Leia mais »
Elisa
Visitante

Oi, sempre maravilhosos teus textos, e mais uma vez me encontro neles. Estamos em uma fase de sentimentos parecidos embora minha pequena ainda esteja com 4 anos. Há algum tempo venho trabalhando a auto-estima da Gabi, e recentemente iniciamos um processo de desfralde. Tenho levado na boa os frequentes “escapes”, mas ela não. Porém como não fala fico tentando entender se isso vem dela ou da escola, já que parece que lá o processo não está sendo encarado como em casa.
Beijos