Uma história triste

Nenhuma situação vivida é igual quando o sujeito que a vive é diferente. Nós emprestamos nossa identidade e tornamos cada acontecimento na face deste planeta lindo, um acontecimento inédito.

Quando eu conheci esta família eles ainda eram felizes, viviam na média que todos os meus amigos viviam, nem faltava e nem sobrava nada para aquelas pessoas. Mesmo depois de nos mudarmos, continuamos nos falando e a palavra amizade que para mim, já subentende permanência fez valer sua força e mesmo com o aumento da distância o nosso carinho prevaleceu.

Não tem muito tempo, o filho mais novo que sempre foi o mais “arteiro” trouxe preocupações abandonando a faculdade, mudando de empregos e ela me contava meio desanimada a sua luta para tentar ajuda-lo. Já seu filho mais velho foi um adulto em miniatura quando criança, sempre sério e responsável, saiu da universidade podendo escolher a qual convite de emprego aceitar.

Na vida que se seguiu, um dia ela me envia um e-mail longo me contando um fato que mudou a vida de toda a família e que me impactou profundamente. O resumo é que seu filho mais velho que já morava com uma garota e estava vivendo feliz, ao participar de uma despedida de solteiro, se envolveu em uma briga e em um momento de raiva misturada ao álcool, acelerou demais o próprio carro atropelando e matando dois jovens.

A sua vida corrida de empresária, se tornou um cotidiano de visitas ao filho preso, o cuidado do neto que nasceu a pouco, o suporte ao marido deprimido e ao filho mais novo que tenta até hoje acertar de novo o rumo da própria vida. Ela vivia a sustentar a dor de todos, sem tempo nenhum para viver a própria dor.

Naquele dia voltou a minha memória o momento em que contei a ela sobre o diagnóstico de autismo e o olhar que ela me endereçou e entre a piedade e a preocupação, ela que um dia me perguntou se o futuro da Milena não me preocupava…

Todos nós queremos muito ser felizes e isso é o combustível que nos faz sair da cama pela manhã, nós que visitamos este blog, estamos todos muito comprometidos com nossas crianças com necessidades especiais, estamos ligados neste mundo azul ou seja lá a forma que queremos rotular este universo do autismo.

Essa é a nossa luta e também nossa bandeira.

Estudamos, nos informamos e nos tornamos gigantes na busca de garantia de um futuro melhor para nossos amores. Somos cuidadores do futuro do nosso autista, se assim podemos dizer.

Quantas vezes colocamos em cima dos nossos ombros a culpa por todas as escolhas que temos que fazer em relação a essa criança?

Nada vai mudar a nossa busca, nem eu e nem você, vamos deixar de mover o mundo se preciso pelo nosso filho, mas casos como este que descrevi trazem a meu ver uma preciosa lição.

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Um futuro só vale a pena quando o presente é bem vivido. Na busca incessante do amanhã melhor a gente jamais deve deixar de viver bem o presente. Aproveitar e curtir muito a criança que temos, sem ficar tempo demais chorando pela criança que sonhamos e pelo adulto que planejamos um dia que ele se tornasse.

Rolar junto no tapete, dar risada, enfileirar também carrinhos e ajudar a rodar rodinhas, se encantar pelo fio de cabelo da boneca ou brincar com a caixa de sapato junto com esta linda criança. Tudo isso também vale como investimento neste futuro que você e eu acreditamos poder controlar.

Do controle real me permito dizer uma coisa, ele está aqui e agora no seu momento presente. Viva isso, alegre-se e agradeça o presente de receber uma vida em suas mãos, não deixe que um diagnóstico, uma avaliação, ou a frase de preconceito dita por algum ignorante, te cegue diante da beleza de ter seu filho vivo junto a você ou te roube momentos que poderiam ser mais leves e muito mais felizes.

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Não estou aqui dizendo que é fácil nem deixando de legitimar a lágrima que também cai por aqui, muitas vezes. A luta continua sempre, mas carregar a luta com pesos desnecessários e deixar de vislumbrar a beleza do percurso não vai nos acrescentar garantias e nem nos trazer mais sucesso.

Que nossos momentos de reconhecimento e gratidão possam superar em força os momentos em que tudo fica difícil. E que diante da ilusão de que sem diagnóstico nosso filho ideal viria um dia a ser o modelo da perfeição, que o nosso amor nos mostre a face de uma vida real, que pode ser diferente, mas nem por isso será menos feliz.

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17 Comentários

  • Responder Ânara 19 de maio de 2016 at 10:34

    Lindo texto! O futuro a Deus pertence! Vamos viver o presente, que é o que realmente temos! Você, como sempre, com as palavras certas!

    • Responder Amanda 19 de maio de 2016 at 19:15

      Adoro seus textos, sempre me traz uma calmaria uma certeza de que vai dar tudo certo.

      • Responder faustacristina 22 de maio de 2016 at 17:26

        Que bom Amanda!

        Pra quem está caminhando já a algum tempo, posso te dizer que sim, vai dar certo… a gente nunca olha pra alguém que amamos e pensamos que não deu certo, o amor resulta em aceitação, ainda que a gente siga persistindo em melhoras e conquistas, a aceitação vem do entendimento de que cada ser é único e cada experiência é rica e inesquecível!
        Um abraço e obrigada por seu comentário!!!!

    • Responder faustacristina 22 de maio de 2016 at 15:48

      Obrigada viu minha querida Ânara?!!!
      Bom saber que são certas para você e que a gente combina nesse universo tão diversificado que é o do autismo. Adoro receber seu retorno, como já te disse e não consigo expressar o carinho que sinto quando leio o que você me escreve sempre com tanta bondade.
      Beijo para você, continuamos seguindo a rota sem mapa mas com ótimas companhias :]

  • Responder Michele Luiz 20 de maio de 2016 at 01:35

    Belíssima reflexão, Cris! Com a profundidade, o amor e a beleza que só poderiam vir te você <3

    • Responder faustacristina 22 de maio de 2016 at 15:45

      Michele minha doce leitora
      Ainda na emoção de ler os comentários e os emails encontro sua contribuição aqui em forma de elogio e fico com vontade de romper a barreira da distância e te dar um abraço de amiga para expressar minha gratidão por sua presença!
      Obrigada querida, beijo grande!

      • Responder Michele Luiz 8 de junho de 2016 at 03:23

        Sinta-se abraçada, minha querida. A gratidão é sempre minha por tê-la encontrado em meu caminho. A vida mais uma vez me ofertando uma linda oportunidade de crescer. Beijo grande.

  • Responder Fabiana 20 de maio de 2016 at 14:39

    Um texto reflexivo e intenso. Sempre te vi como mãe, e nunca como “mãe de autista” (no sentido de carma, pesado ou de pena), porque isso é o que é, simplesmente mãe. Por isso me identifico com suas palavras.
    E está coberta de razão quando diz que o futuro está lá na frente, a gente luta e vive agora, com eles e por eles, os filhos. Minha mãe teve dez filhos, e me ensinou que a vida é imprevisível, sobretudo pensando nos filhos, porque eles não são, nem nunca serão como nós. São uma parte nossa, em outra circunstância, muito diferente, o que torna ainda mais difícil uma previsão segura. Viver é uma aventura perigosa. Bjo minha amiga. Adorei o texto, por isso comento.

    • Responder faustacristina 22 de maio de 2016 at 15:43

      Obrigada querida!!! Obrigada por nosso vínculo, obrigada pela leitura, pelo comentário… o blog acaba me trazendo muito trabalho (que bom) com todo o contato que traz com familiares e profissionais e mais ainda com toda a responsabilidade que envolve publicar afirmações! Muitos textos são deletados para que um vá para o site… Mas os comentários e visitas que recebo me levam sempre a continuar por isso sou mesmo muito grata a você e também a todos que de alguma forma me dão este retorno por aqui ou por email.
      Xiiiiii…. acho que me empolguei né?
      Recebe meu abraço carinhoso, sem mais palavras por agora :]

  • Responder Mariza 20 de maio de 2016 at 21:19

    Outro dia eu estava no metrô e um jovem, muito falante me perguntou se eu tinha muitas preocupações na cabeça, quanto ao futuro do meu filho. Não me pegou de surpresa porque vejo a mesma pergunta todos os dias no olhar das pessoas. A minha resposta foi não. Aí, quem ficou surpreso foi ele. Sei que não vou durar para sempre, mas enquanto eu estiver ao lado do meu filho, ele será feliz. Depois, tenho certeza de que Deus cuidará da melhor maneira de olhar por ele. E, como diz a minha mãe, uma criança dessas, faz até Deus sorrir

    • Responder faustacristina 22 de maio de 2016 at 17:30

      Que lindo o seu comentário Mariza!!!!!!

      Eu também penso exatamente desta forma. Sei que nada é fácil e simples na vida complicada das relações, mas tenho certeza de que tudo passa e embora existam muitas pessoas inesquecíveis ninguém é insubstituível, mesmo que um lugar nunca possa ser preenchido duas vezes, como o de uma mãe, cada ser será capaz de encontrar uma mão amiga, um apoio e o amparo que precisa e merece.
      O medo do futuro realmente não pode lançar sombra em nossos dias de sol não é?
      Obrigada pela bela contribuição! Um abraço!!!

  • Responder Sandra Mourão 23 de maio de 2016 at 15:18

    Querida Cris, há muito deixei os ”pesos desnecessários” pelo caminho e a minha caminhada está muito mais leve e feliz. Faço aquilo que meu coração me diz, e ele sempre acerta, por mais incerto que possa parecer o futuro, tento fazer o meu presente um pouco mais leve….
    Beijos no coração!

    • Responder faustacristina 31 de maio de 2016 at 20:12

      Que bom Sandra!!!

      A sabedoria vem destas posturas. Fico muito feliz por você!
      Obrigada por deixar seu comentário e compartilhar sua experiência… mostra para nós que é um caminho possível.

      Beijo para você!

  • Responder Renata 29 de maio de 2016 at 04:29

    Excelente reflexão você nos trouxe, Cris. Como já te contei, me deparei com o autismo quando saiu o diagnóstico do Vítor (sobrinho do meu marido) e confesso que fiquei pensando como seria seu futuro (adulto), será que ele teria algo parecido com o que imaginava para os meus filhos? Tenho um casal de filhos e hoje eles estão “adultos”. O André com 24 anos e Samantha com 19. A Sam termina este ano sua graduação em Web designer (cursou a metade de jornalismo e quis trocar), já o André está cursando Gestão Comercial e Educação Física, mas já passou por vários cursos e confesso que não sei se ele se encontrou profissionalmente. Claro que imaginei um futuro bem diferente pra eles, mas aprendi a aceitar que a vida é deles e as escolhas também, assim como cada um tem um tempo para amadurecer e eu, como mãe, exerço um papel de apoio, não mais de controle, de tomar decisões. É bem difícil se acostumar, mas temos que aceitar que não controlamos nada, tudo está nas mãos de Deus. O melhor que podemos fazer é confiar e exercer, da melhor maneira possível, nosso papel. Quanto ao Vítor, ele está lá, progredindo cada dia mais, aprendendo a ler e escrever, a socializar, aceitar o “parabéns pra você” (coisa que ele não aceitava), fazendo judô, ganhando medalha na natação e nos enchendo de orgulho. Agora, como será sua vida adulta? Esta pergunta ninguém pode responder, pois “o futuro a Deus pertence”.
    Grande beijo.
    Renata – Brasília

    • Responder faustacristina 31 de maio de 2016 at 20:09

      Renata querida! que bom te ler por aqui :]

      É uma reflexão pertinente né? Todos nós uma hora ou outra fazemos planos pelos outros não é? E mesmo as pessoas que se tocam que isso não é um caminho de certezas e que nem mesmo deveríamos tentar, continuamos nos decepcionando quando o rumo dos nossos amados são tomados na direção que nós não concordamos… Assim, filhos ficam contrariados com a escolha da mãe ou do pai, pais ficam tristes com decisões dos filhos, maridos, esposas, parceiros…
      Para a mãe de uma criança especial isso ainda é mais complicado porque muitas vezes nós temos que tomar as decisões por eles, então nem sempre se trata das escolhas deles, ou não podemos apenas dizer, ele vai sofrer a consequência e aprender…
      Escolher pelo outro acaba fazendo a expectativa da gente aumentar muito e quando ela não é atingida, a culpa nos pega de jeito.
      Bom, só tenho a agradecer sua contribuição.
      Que a gente siga trocando e compartilhando por todos os canais possíveis!
      Beijo grande querida!

  • Responder Raquel 30 de julho de 2016 at 11:56

    Olá. Muito bom seu texto. Meu filho está com 13 anos e passamos em consulta com a neuro essa semana. Tenho receio quanto a medicação, mas vamos com calma, tudo para ajudar meu amor. Ele é um doce mas tem dificuldade social sim, desde pequeno, mas sempre foi dito como timidez. De dois anos pra cá as notas despencaram e a irritação aumentou. No começo achei que era a fase da adolescência. Espero que o conjunto de médicos, atividade em grupo (que não é fácil pois os outros o distanciam) e paciência o ajude…

    • Responder Fausta Cristina 10 de agosto de 2016 at 18:37

      Oi Raquel
      Tomara que vocês consigam se ajustar sim. O comportamento dele é apenas o sinal de que ele precisa de ajuda, espero que vocês encontrem caminhos para ajuda-lo nem sempre vale apenas a vontade, muitas vezes é preciso conhecimento e apoio.
      Um super abraço para você e para ele.

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