Três dias longe dos pais: o acampamento

Que post difícil de fazer! Muita coisa para contar, quero não me estender muito, quero explicar tudo, pois pode ser útil para muita gente e quero vencer o desânimo de ter feito um texto imenso e ter acabado de ver que o texto sumiu… Mas vamos lá, preciso contar para vocês desta aventura, este verdadeiro milagre nas nossas vidas que foi ver Milena participar de uma viagem com sua escola. Ela foi para um acampamento por três dias e duas noites com pessoas que ela não conhece muito, que não falam português e venceu o seu maior desafio que é estar longe de mim e do pai principalmente na hora de dormir.

Por isto este post é um post sobre esperança e sobre nunca duvidar do que uma criança/pessoa com autismo pode conseguir com o apoio certo.

Enquanto escrevo ela dorme tranquila aqui do meu lado, compartilhando a cama enquanto papai viaja, meu coração que estava alarmado, apreensivo, de certa forma repousa também, mas sabendo que valeu demais ter topado passar por um momento de apreensão que vai resultar em conquistas futuras muito importantes para minha mocinha

Começando do começo

Milena era um bebê de nove meses quando o primeiro psicólogo nos orientou sobre como agir em relação ao autismo… ele nos apontou ela fazendo estereotipia (eu nunca tinha ouvido esta palavra) e disse: “ela está se isolando neste momento, por isto não deixe ela sozinha para que isso não se repita com frequência, sempre interfira”… Eu não entendi muito o que ele queria dizer, mas entendi sobre não deixar ela sozinha e desta forma ela cresceu, cercada de gente e de atenção… acho que até exagerei, pois hoje em dia para ir ao banheiro ela me chama… fica sozinha apenas a poucos metros de distância.

Ela nunca dorme sem a minha presença ou a do pai dela. Se o quarto ficar distante, tenho que ficar com ela até ela adormecer completamente e se acorda à noite, ela me chama de volta (ela dorme bem felizmente). Aqui no apartamento atual, temos tido muitas dificuldades em relação a isso.

Por isto tudo, quando recebemos o convite para o acampamento (que já vi tanto em filmes e livros) pensei que não seria para a Milena, no entanto, na reunião de apresentação do passeio, eles me olharam espantados quando eu coloquei sobre meus receios. Fiquei com a sensação de que eu era exageradamente protetora, havia alguns pais de jovens com autismo em um grau muito mais comprometido que estavam muito tranquilos e eles seguiam me perguntando com um espanto imenso: “por que mesmo você acha que Milena não conseguiria?”

Me vi obrigada a pelo menos tentar. Me deixaram livre para buscá-la a qualquer momento que eu ou ela quisesse, mas insistiram que eu fizesse pelo menos uma tentativa. Como meu marido estaria viajando a trabalho, eu pensei que talvez eu até pegasse um trem e fosse ficar hospedada em uma cidade mais próxima com camping e se fosse preciso eu estaria por lá. Mas a vida me trouxe de presente uma hóspede muito especial e nem isso eu pude fazer… Tive que ficar longe mesmo, de coração na mão, ter uma amiga por perto foi uma ajuda e tanto, além de me fazer companhia e me tranquilizar, eu mantive minha mente e meu corpo muito ocupados e isso me fez muito bem. Obrigada Andrea Werner, não sabe o quanto me ajudou!

Como foi a preparação

IMG_4066A um mês da data prevista para o acampamento, recebo em casa este roteiro plastificado. Eles tinham uma copia na escola também e me pediam para repassar em casa com a Milena quando pudesse. Teríamos duas semanas de recesso e por isso era importante manter a familiarização ou melhor, não deixar a Mi esquecer a viagem.

O resultado é que eu nunca vi a minha filha tão tranquila. Nem quando fomos ao Brasil (durante o recesso) ela ficou tão tranquila e calma como foi o acampamento que era um desafio BEM maior.

Vejam o vídeo do papai repassando com ela parte do roteiro. Detalhe: ela mesma nos lembrava de ler com ela e riscar o calendário.

No primeiro dia à noite recebi a primeira ligação via FaceTime e ela me disse que tinha vomitado, pois estava com a garganta doendo. Perguntei se ela queria que eu a buscasse e ela disse prontamente que não… Quase morri de angustia, mas a tranquilidade da professora me fez conseguir esperar até a manhã do outro dia. Saber que Milena dormiu bem e já estava brincando pela manhã me aquietou de certa forma, suspirei e segui segurando a emoção.

A cada dia chegava o relato de ela estava bem e à noite, eu falei com ela e me tranquilizei. Chegou o dia do retorno e ela chegou sorrindo vitoriosa! Ela sabe que conquistou algo importante, sabe que pode se orgulhar.

Ela ainda não me contou tudo o que aconteceu por lá, ela vai soltando aos poucos algumas informações. Como já contei aqui no blog, esta história de relatar como foi o dia na escola, como foram os passeios, nós ensinamos para a Milena fazendo isso nós mesmos o tempo todo… então sempre que chegamos em casa contamos entusiasmados (meio teatral mesmo) como foi o nosso dia, tudo o que fizemos e assim ela cresceu aprendendo o que é compartilhar este tipo de informação. Se a gente não conta ela pergunta: como foi o seu dia, como foi o seu passeio? Já se habituou.

O que ela tem me contado até agora é que conseguiu escalar com ajuda, me contou que os meninos ficavam em outro quarto bem longe J e que ela dormiu na beliche embaixo da sua coleguinha Lola. Contou sobre a comida e sobre algumas atividades, disse que comeu marshmallow assado na fogueira e que estava frio.

Eu não sei se você que está me lendo tem um filho ou familiar com autismo, mas se tem, sabe exatamente o tamanho desta conquista, não é?!

Eu estou em êxtase sabe? Ainda nem sei se acredito.

Isso vem me mostrar o valor do apoio visual, o valor da ação orientada e que respeita a dificuldade de alguém e cobre aquilo que ela não consegue fazer por si só, sem cobrança ou imposição mas com a pressão certa.

Quantas vezes eu venho falando ao longo destes dez anos de blog sobre apoio visual e antecipação de rotina? Quantas vezes eu mesma tenho falhado nisso, achando que pelo fato da Milena ser falante eu não preciso mais usar este recurso todas as vezes? Que basta falar onde vamos, o que possivelmente vai acontecer e quanto tempo aproximadamente vai durar… que basta eu dizer isso uma vez e pronto. E daí a vejo nervosa, a vejo se irritar em alguns momentos, vejo ela perder o sono e se tornar mais impulsiva e fico tentando entender o motivo destes comportamentos e nunca me toquei o quanto eu tenho feito ela vir comigo a lugares que ela talvez nem queira ir ou que ela nem se preparou adequadamente para estar!

Sim, eu tenho que retornar para este apoio visual e descrever melhor o que a espera para ajuda-la a se preparar. E não posso nunca me deixar iludir pela capa que o autismo joga sobre ela, que me esconde seu real potencial, que me faz acreditar que ela não vai conseguir.

Agora é hora de saborear esta conquista, pois mesmo falhando muito eu também trabalhei bastante para que isto fosse possível e eu também preciso aprender a dar a mim mesma os créditos devidos.

Um abraço recheado de carinho. Deixo vocês com as imagens do roteiro para que conheçam, adaptem, copiem ou tenham suas ideias a partir dele.

IMG_4100

Em 18 de abril eu estou indo para M.M por duas noites com crianças e adultos da escola FC, FCB e Q…

IMG_4101

Na segunda feira de manhã meu taxi vai me levar para a escola Q.

IMG_4102

Nós vamos encontrar todo mundo lá e vamos de minivan para o lugar do acampamento.

IMG_4108

No acampamento nós vamos tentar estas atividades:

IMG_4103

Nós também vamos fazer um monte de atividades divertidas. Nós vamos comer aqui (foto do refeitório)

 

IMG_4109

Na quarta-feira eu vou pegar a van de volta para a escola Q, depois disso eu vou para casa. A viagem vai ser muito divertida.

IMG_4110

Calendário em que marcamos os dias que faltavam, inclusive os dias em que estávamos no Brasil

Post Anterior Próximo Post

Você também pode gostar

23 Comentários

  • Responder ana paula 21 de abril de 2016 at 23:06

    eu adorei !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! vou promover alguma coisa parecida aqui !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • Responder faustacristina 22 de abril de 2016 at 20:25

      Que bom Ana Paula!

      Faca sim, se precisar de mim me chama e se der certo (vai dar) me conta.
      Obrigada por comentar viu? Um beijo!

      • Responder Malu Carli 27 de abril de 2016 at 17:01

        Boa tarde, Fausta Cristina! Adorei o texto e conquistas de Milena!!! Parabéns! Logo envio inbox…preciso de ajuda para te imitar mais uma vez. Obrigada, bjs

        • Responder faustacristina 27 de abril de 2016 at 20:42

          Oi Malu querida, muito obrigada!

          Estou às ordens como sempre!
          Um abraço e bom trabalho!!!

  • Responder Ânara 22 de abril de 2016 at 00:00

    Parabéns pra você! Parabéns pra Milena! Imagino sua apreensão nestes três dias. Mas valeu a pena.

    • Responder faustacristina 22 de abril de 2016 at 20:23

      Sim minha querida Ânara valeu mesmo a pena!!! Embora preciso dizer que não foi fácil :]

      Obrigada por seu carinho em deixar seu comentário carinhoso. É especial sempre!
      Um abraço!

  • Responder Neusa Almeida 22 de abril de 2016 at 00:03

    Sinto meu coracão aquecido com tanto que vocês conseguem transmitir nesse blog. Amo vocês

    • Responder faustacristina 22 de abril de 2016 at 20:22

      Também amamos você minha amiga querida.
      Me sinto uma privilegiada por te ter me seguindo nestes dez anos de blog.
      Uma braço daqueles :]
      Muitas saudades!!!

  • Responder tatiane 22 de abril de 2016 at 00:07

    Parabéns Mi vc é uma vitoriosa. Beijus
    prof. Tati Rs Poa

    • Responder faustacristina 22 de abril de 2016 at 20:20

      Obrigada Tati querida

      Acabei de falar com ela e ela me perguntou do jeito que sempre te chamou: A Tati… ane?
      Bom demais!
      Segue com nosso carinho minha linda, obrigada sempre!

  • Responder Iolanda Beltrão Marinho 22 de abril de 2016 at 01:20

    Que superação para Milena e vocês pais!! A Helena ainda não teve essa experiencia. Lembro quando ela ia fazer 9 anos e ela já bem nervosa me pedia para quando estivesse no 3º ano na escola eu prometesse que ela não iria para a noite do pijama, projeto do 3º ano.
    Ela não conseguiu ir a nenhuma excursão da escola que incluiu viagem e noites foras. Mas estamos trabalhando nisso como ela gosta muito de inglês e quer fazer intercambio, vamos enfrentar o desafio.
    Esse relato de vocês nos deixam cheios de coragem e esperança!! Abraços fraternos

    • Responder faustacristina 22 de abril de 2016 at 20:18

      Bom saber Iolanda

      Ela é inteligente e vai conseguir sim vencer a emoção! Tente o apoio visual que eu sei que é difícil de fazer com quem tem Síndrome de Asperger mas eu acho que vale tentar. Não para o acampamento ou o intercâmbio mas para coisas pequenas que vocês fazem no dia a dia e veja se tem alguma mudança. Sei lá um passeio no shopping ou algo assim.
      Depois me conta.
      Manda um abraço para ela! Um para você também e obrigada por ler e comentar!

  • Responder faustacristina 22 de abril de 2016 at 20:19

    Obrigada Bianca!

    Olha eu entendo porque tenho vivido muito a esperança que vem de outras mães e outras historias de superação!
    Obrigada minha querida por sua vibração, por ler e por comentar.
    Recebe meu carinho!

  • Responder faustacristina 22 de abril de 2016 at 20:24

    Oi Bianca!
    Que bom, que bom saber disso!
    Eu sei que essa experiência vai criar um precedente muito importante na nossa vida, obrigada por compreender isso e por registrar o seu comentário.
    Recebe meu abraço!

  • Responder Claudia 22 de abril de 2016 at 20:25

    Muito legal! Uma grande vitória para a Milena e pra VC! Meu filho nunca fala o que aconteceu na escolinha! Achei interessante cimo vcs fazem a respeito disso. Obrigada.

    • Responder faustacristina 23 de abril de 2016 at 15:38

      Obrigada Claudia!

      Eu tenho vários posts contando como foi esse processo. Vou dar uma procurada e tentar te enviar alguns links.
      Um abraço, obrigada por comentar!

  • Responder Tatiana 24 de abril de 2016 at 00:35

    quanta esperança…um dia…um dia…tudo acontece.

  • Responder Sandra Mourão 26 de abril de 2016 at 11:11

    A Milena pode tudo, porque tem uma mãe como você, simples assim minha querida!!!!!
    Lindo o seu relato, linda esta experiência, imagino como ficou seu coração nestes dois dias, mas você também venceu!
    Beijos!

    • Responder faustacristina 26 de abril de 2016 at 15:18

      Verdade Sandra, ficou apertado o coração e se fosse pelo comodismo, não teria acontecido… é tão mais fácil desistir e arrumar umas desculpas depois…
      Obrigada pelo apoio, pela torcida e por tirar seu tempo para comentar.
      Um abraço carinhoso!

  • Responder Barbara Rinaldi Caetano 3 de maio de 2016 at 13:52

    Só hoje consegui ler… Parabéns… Parabéns …Parabéns… receba meu abraço e minha admiração… nunca desistir essa é minha palavra de “ordem”… Mil Beijos!

    • Responder faustacristina 5 de maio de 2016 at 10:48

      Obrigada minha linda!!!
      Recebo o abraço e adoro!
      Grata por teu carinho. Recebe também o meu abraço e o da Mi.

  • Responder risoletabenner 18 de maio de 2016 at 18:07

    Tenho acompanhado você no snap. Não tenho filho autista mas através da Andrea comecei a me interessar e cheguei ao seu blog. Isso me causou uma empatia tão grande como se eu a conhecesse de muitos anos. Adoro suas posta genes, seus comentários sobre a Milena, sobre o acampamento. Fiquei radiante de felicidades sobre como foram os dias dela lá. Passei a admirar você é ser uma super fã. Bjs

    • Responder faustacristina 22 de maio de 2016 at 15:35

      Risoleta eu não sei dizer porque mas meus amigos do snapchat são muito especiais! Obrigada por vir ao blog, obrigada por ler!!! Tenho alguns seguidores no blog que não tem ligação direta com o autismo e eles me fazem sentir ainda mais especial por ser interessante o suficiente para captar a atenção de quem não tem essa ligação.
      Que bom que você veio ao blog e que bom que comentou! Sou muito grata a você. Recebe meu abraço carinhoso!!!

    Deixe seu comentário