Momentos mágicos

Alguns aprendizados da vida são essenciais. Aprender por exemplo que existem momentos que te sugam e momentos que te alimentam  de energia,  identificar estes momentos e tirar deles o melhor proveito é uma verdadeira arte e é também fundamental.

Quando você vive os momentos em que precisa usar toda a sua energia concentrando e decidindo, escolhendo e se responsabilizando, discutindo e questionando, contratando e cobrando, você aprende muito e isso é bom. Mas não dá para se doar inteiro ali, senão a gente adoece assim que a experiência termina. Tem hora que a gente nem sente que foi sugado, nem sente que desprende uma energia desnecessária em algo que não edifica nada e é quando precisamos ter muito cuidado.

Um tanque cheio te deixa disposto, uma baixa energia te faz desanimado e desesperançoso…

Na vivência do autismo a demanda é imensa. A gente tem que decidir, escolher, interpretar e fazer um monte de coisas ao mesmo tempo. Ouvir críticas e opiniões, fazer isso por nós e pelo nosso filho, familiar, aluno ou paciente e ainda tentar desenvolver nele ou nela a capacidade de fazer tudo isso por si mesmo… A impressão que tenho é que o canal de saída de energia é muito maior do que o de entrada!

Por isso não se permita investir muito no que não vale a pena. Culpa não vale a pena e suga muito de nós, comparações são sugadores de energia, tenha cuidado! Procurar fazer todas as terapias e estar antenado a tudo o que acontece, ficar escolhendo sempre, discutir com quem pensa diferente, tentar mudar outras pessoas (e mais uma lista interminável de sugadores) sempre vai fazer com que você fique perdido e exausto. E quando o autismo te exigir – e creia, ele vai exigir – sua dedicação e seu equilíbrio, você não vai ter de onde tirar e é quando tudo piora…

E por isso é tão bom compartilhar, por isso é tão bom trocar com quem vive o que você vive.

Estamos no Brasil para duas semanas de férias. Estou no meio deste período e já estou de  “tanque cheio” de tanto carinho que recebi. Mas nos primeiros dias estive exaurida, exausta por algo grave e triste que aconteceu. Duas pessoas se fizeram passar por mãe e filha com autismo e enganaram muita gente fazendo vídeos mentirosos. Farsa desmascarada, descobriu-se que elas estavam morando na minha cidade natal e eu estava lá quando isso aconteceu. Me envolvi, não me calei e uma tristeza sem fim me tirou por momentos a fé na humanidade… Foi quando os abraços começaram, recebi amigos e familiares e segui encontrando pessoas que tem o autismo em comum, leitores do blog que eu não conhecia e a cada abraço, cada agradecimento, cada troca eu ficava mais e mais forte.

 

A linda Alicinha e sua mãe Valéria, minha neta, minha mãe, minha filha!

Foi quando voltei a ser eu mesma… a (quase) velha Cristina, otimista e consciente de que não faz por si mesma muita coisa, mas faz algo verdadeiro e despretensioso e que produz momentos mágicos, ainda que sem essa intenção… Momentos de troca de energia boa, momentos de puro amor. Prêmio ou consequência eu não sei, mas sou eu a pessoa que ganha mais!

Eu sei que o mundo anda complicado, como diria Renato Russo… mas eu também sei que tem um monte de momentos bons que a gente precisa aprender a identificar e se renovar com eles. Não permitir que coisas pequenas nos suguem, mas aprender com eles. E que a gente seja capaz de promover os momentos bons, ir atrás deles quando a vida tiver mais difícil e assim dar conta de lidar com aquilo que não é tão bom.

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O céu do meu cerrado! Lindo sempre!!!

Obrigada a você que me lê e me alimenta de longe com sua companhia. É muito bom poder saber que a despeito de tudo que há de ruim no mundo, de toda a dificuldade que existe em conviver, a gente consegue manter momentos assim em que nos entendemos tão bem.

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7 Comentários

  • Responder Ânara Rubia Martins 4 de abril de 2016 at 15:09

    Oi! Você está em Uberlândia? Tô indo pra í dia na quinta!
    Bj

    • Responder faustacristina 4 de abril de 2016 at 15:49

      Oi Ânara!

      Na verdade quinta é o dia que vou para Porto Alegre :[
      Depois de lá volto para Londres…

  • Responder Michelle Moraes 5 de abril de 2016 at 14:45

    “Momentos mágicos”, interessante como você nomeou os comentários Cris… Porque é como que por mágica que você me tira muitas angústias, muitas culpas e muitos julgamentos das minhas costas a cada novo post. É de extremo desgaste ter que conviver com tudo, como se já não bastassem os desafios diários. E o que tenho observado é que é completamente normal uma mãe perder a calma, chorar, errar… Mas não a nós! As mãe especiais tem que ser perfeitas e não cabe erros ou desacertos. E não é bem por aí, nós somos de carne e osso também… E como costumo dizer à minha mãe, a erra, erra sim. Mas até quando erro é por amor!
    Descarregar a culpa, deixar as opiniões de lado e enxergar sempre o melhor lado é um exercício contínuo e não dá pra descuidar senão já começo a achar que a culpa é minha sempre e todos os erros eu poderia ter evitado. Mas não evitar certos erros, não proteger nossa prole de tudo também é necessário!
    Eu e o Cauã estávamos assistindo ‘Procurando Nemo’ uma noite dessas e é tão bonito a necessidade que mostra em deixar que nossos filhos passem pelos problemas, pelos desencontros da vida. Em confiar que eles são capazes de lidar com isso sozinhos, afinal de contas o nosso maior desejo não é que caminhem por sua conta?
    Já temos muitos encargos, a culpa e os julgamentos são coisas que não nos cabem realmente!
    Obrigada pelo espaço que você nos dá pra dividir experiências, desabafar nossas falhas e por sempre nos fazer acreditar que tudo pode ser construtivo.
    Isso te fortalece? Querida, isso nos fortalece também! <3
    Beijos nossos!

    • Responder faustacristina 13 de abril de 2016 at 09:40

      Oi Michelle

      Só agora tive tempo de responder ao seu belo comentário, que como sempre, vem complementar e adicionar ao meu texto.
      Eu me sinto fortalecida também quando vejo que outras mães sentem e pensam como eu. Fico grata que você tenha tirado tempo para registrar, pois apenas assim nós vamos poder saber que não somos tão estranhas no mundo… fácil sentir essa “solidão” quando estamos no salão de beleza ou qualquer outro ambiente onde as mães estão reclamando dos filhos com coisas que a gente iria comemorar se fosse conosco ou então estão totalmente perdidas entre futilidades de roupas, sapatos e moda enquanto a gente se angustia com a escolha de terapias que vão interferir pra sempre na vida de nossos filhos… não é difícil se sentir meio E.T. não é mesmo?
      Um abraço grande e mais uma vez, obrigada!

      • Responder Andreia Greco 9 de junho de 2016 at 03:17

        Pois eh Cristina! um dia desses, numa reunião de pais na escola da minha filha, me senti exatamente assim…um ET vendo aquelas mães se queixando e comentando de seus filhos. Tudo o que eu desejava era sair dali logo e chorei horrores quando cheguei em casa pensando que talvez minha filha se sinta assim quando está na escola já q ela não faz a mínima questão de estar lá. Não conhecia seu blog e foi identificação total a primeira vista. Sou mãe da Piettra de 12 anos, nossa caminhada começou quando ela tinha 6 anos, mas o diagnóstico de autismo tivemos só no ano passado, então é bem recente e ainda estou me ajustando a esse novo mundo. Obrigada por compartilhar suas vivências com a Milena…ela é linda! Bjs

  • Responder Évelyn 11 de abril de 2016 at 12:11

    Cheia de amor! Repleta de novos conhecimentos!

    • Responder faustacristina 13 de abril de 2016 at 09:41

      Muito agradecida Evelyn pelo seu carinhoso comentário :] Um abraço carinhoso!

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