12 anos

O desafio de uma educação diferente e a falta de educação

Minha adorável menina tem me dado provas do quanto ela é corajosa e determinada embora não faça esforço nenhum em se mostrar e por isso essas qualidades ficam muitas vezes escondidas ali, nas dobras que o autismo traz.

Diga a uma criança de dois anos para fazer aquela carinha para o vovô e ele vai adorar as palmas que recebe, as risadas que desperta, afinal foi assim que todos nós começamos a gostar de aprovação externa. Diga a uma criança com autismo para mostrar que ela já sabe ler e provavelmente você vai ser desapontado pela absoluta falta de motivação que ela tem para fazer algo que não está com vontade só para receber aplausos e elogios.

Desta forma, muitas vezes, nossos filhos ganham desenvolvimento e aprendizados que a gente só se dá conta bem depois. De repente, ele ou ela vai fazer algo que você vai ficar espantado, “eu não sabia que ele sabia isso” os pais costumam dizer.

Já contei aqui antes, sobre quando a Milena aos quatro anos de idade contou de um a oito enquanto a médica costurava o seu queixo (post aqui)  e nesta época ela não mostrava compreender tanto nossas ordens, muito menos entender uma sequência numérica. Mas ela fez. Ela contou quando a médica disse que já ia acabar de dar os pontos, que era só ela contar até dez. Lembro que eu chorava tanto pela emoção do momento ao descobrir que ela sabia falar os números e contar em sequência quanto pela agonia de ver ela sendo costurada. Detalhe: depois desse dia ela nunca mais contou em sequência a não ser que a gente mostrasse o número e pedisse para ela seguir contando, às vezes nem assim. As pessoas acham que ela não sabe contar hoje aos doze anos, mas ela já contava aos quatro.

Pois bem, a Milena veio para um país totalmente diferente, para uma escola com uma estrutura totalmente estranha a tudo o que ela já viveu, nos mais de dez anos que ela está na escola. Ela vai para um lugar onde ninguém fala uma palavra em português, entra no carro com desconhecidos que a levam até lá e depois a trazem de volta e ao chegar em casa me mostra o seu stress, seu nervosismo e sua ansiedade e me diz (depois do tanto que ensinamos) o quanto foi difícil e desafiador o seu dia.

A equipe aqui é muito preparada. Eu sei que não são todas as escolas de Londres que são assim. Nos grupos de discussão nos contatos com outras mães eu ouço algumas queixas, mas vocês sabem… infelizmente tenho que mencionar que o que vivemos no Brasil, me faz sentir que estamos muito bem assistidos. Não estou desmerecendo o trabalho incrível que muitas equipes fazem não, estou reclamando mesmo da falta de estrutura e de apoio, do pouco investimento e do mau uso do dinheiro, enfim… vocês sabem bem o que quero dizer.

Escola da Milena em Londres

Talvez por isso estamos tão felizes por encontrarmos coisas tão bem conduzidas, aqui as professoras também acolheram a Milena com muito carinho, já contataram uma fono, uma terapeuta ocupacional e um professor de inglês, começaram a usar figuras e estruturaram a rotina. Antes disso houve reuniões, trocas de e-mails, avaliação médica e muitas perguntas respondidas, cada profissional inclusive aqueles do que seria aí a secretaria de educação (cada bairro tem um), sabiam sobre a Milena, ela se tornou um sujeito a ser educado com plano individual sendo construído por uma equipe junto com a família, tudo isso antes das aulas começarem. Acho que foi por isso que Milena se sentiu acolhida e se soltou tão prontamente, ela percebeu que ninguém espera dela mais do que ela pode dar… nem menos.

uniformebus

Milena no seu uniforme novo, feliz indo para a escola.

Eu fiquei os dois primeiros dias por perto, na semana seguinte ela ficou apenas três horas e agora já fica as seis horas seguidas. Ela lancha, almoça, troca de roupa para a educação física, para a natação e faz quatro matérias junto com a classe comum, nos outros momentos ela fica em uma sala super estruturada com outras colegas com autismo que tem a mesma idade e o mesmo grau de comprometimento que ela. Elas fazem as atividades específicas para o desenvolvimento de cada uma, dentro do que está atrasado, na filosofia do ensino estruturado. Também trabalham o sensorial e a motricidade.

Não é nem de longe pessoal o meu modelo ideal de educação, (sonho com o modelo de inclusão da escola da ponte) mas é infinitamente mais adequado a ponto de fazer uma garotinha estrangeira, muito avessa à grandes mudanças, se sentir bem e confiar. Juntando as partes: escola preparada e rotina estruturada;  menina corajosa e capacitada e família participativa e apoiadora, tudo dá certo.

Mas como nem tudo são flores, a gente vai encontrando na vida a aquilo que a vida é, independente do pais, da cultura. Todo lugar tem gente boa, toda lugar tem gente nervosa, toda lugar tem gente e coisa que gente faz sendo gente…

Ontem na chegada da escola, Milena já estava agitada, pois como eu disse, quando chega em casa é que ela mostra o stress do seu dia, é aqui que ela descarrega, sempre foi assim. E quando ela está agitada, faz gracinhas sabe? Adora fazer coisas para chamar a nossa atenção e nos desafiar (observe se seu filho também não é assim). Eu então conto pra ela que ela está agitada, que é por conta das novidades da escola, que agora ela está em casa, falo o que vamos fazer em seguida e ela vai se acalmando como mágica, ela já sabe que pode confiar em mim e se sente compreendida.

Mas ontem ao chegar, quando abri a porta do prédio, ela tinha tocado o interfone do vizinho, um senhor de idade que mora em um dos apartamentos do andar de cima. Ele veio bravo me dizendo que ela tinha tocado no apartamento dele. Tentei explicar, mas ele não ouviu. As pessoas nessas horas só culpam os pais, acham mesmo que não damos a educação para os nossos filhos… E o pior, acham que usamos o autismo como desculpa para a nossa incapacidade de educar.

Esta incompreensão, que vem da falta de informação sobre o autismo, me deixa muito chateada. Eu chamo de intolerância e me vigio o tempo todo para fazer o meu dever de casa e ser tolerante, antes de pedir ao vizinho que seja. Então eu acolhi a queixa, acolhi a batida da porta que ele deu com muita raiva, engoli minha lágrima e pensei na deficiência dele, coitado… deficiente de amor ao próximo, deficiente de afeição, deficiente de parâmetros que entenda que a convivência exige que a gente passe por situações assim vez ou outra e que é preciso pelo menos ouvir a justificativa do outro e tentar entender.

A deficiência dele exigiu a minha tolerância e meu respeito, por isso eu respirei o rezei por ele, para que o fato dele ter descido de elevador um andar e descoberto que uma mocinha tocou seu interfone uma vez, não atrapalhasse muito a sua tarde e que aquela irritação passasse logo. Espero que minha prece tenha surtido efeito.

Tem gente que diz que o autismo não precisa de divulgação, eu também respeito essa opinião, mas não concordo. Se as pessoas souberem um pouco mais estarão mais capacitadas a fazer as concessões merecidas. Não defendo autistas mal-educados, mas peço compreensão para que eles ao agirem de forma impulsiva e desorganizada comunicando frustração ou estresse encontrem um pouco mais de compreensão por parte das pessoas.

postsetembro

Um super abraço a todos vocês que conseguiram ler este post tão longo. Fiquem com meu carinho.

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Elisabete Santos
Visitante
Querida Cristina, realmente, a divulgação sobre o autismo é fundamental para que pessoas ignorantes deixem de ser mal-educadas contra as nossas crianças e adultos atípicos. E para que deixem de magoar quem tanto ama estas pessoas diferentes e lindas. Ainda assim, mesmo com informação, irá sempre haver quem seja rude e intolerante. Revejo muito o meu menino no comportamento da Milena (quando chega a casa, finalmente, descarrega todo o stress nas mais variadas formas). São grandes desafios para estes pequenos valentes! Quem me dera que não houvesse tanta intolerância, olhares acusadores e reprovadores, desnutridos de amor… Belo texto mais uma… Leia mais »
Gabriela
Visitante
Olá Fausta! Nunca comento seus posts, mas já faz algum tempo que acompanho seu blog. Gosto muito da forma como escreve. Tenho uma garotinha de 3 anos que tem atraso de desenvolvimento (principalmente na fala), ainda sem diagnóstico definido.E faz T.O, fono, equoterapia, etc. Me vejo muitos vezes na mesma situação que você!! A gente sofre com eles, mas mais do que isso tentamos fazer com que sintam confiança na gente, que sintam nosso amor nos momentos mais difíceis!! E logo esses momentos passam! Acho a Milena linda, super charmosa! Parabéns pela filha! Ela deve te surpreender todos os dias… Leia mais »
Silvana Silva Buosi
Visitante

É incrível o seu dom de traduzir nossos sentimentos de uma maneira tão especial, raramente comento seus posts, mas leio tudo , me emociono, me questiono diante de situações parecidas.Enfim, muitíssimo obrigada Cris, por nos presentear sempre com textos deliciosamente longos e maravilhosos.Que Deus ilumine sempre o caminho de vocês. A Milena está muito linda .Bjs!!!!!!!!!!!!!!

Ânara
Visitante

Nossa, fico muito chateada quando isso acontece também, mas nunca tinha pensado por esse lado!

adrianacristina08@hotmail.com
Visitante

Que sabedoria amiga para lidar com as situações,fico admirada,beijos e boa semana.

Ana
Visitante

Olá Fausta! Fico muito feliz quando vejo os seus post. Tenho um bebê de 2 anos que foi diagnosticado agora e tudo é muito recente pra mim. O autismo da Mi é moderado? Com quantos anos ela começou a falar? Meu bebe não fala ainda, só balbucia bastante. Meu sonho é vê-lo falar. Um beijo pra vc, que vc continue a ser essa mãe iluminada que é.

Daniella Carlos Meira
Visitante

Oi Fausta! Te conheci ontem no lagarta vira papo, virei sua fã! Sou mãe do Samuel um autista lindo(corujice não pode faltar) moro aqui em Bh! To conhecendo seu blog! Que linda a Milena! Lendo todos os post e amando!

Vanessa
Visitante

Amei o texto…. Meu sonho é morar na Inglaterra…hoje moro na Grécia mas meu sonho é aí nem precisa ser Londres kkkk bjus