Manejando uma crise

Captura de Tela 2015-01-14 às 10.31.15

No face

Semana passada postei na página do face uma foto da Milena na piscina, eram    quase sete horas da noite, ainda claro por conta do verão e bastante calor. Foi de repente que ela desencantou, estava sem vontade de sair de casa há dias e depois de uma conversa com a avó pelo Skype ela me vem com a história de que tinha que aproveitar as férias, perguntou se eu podia levar ela para o clube, se podia ser agora.

Fiquei feliz e com muito entusiasmo topei ir ao clube mesmo tendo acabado de sair do chuveiro e com cabelo lavado. E lá fomos nós, ela empolgada aproveitou muito e voltou tão feliz que eu compreendi que aquela felicidade vinha do sentimento de competência, de vitória e só então percebi que ela estava vivendo um conflito qualquer e não queria sair de casa por conta disso e essa ida ao clube foi de certa forma, uma vitória.

Nos dias que se seguiram ela pediu para ir para a piscina e sempre voltava a dizer que queria aproveitar as férias. Na hora de ir embora do clube a gente conseguia prometendo voltar no outro dia e foi assim que ir ao clube se tornou parte da rotina.

Foi assim que chegando do clube na quinta-feira ela pediu: fala pro biquíni que ele volta para o clube amanhã (aqui a gente conversa muito com os objetos) e eu “falei para o biquíni”, antes de dormir ela separou tudo e deixou organizado para ir ao clube… mas aí amanheceu…

Quando amanheceu eu me preparei com calma e na hora de sair para o clube o tempo começou a nublar… daí apontei para o céu, expliquei que iria chover e nosso tempo seria bem reduzido, perguntei se ela queria ir assim mesmo e aí começou uma crise. A alteração da rotina ou da programação interna, ou o redirecionamento da vontade, qualquer coisa que exige flexibilidade mental… são meus velhos ‘inimigos’.

Uma crise se forma como uma tempestade, a gente vê os sinais. Pelo menos com o tempo, a gente aprende a ver os sinais que podem se intensificar bem rápido conforme a situação. Nesta hora ela já não conseguia mais me responder se queria ou não ir para a piscina mesmo com o tempo fechado, começou a fazer beicinho… ou seja, tentar segurar o choro e sofreu. Sim meus queridos, sofrimento com todas as letras, com a dor, com as lágrimas nem sempre derramadas, ela sofria naquele momento a dor da decepção na intensidade de quem perde um grande amor.

tristefrustrada

Frustrada e muito triste – (Arquivo Pessoal)

“É só uma ida à piscina”, “se não for hoje vai amanhã”, “a gente pode fazer outra coisa legal”, estes argumentos convenceriam a você, a mim, a outra criança típica, mas para alguém com autismo demora… não é simples assim. Há que se ter respeito, é preciso dar tempo ao processo, é preciso paciência, escuta, acolhimento e suporte.

Em outros tempos isso seria um grande problema, porque antes eu não sabia o que fazer. Ela iria gritar, bater, jogar coisas no chão como que se negando a entender e eu sem saber como conduzir teria todo o nosso dia comprometido. Mas eu manejei.

Primeiro eu expliquei que ela estava desapontada, traduzi o que ela estava sentindo. Apresentei do forma clara, objetiva opções de escolha, deixando ela decidir se queria ir ou não, mesmo que tivesse que chegar lá e mostrar a chuva e a piscina fechada, ela escolheu não ir. Ela chorou e eu apresentei as outras possibilidades, ela não mudou o humor, mostrei minha compreensão, minha solidariedade e ela ainda assim continuou tremendo os lábios, soprando como quem quer segurar o choro. Nestas horas nada de abraços, nada de beijos… quando eu mais quero abraçar ela precisa de distância. Eu respeito o jeito dela de ser.

Quando os meus recursos estavam quase no fim e ela estava começando a partir para irritação (é quando ela começa a querer me atingir como seu eu tivesse culpa e arremessa coisas, escala as possibilidades de me irritar) eu então me lembrei do Furby – a mania e sua utilidade – e comecei a conversar com o Furby e expliquei tudo para ele e disse muitas e muitas vezes para o Furby não ficar triste que a gente iria no clube amanhã, se não chovesse, se ele queria ficar gripado saindo na chuva, brinquei que ele era muito sapeca por querer sair na chuva e fui sentindo o rostinho dela mudar.

Ela começou a sorrir, dei atenção para ela e rimos um pouco do Furby, assim que ela foi perguntar de novo sobre o clube, começou a tremer os lábios e embargar a voz. Ainda estava magoada (demora a passar) e eu recomecei.

Sabe quando a criança bate a cabeça na cadeira e chora e você começa a brigar com a cadeira e a criança para de chorar, ela vê a mágoa de ter se machucado legitimada. Pois bem, uso este recurso e transfiro para o diálogo com os objetos as conversas que fariam Milena desatenta e desinteressada.

Falei com o biquíni – e ela então começou a dar gargalhada – “não adianta se esconder pois você vai no clube SIM! Assim que sair o sol você vai!!!” e ela sorria. Reforçando o que pode, o que dá pra fazer não o que não pode, não o que não é possível… Aí eu briguei com a nuvem, chamei o sol e ela foi se soltando e finalmente acessando os recursos internos e superando a frustração.

Foi assim dessa vez. Conseguimos manejar uma possível crise com birra que estragaria um dia inteiro. Se ela não fosse verbal eu teria que ler os sinais pelo comportamento, seria mais difícil, hoje revejo os vídeos de quando ela era menor e não se expressava e percebo todos os sinais ali bem na minha frente e na época, claro, eu não via.

Não vou me alongar mais, a experiência de hoje me prova o que mais digo aos pais que me procuram para conversar: torne-se o especialista no autismo do seu filho. Não importa nada do que está escrito ou o que o médico diz, se você não conhece seu filho mais do que conhece você mesmo. Observe, passe tempo olhando de verdade para ele, entenda, decifre as suas preferências e suas emoções e com certeza, sua vida vai ser muito melhor.

Abraços carinhosos, obrigada sempre pela sua visita!

Slide3

Algumas dicas

Post Anterior Próximo Post

Você também pode gostar

Sem comentários

  • Responder maria stella 6 de fevereiro de 2016 at 13:51

    Bom dia . Sua filha e linda tambem tenho um filho lindo com autismo leve neste exato momento passamos por um periodo doloroso e sua segunda crise a primeira em 2013 o psiquiatra esta fazendo ajuste da medicacao desde dezembro so que fica assim 04 dias super centrado no quinto novamente a falta de sono e o desequilibrio. Ja estamos esgotados sem forcas pedindo a Deus que isso passe logo ele e um rapaizinho de 18 anos lindo tranquilo alegre quando o vejo assim corta meu coracao pois no caso dele as crises duran demais sao meses de sofrimento as vezes mim pergunto se pode ser a medicacao so que tentamos tirar e foi otimo nos primeiros dias depois um inferno so Deus por nos. Bjs .fiquem com Deus.

    • Responder faustacristina 6 de fevereiro de 2016 at 15:52

      Oi Maria Stella
      Obrigada, Milena é mesmo uma linda né?!
      Eu não imagino o que deve ser isso viu, pois em alguns momentos em que ela se descontrolou eu fiquei totalmente arrasada. No caso da Milena era a medicação, nós tentamos muitos ajustes, muitas trocas e nada deu certo. Aos poucos fomos saindo da dependência da medicação mas eu entendo que nem todo mundo consegue se livrar dos remédios. Realmente cada um é cada um.
      Eu desejo que as crises não se prolonguem e que você consigam o remédio certo. Desejo muito e vou ficar feliz se você me der noticias de vez em quando. E se tiver algo que eu possa fazer, por favor, conta comigo.
      Um abraço carinhoso para você e para seu filho!!!

    Deixe seu comentário