Na sala de espera

salaesperaHoje ao sair de casa, preparei um kit sala de espera… algo para ler, algo para comer, uma garrafinha de água mineral para o caso de ter sede. Pensei o quanto tenho feito esse ritual ao longo dos últimos quase onze anos. Houve época de termos oito, dez atendimentos nos cinco dias úteis de uma semana e em quase todos eu permanecia na sala de espera.

Conheci muita gente, li muito, conversei muito e esperei muito. Uma espera que era um verbo, e este verbo misturava significados com a esperança. Paulo Freire dizia que esperança deveria ser verbo, pois bem acho que eu ficava “esperançando“ a Milena naquelas salas de espera.

A esperança, o investimento, sempre foi para que ela tivesse acesso ao desenvolvimento e à aprendizagem que para as crianças típicas vêm naturalmente como o movimento da onda no mar… com minha filha a gente tem que mover a água, fazer a onda. Nós ajudamos ela a aprender, a ler o mundo, a entender a dinâmica das coisas.

Milena precisou e até hoje precisa de entender seu próprio corpo, ter consciência corporal e ela precisa também, aprender a entender suas emoções, reconhecer o que sente e identificar por que sente. Ela precisa tentar entender o outro e dialogar com ele e ainda precisa aprender a ler e contar.

Ela precisa de tudo isso porque eu não sou eterna e isso dói muito, mas é um fato. Ela precisa aprender para poder se virar quando for preciso. É necessário ter instrumentos para se navegar no mar, tem que ter leme, tem que ter âncora, tem que ter motor ou vela e tem que saber lidar com os ventos e as calmarias.

Lá dentro da sala, agora , neste momento, ela está se instrumentalizando e eu estou aqui “esperançando”. A minha espera é paciente e compreensiva e nunca foi um fardo para mim, pelo contrário, sempre estive aqui neste lugar consciente do privilégio de podermos comprar estes serviços. Alimentei estes anos todos a esperança de que tudo isso seja útil para que minha filhota seja mais feliz e também alimentei o desejo de que um dia cada criança que precise, possa também ter onde conseguir tanto auxílio.

De toda essa esperança nasceu a ação e acredito fazer, ainda que um pouquinho, o papel de compartilhar, aqui, no instituto autismo e vida, nas rodas de conversa e palestras… tento “dar de graça o que de graça recebo” e percebo que de fato apenas recebo cada vez mais. As horas de estudo e leitura serviram também para isso…

Além deste, vejo muitos resultados positivos das inúmeras horas de sala de espera, a cada conquista da minha filha agradeço a cada profissional que me deu cadeira, mas também agradeço à pessoa mais importante deste processo: ela, a Milena. Obrigada Mi, por fazer o mais difícil e por peitar este desafio imenso a cada dia: ser diferente em um mundo que manda a igualdade ser lei.

Parabéns pela coragem, por não desistir e por manter tudo do seu jeito, no seu tempo e com seu ritmo. Por me ensinar a esperar e por educar a minha expectativa. Obrigada por transformar espera em investimento e me render tanta alegria e tanto êxito diante de cada mínima conquista.

Te amo filha minha, te espero o tempo que for preciso pois toda vez que você volta sorrindo assim como agora, o mundo inteiro também sorri.

 

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