Nós e essa sensação de não caber no mundo

Em bloco, algumas coisas aconteceram esta semana que fizeram sentir triste demais, por isso já peço desculpas pelo tom amargo de hoje :/

Situações corriqueiras nos tiram o chão. Como quando alguém reclama do comportamento da nossa criança e nem se toca quando fica sabendo do autismo! Nossa, como a gente se sente magoado!

Me lembro de um cara na praia fazendo castelos de areia para as crianças em volta que vinham e olhavam adorando aquilo. Milena pequenina, se aproximou e tentou tocar, eu expliquei que ela tinha autismo e que se ele achasse que ela iria derrubar o castelo que avisasse a ela, pois como autista, ela não tinha muito controle sobre seu movimento. Ele me disse de uma forma bem rude que cabia a mim, a mãe, controlar a minha filha e continuou direcionando sua preferência para as crianças “normais” à sua volta.

Aconteceu também com a Andrea, do blog Lagarta Vira Pupa, vocês sabem, somos grandes amigas e eu fiquei muito triste imaginando o Theo com toda a sua pureza sofrendo um preconceito injustificável!

Pois bem, essa história de que a gente tem que adequar a pessoa com autismo é horrível, será que ninguém mais percebe?

pomba23

Você realmente vai culpar um cego por derrubar um castelo de areia? Pois é. A deficiência está presente no autismo também sabia? Em outro nível, no neuronal, mas está ali. E Carly Fleishmann vai dizer: “Eu queria muito ser como as outras garotas, mas eu não posso, porque eu sou a Carly”.

No outro extremo uma mãe mata o próprio filho autista e se mata em seguida. Ela não resistiu talvez, à pressão para que o filho dela coubesse na roupa que o mundo impõe que a gente vista…

Desculpe, mas se você fica estressado porque uma cadeira de rodas te obriga a dar a volta por onde você está passando, você precisa de um mundo exclusivo para você. Vai à luta então! Hitler sonhou com isso um dia também! Pode guardar as proporções, mas no fim o que você quer é um mundo de gente competente e capaz de não te incomodar.

colibriecobra

Nada mais difícil que lidar com os gritos de uma criança, porém poucas coisas se comparam na vida à alegria de ver uma criança gargalhar. Tem gente fraca por aí querendo só a gargalhada sem perceber, afff… que tudo vem no mesmo kit.

Vamos mudar o mundo minha gente, para ele caber na gente e pra gente conseguir caber nele também, com nossa rabugice e nossa graça, nossa loucura ou nossa sensatez. Cada vez que a gente faz ajustes internos o mundo ganha, cada vez que a gente se apequena o universo inteiro encolhe um pouco.

Você mãe, que tem um filho com autismo, ajuste a visão. Tem um grande grupo ao qual você pertence agora. Nós não queremos mudar os nossos filhos e nem queremos concertar as pessoas para elas aceitarem os nossos filhos como são. O que a gente quer é um lugar que nos dê a liberdade de sermos o que quisermos e que nossos filhos sejam como são.

carly

É claro que vamos continuar ensinando, conduzindo, educando. Vamos continuar na luta para que aquilo que nossos filhos ainda não tem, que eles possam conquistar se for para fazê-los mais felizes, mais autônomos. Vamos seguir na busca não de uma normalidade, mas de uma competência que toda mãe e todo pai quer promover.

Mas por favor mãe, pai, não perca o foco. Não se deixe contaminar pelas exigências absurdas de ajuste social pois você corre o risco de morrer de decepção. O tal ajuste não existe, como o normal também não.

E se em algum ponto você perder a referência sobre o que precisa buscar, olha bem para seu filho e ele de alguma forma vai te dizer. No final das contas o mundo inteiro, o que realmente importa, cabe no pequeno espaço entre você e seu filho.

Cheetahs

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