Crescendo

A Milena está na mesma escola desde 2011, mesmo considerando o intervalo de oito meses em que ficamos em Londres, é o maior período em uma mesma escola. A turma adora ela e eles a acolhem com um carinho que é de fazer qualquer mãe se emocionar.

Mesmo com todo essa carinho, ela estranha alguns momentos, se sente insegura e percebe suas dificuldades e foi por isso que já a bastante tempo, eu tenho deixado Milena na escola dez minutos após todos estarem já em sala, chegamos quando os portões já estão fechados. Comecei fazendo isso quando reparava que ela não queria que eu fosse embora enquanto todos não estivessem em fila, percebi que incomodava os gritos e a correria das crianças antes do sinal de entrada, percebi também, que o relato da acompanhante sobre como foi o dia mostrava que ela ficava mais calma quando não passava pela agitação da entrada. Isso durou alguns anos, mas nos últimos dias isso mudou, ela está chegando na hora e é bom ver como tudo muda com o tempo.

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No primeiro dia que a deixei na escola mais cedo, saí chorando da escola, chorando de alegria… aquelas conquistas que tomam uma proporção de prêmio sabe? Porque poucas coisas trazem mais sentido à vida de uma mãe do que ver filho feliz. E ela estava radiante! Sorriso de orelha a orelha, seu pulinho característico de quando está excitada por uma novidade. Nos dizeres da turma de hoje em dia, ela estava “se achando” :].

Ela adora ser igual, fazer o que os outros fazem e mesmo que eu explicasse sempre o por quê de chegarmos mais tarde, ela se sentia diferente no processo. Eu trabalho muito com Milena a consciência da sua diferença, sem que isso denote necessidade ou desvantagem. Penso que se eu fico tentando dizer que ela é normal (argh que não gosto desta palavra), que ela pode tudo o que os outros podem, eu vou criar nela uma consciência distorcida que pode gerar frustrações, por outro lado, se fico enfatizando o autismo, se fico mostrando o quanto ela é diferente, deixo de destacar os seus imensos potenciais e suas maravilhosas qualidades. Eu busco então, mencionar os motivos pelos quais ela não consegue algumas coisas e sempre busco relacionar com algo que eu também não consigo.

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Por exemplo, se ela não consegue ir para o pátio pular corda com as colegas, eu digo que ela ainda não consegue, assim como eu não consigo andar de patins, assim é também sobre não conseguir andar de bicicleta ou jogar pebolim. E para algumas outras coisas, como quando ela me pergunta por que ela não consegue ir dormir com a turma da colônia de férias, eu explico que o autismo faz com que ela goste sempre de fazer as mesmas coisas, como dormir na casa dela ou pelo menos dormir perto da mamãe e do papai e sempre coloco que isso pode mudar se ela se esforçar…

Eu sei que para isto não existe receita e nem certo ou errado. Cada criança é de um jeito e cada um vai reagir como consegue à presença do autismo em suas vidas, mas eu penso que quanto mais natural eu puder ser quando abordar este assunto delicado, mais fácil será para ela aceitar algumas limitações que autismo traz. Afinal, todos nós temos tantas limitações também!

Por isso que eu amei ver o quanto ela ficou feliz se integrando à turma na entrada da escola, ela sentiu que era uma conquista dela e agora, apenas alguns dias depois já pediu para eu não ir até a sala de aula busca-la na saída, quer descer sozinha, que eu a espere lá embaixo (!). Há menos de uma semana atrás, na chegada, ela não queria nem mesmo ir para junto dos amigos no pátio… quando estavam correndo e jogando ela permaneceu ao meu lado segurando firme a minha mão e até pediu para eu “esmagar” ela, o que significa: “me dá um abraço apertado para que a pressão me ajude a me organizar sensorialmente”. Assim fiz, abracei, apertei… agora ela mal entra na escola, sai correndo para junto da turma.

Quando ela corre uma parte de mim queria ir junto, queria estar ali bem do lado para garantir que ela jamais se sentisse insegura e queria muito proteger ela de qualquer maldade do mundo, de qualquer dor. Mas seguro bem meu instinto protetor e me tranquilizo sabendo que, de certa forma uma parte de mim já está com ela, a minha parte melhor, a parte que só tem amor!

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