O que você diz sem palavras

Que o padrão normal que a tudo formata, não sufoque minha autenticidade, pois eu sou único.
Que o teu desejo de ser obedecido, não me afaste de ti, pois ainda que eu não fale, eu sou questionador.
Que a tua necessidade de elogios não te faça me julgar como rude, pois eu sou sincero.
Que teu imediatismo não se perca do meu tempo particular de resposta, pois eu não tenho pressa.
Que o meu diagnóstico não seja para ti um rótulo, pois eu sou muito mais do que o autismo.
Que minhas dificuldades não sejam pra ti mais visíveis do que tudo que ainda posso me tornar, pois eu sou uma pessoa.
Que as palavras que eu não consigo falar sejam ouvidas pelo teu coração, pois no meu jeito único de ser, eu também sei amar.

Inspirado nos gestos, nos balanços de corpo, no agito de mãos, nas vocalizações, nos empurrões e nos abraços, nos beijos jogados ao vento, nos sorrisos, nas caretas, no olhar que não olha, no balbucio e no amor das centenas de crianças e adultos com autismo que tive o privilégio de conhecer até hoje. Pessoas que diziam muito mais do que se podia – ou se queria – escutar.

Que chegue um tempo onde vocês possam apenas serem vocês mesmos e que nosso desejo não seja mais do que conduzi-los com paciência e respeito. E se por acaso for preciso, que sejamos capazes de aplainar o caminho à frente, sem a pretensão de modifica-lo pois este caminho é a vida e a vida precisa ser de cada um. E finalmente, quando se fizer necessário que caminhemos a seu lado, que possamos não deixar de perceber o momento certo de soltar as tuas mãos.

 

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