11 anos

Um desejo de mãe

juntasdiamaesEu me lembro nitidamente. Eu estava indo para a sala de parto, fazia frio e me levavam pelo corredor na maca e foi nesse momento que senti uma das maiores vontades que já tive na vida: queria ter outro filho. A simples perspectiva daquele momento incrível ser o último, era quase insuportável. Eu estava internada há quase 24 horas, com dilatação e dores ainda suportáveis, o médico pela manhã trocando de plantão, me disse que por dó, iria induzir o parto. Em menos de uma hora a dilatação se completou, as contrações beiravam o insuportável e minha filha nasceu. Os partos dos meus filhos, foram os momentos mais extraordinários que já vivi em toda a minha vida!

Não sei se é masoquismo, mas naquela manhã, no momento de maior dor eu só pensava que precisava aproveitar cada segundo, pois achava que aquele seria meu segundo e último parto e ao pensar nisso o coração apertava. Outra dor forte, nenhum grito, as enfermeiras elogiando minha calma, mal sabiam o vulcão de desejo e confusão que as dores alimentavam, o desejo de ter outro filho, mesmo achando naquele momento, que este desejo não iria se realizar.

Onze anos após este dia, em que minha Thamires nasceu linda, fiquei grávida da Milena. Eu estava dando ao meu marido sua primeira filha, ele que sempre fora um pai para meus filhos, agora teria uma filha biológica. E foi envolta em desejo pleno e emoção intensa que Milena nasceu.

Após alguns meses e eu já sabia que ela era especial, quando investiguei autismo li algumas coisas sobre a culpa da mãe, ou a falha na relação mãe-bebê e pensei o quanto isto não fazia sentido nenhum para nós.

Minha relação com minha filha autista é maravilhosa desde que ela estava na minha barriga, porque minha filha é maravilhosa, aliás tenho três filhos incríveis. Somos amigos, nos damos bem e nossos problemas não são melhores e nem piores que os de nenhuma outra família. Milena é sensível, carinhosa e alegre, eu nunca permiti que o autismo se colocasse entre nós, nunca deixei que ele me impedisse de enxergar que pessoa linda que eu recebi como presente. Depois de muito aprender é nela que eu foco, no seu imenso potencial de viver a vida com alegria.

Esta data comercial que é o tal dia das mães não faz muito sentido pra mim, pois nesta jornada é tudo tão intenso que os valores mudam, o mundo se transforma, os presentes passam a ser o passo finalmente dado, a palavra nova que surge do nada, o colorido finalmente dentro do traçado e uma nova palavra lida ou escrita.

Um gesto espontâneo, uma troca de olhar, uma careta diferente, um mero apontar… Tudo isso se cobre de ouro diante da emoção de uma mãe especial.

Quando as coisas do autismo chegam para atrapalhar um pouco, eu respiro e resisto para não cair mais uma vez na armadilha de imaginar como ela seria se não tivesse autismo, eu então foco com toda a energia que tenho em tudo o que ouço por aí sobre problemas entre filhos e pais, sobre comportamentos frios e insensíveis, sobre crise de valores, desobediência e desamor. Penso em quantos problemas eu não terei e escuto na memória o som da risada gostosa da minha filhota.

Eu penso também sobre este padrão normal hipócrita e ilusório, sobre o quanto as pessoas lá fora estão muitas vezes perdendo tempo buscando coisas e mesmo sem perceber, tentando enquadrar tudo na ótica do que é socialmente aceito. Exigimos do outro aquilo que nem temos em nós mesmos para dar…

Assim volto o foco para minha filha, mão com mão, ofereço para ela o meu equilíbrio, digo calmamente que a entendo, que ela tem com quem contar, e que eu a aceito como ela é, incondicionalmente. Quando ela se organiza, grudada comigo (é assim que ela chama) deixo o sorriso voltar para o meu rosto e a paz para o meu coração, milagrosamente o autismo se afasta e minha alma se ilumina de gratidão, afinal era esse o meu maior desejo, tudo o que eu queria, poder ser mãe mais uma vez.

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