11 anos, Comunicação

Momento mais que especial e o respeito às diferenças

– Mãe, posso te falar uma coisa?

– Claro Milena, fala

– Por que você falou alto comigo aquela hora?

– Hum… porque você estava me fazendo a mesma pergunta e eu já tinha te pedido para não falarmos disso por hoje e eu também estava com pressa e cuidando de muitas outras coisas ao mesmo tempo…

– Eu não gosto, mãe, que você fale assim sabia?

Nesta altura eu já estava achando tão linda a abordagem dela, estava tão empolgada por estar vivendo este momento que minha boca teimava em sorrir, mas eu precisava, mesmo encantada, manter o tom de naturalidade. O pai, também impressionado com o inusitado da situação tentou filmar o momento, mas já estava acabando…

– Eu sei que você não gosta minha filha, mas é que você fez esta pergunta o dia todo, a mamãe já te respondeu e quando você sabe a resposta, não precisa mais perguntar…

– Desculpa mãe, eu não vou fazer mais isso, tá?

– Desculpa filha, eu também vou procurar não falar alto, tá bom?

E ela selou o momento com um abraço!

A cena já seria emocionante o suficiente, se fosse protagonizada por qualquer criança de 11 anos, mas viver este momento com minha filha, que tem Autismo, com uma séria dificuldade em expressar o que sente, aliada a uma extrema dificuldade do discurso… olha haja coração! Tudo isso em pé de frente pra mim – e ela já está do meu tamanho – olhando bem dentro dos meus olhos.

Após o abraço ela voltou para o sofá, se ligou nos vídeos e ficou ali no seu aparente “isolamento”. Claro que sabemos muito bem, que mesmo sem manter a atenção nos moldes tradicionais, ela está ligadíssima em tudo o que acontece e registra tudo em sua memória espetacular. Sim, minha filha tem super poderes, como a super audição. Outro dia estava fazendo com ela a tarefa de casa e ela se assustou de repente e colocou a mão no ouvido, como eu não ouvi nada perguntei o que era e ela me disse que um homem estava gritando na rua. Detalhe, moro no oitavo andar…

Mas o mais incrível dos seus super poderes, é o quanto ela é capaz de cativar as pessoas. Mesmo não conseguindo manter um diálogo consistente, – a situação que descrevi acima é o máximo da exceção – Milena tem uma forma carinhosa de abordar as pessoas que faz com que todo mundo que conheço ou não, se encante com sua meiguice.

Os desafios continuam aqui

É eu sei que este post só falta babar… sei que estou sendo a mãe coruja no padrão exagerado, mas é assim mesmo que me sinto.

Tá bom, pra ninguém idealizar um lar “perfeito” onde a criança foi tirada do Autismo por uma varinha mágica qualquer, quero dizer que os desafios estão bem aqui ainda. E que eles continuam sendo complicados assim como os de todos os pais, em todos os países, com filhos em qualquer condição. Toda a especificidade do Autismo exige muito de nós, pois nossa natureza pede formatação, pede padrão e a gente fala, fala, mas quer mesmo é ter receita e colocar tudo na caixa do comum.

Como sou otimista vou sempre acreditar que uma hora vamos aprender, mas em alguns momentos me espanto em ver o pensamento dos pais especiais exigindo padrão… Quero meu filho assim e perseguem este padrão… Ou então pedem: aceitem as diferenças e logo em seguida criticam tudo o que não concordam, criticam por exemplo, uma abordagem terapêutica (!)… “esta não é boa, adestra as crianças, esta outra deixa solto demais…” boa é a abordagem que eu defendo, é a única que dá certo…

Já pensou? Com tanto autista diferente a gente acreditar que tem um só jeito de pensar o autismo? Que tem um só jeito de tratar? Que ninguém precisa de inclusão’(escolar) ou que  todos precisam ‘apenas’ de inclusão???

Por isso minha gente, mesmo em um post feliz, onde conto sobre um momento de imenso, grandioso, fabuloso de sucesso, momento este que é resultado de anos de muito exemplo, teatralização, terapia, aceitação, junto com choro, frustração e ajuste… Neste mesmo post eu mesma puxo o tapete para outra realidade, pois me preocupo se quem me lê possa a idealizar um futuro para seu próprio filho. Futuro este, que talvez venha a ser mesmo muito melhor que isso ou que venha de um jeito muito diferente.

Plantando esperança no blog

O que quero dizer é o seguinte: expomos a nossa vida nesta vitrine que é a internet, na vontade de que todos vejam as imensas possibilidades, que todos vejam o quanto é possível conseguir e que vejam também os nossos tombos pra que, quem sabe, não caiam nos mesmos buracos. A intenção é plantar esperança e não preconizar modelos.

Tenho me inspirado há anos na experiência riquíssima de amigas queridas que blogam também e me ligo a estas pessoas com tanta intensidade que chego a perder o sono à noite preocupada com uma ou outra criança com Autismo. Recebo e-mails e comentários que me deixam em estado de graça… e nesta imensa corrente de emoção que se forma a gente segue se contagiando, compartilhando e aprendendo, vivendo um pouco a experiência do outro e se enriquecendo com ela.

Obrigada por todos que me acessam, que me respeitam no meu jeito único de ser e pensar. Vocês tornam possível que eu mantenha este canal de partilha e me motivam a sair do meu próprio ostracismo.

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