Tempo de ser feliz

Depois de lidar com a emoção de ver que Milena me pedindo pra mandar o autismo embora, contado no último texto, precisei de uma ajuda pra me harmonizar… li bastante, dei um tempo e pensei o quanto eu preciso ainda me fortalecer pra aguentar os trancos e fazer estrutura para o futuro que já chegou. Diariamente lido com o desafio de ter uma linda garota que cresce cada vez mais rápido. Uma menininha que gosta de escorregar no parquinho, em um corpo de mocinha, esguio, elegante e que questiona tudo e – já – quer abraçar o mundo.

Nessa de pensar um pouco, assisti algumas palestras muito interessantes pelo YouTube, uma delas (que recomendo) é a do professor Clovis de Barros falando sobre felicidade. Aquelas reflexões que a gente lê, ouve, sabe que é super coerente e nunca consegue de fato vivenciar, sabe?

Você é feliz se é feliz agora, não quando fica fazendo planos de ser feliz. Não quando fica esperando crescer, se formar, casar, separar, aposentar… Muito menos quando acredita que felicidade é a vida do vizinho ou pior, o modelo do comercial de margarina…

Eu sempre digo, quando tenho oportunidade, que a felicidade está em todo lugar o tempo todo, mas muitas vezes brinca de esconde-esconde. Daí basta a gente rever uma foto de um momento qualquer do passado e usando a lente da saudade descobrimos que ela estava ali na nossa cara. Fotos de família são típicas, na hora estávamos bravos com o que uma prima disse ou com o que alguém fez, mas depois de anos olhamos para aquele momento e soltamos a clássica: “eu era feliz e não sabia”.

A gente já sabe desse lance todo sobre ser feliz hoje, mas ainda assim espera pelo pote de ouro do fim do arco íris. É claro que isso tem uma finalidade, a gente caminha a cada dia porque nos motiva saber que amanhã será outro dia e que será melhor. Mas mesmo assim, a gente precisa focar no hoje e focar no que nos faz feliz já.

felizdemais

Adoro esta música da Clarice Falcão :]

Então! … Pensando nisso, pude perceber que o Autismo é meio que uma areia movediça sugadora da felicidade sabia? Quando a gente recebe o diagnóstico, como mães, pais, cuidadores, sei lá, a gente se move inteiro pra proteger, amparar, ajudar a criança a se desenvolver, a superar qualquer de suas dificuldades. Pois bem, a maioria dos pais, assim como eu, atola sob o peso de terapias, médicos, exames, dietas, remédios, palestras, livros, cursos que transformam sua vida em uma busca frenética e que nos deixa a sensação de que não estamos saindo do lugar.

Ok, tudo bem é natural que seja assim, eu acho. É quase instintivo a gente mover o mundo na direção que precisa para ser o melhor para aquela pessoinha que nos demanda o maior amor do mundo. O único senão é que a gente não pode perder o foco no hoje, pois corremos o grande risco de não vermos o nosso filho crescer, de olho no que ele precisa, muitas vezes deixamos de enxergar o que ele já tem!

desenvolvimentomilagreSabe o milagre do desenvolvimento? Hoje seu filho sabe mais do que sabia ontem e que a maioria dos pais, nem percebe acontecer? Acontece também com a criança que tem Autismo. Sim, embora o desenvolvimento destas crianças seja tão diferente, eles fazem coisas incríveis que nós comemoramos, vibramos, mas curtimos bem pouco, pois o olho está muito mais no próximo passo. E isso fica realmente mais sério quando o nosso foco é o desenvolvimento da criança típica.

Assim, quando seu filho aprende a usar o banheiro, você faz uma baita festa, mas já pensando que seu sobrinho tem a mesma idade e já come sozinho e se veste sozinho. Mais uma vez, tudo bem ser assim, mas e quanto a respirar, relaxar, curtir o momento?! Esquece, meu trem está passando e se eu não correr eu o perco… O problema é que o trem nunca para de passar e quando a gente vê tem umas rugas a mais na sua cara e seu filho já está crescido.

Essa é uma armadilha perigosa.

Eu sei que é pedir muito para uma mãe que recebeu o diagnóstico agora. Olhe para seu filho, veja o que ele precisa aprender, ensine, estimule, faça terapias, leia, se atualize, troque informações com outros pais, não esqueça de você mesma, não deixe de lado seu casamento, dê atenção para outros filhos e acima de tudo seja feliz agora!

Ok, não é brincadeira tudo isso!!! Eu também não sou esta super mulher, nem quero ser assim, mas se não tiver ninguém pra dizer que às vezes, no meio de tudo isso, precisamos de fato apenas rolar de rir no tapete com o nosso autista talvez a gente nunca perceba. Morrer de rir do mico que você pagou quando ele deu birra no meio da rua e os ignorantes te olhavam torto te julgando – coitados – também tá valendo!

TEAdiagnostico

O que sei é que quando olho para os primeiros anos da Milena, me arrepio ao lembrar de todo o peso no meu ombro. Toda a tensão. Em algum momento agachei e peguei um saco pesado chamado culpa que absolutamente não me pertencia e comecei a carrega-lo. Não satisfeita peguei uma carga chamada desenvolvimento da minha filha e tentei empurrar sozinha como a única responsável pelo tal.

Foi libertador quando fui soltando isso ao longo do caminho e comecei a curtir o autismo… estranho dizer isso eu sei. Mas eu passei a relaxar diante das birras e dos gritos em público e meu foco não era mais o desenvolvimento da minha filha, mas a felicidade da minha filha. O mundo que se exploda, filha olha pra mim, eu estou aqui, eu estou bem, eu posso te ajudar a ficar bem, eu quero te ajudar a ficar bem. Acho que o fim, conquistar isso em mim foi o melhor presente que pude dar a ela.

autismoliberdade

Novas descobertas estão por vir. Novos obstáculos e dores, mas ter clareza de que não tem nenhum trem pra ser perdido, que o que importa é realmente absorver toda a beleza desta longa caminhada, não tem preço.

Boa viagem pra você também, você que carinhosamente me lê e compartilha comigo deste momento de reflexão. Obrigada por isso. Um abraço, fraterno e carinhoso :]

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