A volta

Bom, chegamos de volta a Porto Alegre. Não preciso e não quero ser demagoga ou hipócrita, posso confessar que foi muito difícil me despedir de Londres, e ainda dói falar nisso, mas toda a tristeza colocada na balança do retorno está perdendo peso aos poucos… minha casa, minhas coisas, a luz deste país, a comida e principalmente, prioritariamente no meu coração, o carinho das pessoas. Ser recebida com alegria pelos meus amigos e em breve (vou pra Minas logo) pela minha família é realmente algo que transcende a localização.

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A tristeza de perder o contato com a beleza, a cultura, a estrutura de uma cidade em que tudo funciona no tempo e na hora, também não se compara com o tamanho da gratidão que trago em mim, por Deus ter me proporcionado viver nestes oito meses uma experiência que me marcou pra sempre.

Hoje eu estava indo para o supermercado e pensando que voltar é melhor que mudar. Eu já sei o caminho, sei onde vou estacionar, sei o que vou ver e o conhecido realmente nos deixa muito mais calmos. Nós, os típicos às vezes adoramos o novo, o desconhecido, gostamos de explorar, mas mesmo assim é indiscutível que a carga de stress liberada é muito maior. Diante dessa análise percebemos melhor o que nossos autistas passam diante do novo, o quanto todo dia é para eles um desafio quando estão à mercê da nossa programação e podemos entender melhor o porquê saber o que vai acontecer acalma.

Saber entender comportamentos não significa se submeter a eles, quando a gente diz que a rotina acalma e que o novo assusta, precisamos lembrar que o novo ensina e que sair da rotina é extremamente saudável. Entender o que nossos filhos sentem é ter o poder de ajudar na administração das crises, antecipando o que está por vir, traduzindo para eles o que estão sentindo, não julgando e não impondo.

Gosto de repetir que as dificuldades dos nossos filhos existem e precisam ser compreendidas, isso é fundamental, mas precisam também ser superadas. É tudo uma questão de traduzir o que o comportamento está comunicando e mostrar a eles que existe outro modo de agir e outro modo de comunicar. Este é nosso grande e constante desafio.

Por isso tento o tempo todo me colocar no lugar da Milena. Foi assim quando tive que enfrentar a grande dificuldade de estar em um país sem falar a língua. Me apropriar de um novo idioma me fez entender a diferença enorme que existe entre ouvir e entender, decodificar (ler) e falar. A linguagem é um super processo, que exige muito da vontade da pessoa, da motivação e falar é um ato extremo de compartilhar.

Hoje consigo entender um pouco mais sobre uma criança com Autismo não verbal. Consigo também entender um pouco melhor o processo de decodificação de uma mensagem que na minha filha é falho e que tantas vezes eu exigia, esperava respostas rápidas.

Sentindo nervosismo ao enfrentar situações em uma nova cultura, procurei entender o nervosismo das nossas crianças muitas vezes expresso das formas mais diversas e não convencionais, diante de novas situações.

Procuro ir ampliando ou tentando ampliar a compreensão sobre quem pensa, se comporta e se comunica de uma forma tão particular como é no Autismo. Dessa forma posso elaborar estratégias muito mais apropriadas e vencer os mitos que eu carrego em mim de uma educação formal, uniforme e impositiva.

Milena não cabe em si de felicidade e não vê a hora de voltar para a escola, mas vamos ter que esperar um pouco, pois a escola está contratando e treinando a acompanhante da Milena, então vamos aqui administrando a ansiedade da mocinha que por enquanto começa com as atividades que já tinha quando saímos. Volta a ginástica olímpica, volta a fono, vamos pra patinação e assim as coisas vão novamente se encaixando em uma rotina que faz um bem enorme para a Milena.

Assim, vendo a minha filha tão feliz, fico feliz também. Quem dera a gente pudesse ficar comodamente nestas ondas de tranquilidade né? Mas sabemos que logo os desafios novos vão despontar no horizonte, pois eles já estão colocados. Cada dia, tem seu próprio desafio embutido nele e isso não é ruim é só desafiador. Ruim, é quando as pessoas desejam apenas a vida do comercial de margarina… aí os dramas se fazem pois diante do grito, da birra, do choro todo mundo fica muito assustado como se esse fugir do padrão fosse proibido de acontecer.

birra22A gente realmente tem que conduzir a birra, o grito, a auto agressão… tudo isso tem que mudar, tem que se transformar em comunicação mais adequada e mais funcional, mas a nossa reação diante destes episódios poderia ser mais branda não? Digo isso por mim mesma, Digo isso por ver hoje quanta energia de sofrimento nós empregamos em coisas que são administráveis. São desafios e eles só existem mesmo pra gente poder encarar.

Adorei ver o quanto o Autismo tem ganhado espaço na mídia brasileira. Isso é um sonho realizado! Amei a reportagem do Fantástico e me senti dentro da casa daquelas pessoas, vivendo seus dramas. E me impressiona o quanto dá pra ver naqueles comportamentos diferentes o quanto aquelas pessoas com autismo estão se comunicando… do jeito diferente deles estão dizendo muito! Mas a nossa percepção tão ajustada ao padrão normal, simplesmente não vê, não enxerga, não decodifica este padrão diferente de comunicação, mas bem… isso é assunto pra um outro post.

Beijos a todos, delícia ter este espaço pra compartilhar. Obrigada por sua companhia!

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