Autismo e Processamento Sensorial

autismoesentidosNão nos damos conta, mas a todo momento nosso corpo está calibrando as sensações que nos chegam de todas as formas através dos nossos sentidos. Os sistemas sensoriais são fundamentais para que nosso organismo funcione com perfeição e nos deixe prontos para absorver as experiências de cada momento e transformá-las em aprendizado.

Imagens, sons, cheiro, gosto e sensação estão inundando nosso cérebro de informação e fazendo que os esquemas motores sejam colocados em prontidão, mantendo nosso equilíbrio, ajustando nossa postura, aprontando os reflexos e também direcionando nossa atenção. Imprimem nossa memória com as informações relevantes, descartando o que não tem utilidade. Nas palestras que faço por aí costumo colocar um slide do quanto demandamos esforço global do nosso corpo em uma simples ida ao shopping, o que justifica o fato de chegarmos em casa cansados depois de uma sobrecarga sensorial que este simples passeio ocasionou.

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Ter um sistema sensorial com problemas é como um computador que trava o tempo inteiro e que precisa de constantes reinicializações para funcionar. É assim com a grande maioria das pessoas com Autismo. De forma extremamente variada a pessoa com Autismo apresenta uma sensibilidade desequilibrada em todos os sentidos, além do cinco mais propagados (visão, audição, tato, paladar e olfato) os sentidos do equilíbrio (vestibular) e da auto percepção (proprioceptivo) estão templesensorialalterados nestes indivíduos. Nós temos também estes desequilíbrios, mas compensamos de forma imediata e inconsciente, embora às vezes o stress que nos deixa angustiados, pode ter sido fruto de uma sobrecarga sensorial que não conseguimos equilibrar e nem nos damos conta.

As pessoas não percebem o quanto barulhos inesperados, cheiros, luzes, temperos trazem desconforto para crianças e adultos com Autismo. Em alguns momentos eles deixam claro esse excesso (ou a falta) de sensibilidade, outras vezes não é possível, pois nem eles identificam que isso está acontecendo.

Acho que até já postei aqui, um vídeo da Milena aos quatro anos, na porta de nosso prédio no Rio, ela caminhava até uma parte branca da calçada e eu soltava a mãozinha dela, ela então ficava paralisada e chorava pois, via a parte preta da calçada e acreditava que era um desnível do piso. Descobri que se tratava de uma insegurança gravitacional e pode estar relacionado à Disfunção do Processamento Sensorial.

Milena teve hipotonia desde bebê, começou a fazer fisioterapia muito novinha por conta disso e do atraso global, a partir daí ela jamais parou com o trabalho de estimulação sensorial e isso foi definitivo para seu progresso. Acho que é devido a esse sistema desregulado que olhamos uma pessoa com Autismo mesmo sem conhecê-la e sabemos que se trata de alguém diferente. Mesmo quando é um autismo leve, está presente uma postura, um jeito inquieto, ou uma forma de olhar que causa estranheza principalmente em quem já convive com o Autismo.

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Quando chegamos em Porto Alegre, não consegui encontrar um trabalho de estimulação sensorial, foi quando soube que um professor de Ginástica Olímpica atendia a três crianças com Autismo. O professor Joca é uma pessoa incrível, que tem muita facilidade em lidar com a dificuldade de imposição destes meninos, tem boa vontade em aprender sempre e uma sensibilidade rara para entender e aceitar o diferente.

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O resultado dos exercícios da ginástica olímpica veio de forma imediata. Milena ficou mais calma, parou de aparecer com as canelas roxas, pois ela batia em tudo e se desequilibrava com frequência. Melhorou seu tônus muscular, sua insegurança frente aos desafios relacionados à altura e movimento (comuns nas brincadeiras infantis), melhorou muito a coordenação motora e a lateralidade.

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Além de todos os benefícios físicos e o poder ‘desestressante’ desses exercícios, fizemos mais um amigo, Milena tem no Joca uma pessoa que a entende, sabe impor respeito, sabe encorajar e força-la a ultrapassar os seus limites e vencer seus voandojocamedos. Sou muito grata a ele por estar presente em nossas vidas e espero que a cada dia mais esta experiência se amplie e que ele possa multiplicar este conhecimento para que mais pessoas com Autismo sejam beneficiadas.

Aos pais e professores, não deixem de lado o trabalho sensorial. Na colônia de férias FloorTime que participamos em julho, ficou evidente o quanto a estimulação sensorial traz benefícios ao comportamento em geral. Por isso vale a pena fazer uma pesquisa e incorporar exercícios e atividades no dia a dia. É divertido passar um tempo com atenção exclusiva aos nossos filhos, nem sempre precisamos estar na função de ensinar, ensinar… por isso as brincadeiras sensoriais são muito bem vindas, trabalham a hiper ou a hipo sensibilidade, divertem e promovem momentos significativos de convivência.

Vou sugerir algumas atividades no post abaixo. Sou perfeccionista e não gosto de fazer nada incompleto, mas vou resistir à esta neura para tentar mostrar ainda que superficialmente a ampla possibilidade de fazer esta estimulação mesmo em casa. Espero que o sensorial seja cada vez mais considerado pelos médicos e terapeutas em geral no Brasil.

A todos vocês o meu carinho de sempre e minha gratidão por darem importância ao que faço aqui no blog de forma tão despretensiosa 🙂

Um beijo fraterno em cada um que me vista, obrigada!rolinho

 

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