Desafios e Estratégias

plumaDefinitivamente minha filha está mais calma, doce, carinhosa como sempre foi. Sim, mudei algumas coisas para obter este resultado, afinal o comportamento de alguém com Autismo é o seu canal de comunicação por excelência. Tudo o que eles não expressam com um discurso espontâneo, acerca de suas próprias emoções e sentimentos, expressam com o comportamento e aprender a ler neste “livro” não é muito fácil não.

Percebi que a tolerância da Milena para os limites de fato está muito reduzida e olha que já era curta! É como se agora o eu quero tivesse uma dose maior de exigência com muito mais energia direcionada para isso. Se antes, eu cedia para algumas coisas e para outras conseguia explicar, adiar, trocar, hoje não consigo mais negociar. Ela insiste de forma veemente e começa a se desorganizar perante o não. Eu não posso ceder sempre, claro, então quando vejo que vamos começar uma crise eu concordo com ela. Lembrem-se que sou praticamente uma especialista em dizer não sem dizer não :/

Se Milena chega mostrando um sapato da Barbie que uma amiga tem e me pede para comprar eu digo que não existe sapatos da Barbie no número 36, que é o atual tamanho do seu pezinho de princesa (ela tem 09 anos, mas está com 1,52cm), ela então começa a alterar a voz e pede para que eu compre um pra ela OLHAR, sim queridos amigos isso mesmo, ela agora me diz que não precisa usar, ela quer o objeto seja de bebê ou de adulto, basta possuir o que pode ser uma roupa, creme, esmalte, lápis ou seja lá o que for.

Eu sigo então dizendo não: “eu posso comprar este outro aqui”, “podemos tirar uma foto e imprimir” (houve uma época que isso funcionou), mas ela volta e enfatiza: eu quero ESTE mamãe, você compra? E já começa a alterar a voz. Eu então vendo que o estresse vai aumentar, digo a ela que compro sim, quando acharmos em uma loja, a gente compra.

Não menti afinal, eu sei que não vou encontrar mesmo… E ela segue fantasiando que vai usar que vai mostrar para a amiga e sonha em voz alta feliz da vida. Eu me lembro do amigo com Síndrome de Asperger me explicando que se ele queria um objeto o seu pensamento se fixava tanto nesse querer que era incontrolável.

Quando consigo “interceptar” esse desejo assim que começa, tipo quando ela olha para uma tiara e me diz que é linda e eu já comportamwendypna mesma hora faço uma cena de teatro dizendo que para ela não começar, que não aguento mais, blá,blá,blá… já direciono sua atenção pra outra coisa e pronto. Mas, se ela já chega em casa com o desejo, olha fotos, pesquisa na internet… aí a coisa complica de vez.

Outra estratégia que encontrei foi não aceitar seus gritos na hora que a crise acontece. Se ela grita fica sozinha até parar de gritar, ela odeia ficar sozinha então consegue se controlar. Também respiramos fundo e eu vou calmamente dizendo a ela que eu estou bem, que ela vai ficar bem, mas que está nervosa, vou direcionando sua atenção para outras coisas que ela gosta com muita, fico calma, não deixo que ela assuma o controle ( ou o descontrole de nós duas) e embora demore algum tempo ela acaba saindo do ciclo de frustração.

Se ela bate eu ignoro solenemente e se insiste eu faço ela pensar no que está fazendo, pergunto se ela vai mesmo me bater ou se ela quer me machucar e ela para sempre. Nestes momentos ela é só impulsividade, por isso preciso mostrar que isto não me afeta, mas que machuca e tem consequências sérias. Talvez por isso ela só ameaça, mas não agride.

Para direcionar sua atenção para fora da crise uso a criatividade. Milena adora quando eu finjo que estou conversando com os objetos… também adora bater em algumas coisas, pois o som da mão espalmada batendo agrada muito a ela.. Então nestas horas eu brigo com a escova vermelha, converso com o tapete oval bato no edredom de ondinhas e logo ela começa a rir e eu sigo fazendo que ela esqueça o que a está atormentando.

Antes eu queria muito mudar a Milena o tempo todo, ensinar, ensinar e ensinar. Achava que tinha que conter este fotosmipiscpcomportamento, mas aduras penas descobri não ser possível. Desta forma eu dizia que gente não conversa com objetos, que não devemos gritar, mas tudo isso nos momentos críticos. Agora quando ela está bem digo que a gente só conversa com objetos quando estamos brincando, que a gente pode brigar, praguejar ao invés de gritar e bater e procuro ensinar o que posso quando ela está bem. Na hora das crises eu preciso ser sua fonte de calma e tomo as rédeas da situação, ela percebe e relaxa.

Não sei se consegui explicar pessoal, e é claro que não é assim tão fácil. Se eu estou nervosa, chateada, as coisas geralmente azedam. Mas como o resultado piora muito se brigamos com ela, a gente acaba se munindo da paciência que não tem para o benefício de todos e para a paz geral.

O que preciso buscar com urgência são atividades mais significativas para Milena preencher o tempo que está ocioso. O que acontece é que ela não quer nada muito pedagógico, claro. Ela quer brincar e de preferência com alguma coisa em que não haja esforço cognitivo. E como não gosta de ficar sozinha, não consegue encontrar brincadeiras legais sozinha, eu preciso estar com ela brincando junto o tempo todo. Eis o desafio, porque eu tenho até a disposição mas falta criatividade e tempo de dedicação para inventar tanta atividade.

EstruturapTer uma rotina nos momentos livres seria perfeito, claro que não é fazer sempre as mesmas coisas, por favor. Digo sempre que rotina tem que ser dinâmica e talvez o termo estrutura seja mais adequado. Ter um tempo na noite de sentarmos as duas, um tempo em que ela brinca sozinha, um tempo para falar com a vovó no Skype (que já é rotina para ela), um tempo para o papai, quando ele não estiver viajando. Seria uma forma dela se organizar para o momento de desafio que é brincar sozinha e uma forma de lhe acalmar, pois gera sempre ansiedade estes períodos livres que são fonte de incertezas.

Bom, como vocês estão vendo amigos meus, embora tudo esteja mais tranquilo, em nenhum momento deixamos de ser desafiados a melhorar e buscar constantemente corrigir o curso das coisas para um sentido onde todos tenhamos mais harmonia, mais tranquilidade. Minha mira é a excelência sempre, mas o meu padrão de excelência não é a perfeição, nem o normal, meu padrão de excelência é ter qualidade de vida e buscar incessantemente a autonomia e a felicidade da minha filha.

É isso. Beijos fraternos, obrigada pela visita, pelo comentário, pela partilha! Sem isso esse diário já teria sido encerrado, que bom que você me lê!!!

Post Anterior Próximo Post

Você também pode gostar

Sem comentários

Deixe seu comentário