9 anos

Estímulos e alterações no comportamento

???????????????????????????????Quero começar contando um momento emocionante que vivi ontem com minha Milena. Ela estava agitada, hora ou outra tinha uma pequena atitude impulsiva, demonstrava irritabilidade e eu disse a ela que estava daquele jeito porque tínhamos mudado a rotina, pois na volta da viagem a Minas, precisamos compensar horários e tudo ficou diferente. Eu estava no quarto ajeitando algumas coisas e ela veio até mim, deu um abraço bem apertado e me pediu:

– Mãe, me ajuda a ficar bem?

Bom, eu só pude pensar no significado daquele pedido, quanta evolução até chegar a este ponto. Perceber sua dificuldade, pedir ajuda… sentir-se impotente para conseguir se conter… Diante desse quadro preciso pensar um pouco mais sobre as raízes das dificuldades da minha filha. Por trás dos rostos bonitos e dos corpos saudáveis das pessoas com Autismo existe um sistema desregulado. Se ajudamos a quem tem uma deficiência física visível temos que entender que o Autismo mascara muitos comprometimentos que também exigem a nossa mobilização, o nosso auxílio. É preciso olhar o comportamento inadequado como quem olha para alguém com uma dificuldade de adequação e o amparo possível aqui, a ajuda possível é apenas a nossa aceitação, nossa compreensão.

mae1_Ana_OliveiraTenho visto pessoas alterarem o seu modus operandi frente a situações de muitos estímulos, sem sequer se darem conta disso. Você repara o quanto um bêbado fica diferente não é? As pessoas no geral ficam diferentes também, mas em um grau muito mais leve, quando seus sentidos estão, podemos dizer assim, embriagados.

É frequente a gente ouvir um “desculpa eu estava nervoso”, ou “eu estava tão deslumbrada que não me lembro de nada”… Se você submete alguém que não tem o hábito de frequentar shopping a uma tarde inteira de compras, com certeza esta pessoa ao chegar em casa estará cansada, mesmo que se trate de um bem condicionado esportista.

O que quero dizer com isto é que damos pouquíssima importância aos estímulos que recebemos do ambiente e seu efeito sobre o nosso corpo, talvez porque nós temos um Processamento Sensorial saudável que trabalha o tempo todo nos ajustando. Já as pessoas com Autismo tem que lidar com todas as variáveis ambientais e sociais com um Processamento Sensorial que muitas vezes, atrapalha ao invés de ajudar.

É como um nadador que tem seu pé de pato quebrado, um patinador com rodas travadas ou um cozinheiro com uma faca sem puzzlemindcorte. Tudo exige mais esforço e por isso a alteração no comportamento é inevitável. Compreender essa dificuldade e procurar minimizar estes geradores de desajustes, é fundamental para melhorar a qualidade de vida das pessoas com Autismo.

Como a maioria das pessoas não lida com a estimulação sensorial e seus efeitos fica muito difícil a gente angariar colaboração para nossos filhos. A escola é uma fonte geradora de estímulos visuais, auditivos e que acabam prejudicando a atenção e gerando super estimulação. Quando a gente pede um pouco mais de cuidado as pessoas logo pensam que estamos exigindo silêncio e paredes brancas… não é nada disso. Adequar ambientes é pressuposto básico para a inclusão.

Milena está sempre ansiosa e isso tem afetado mais o seu comportamento. Ela tem estado mais impulsiva, usa o grito como arma e se não tivéssemos a atitude correta, já teria virado uma mania (quando ela grita ficamos impassíveis, mostro que não estou gostando com tristeza, mas não deixo que ela perceba que pode usar isso para me manipular). Agora, está sendo medicada para a diminuição desta ansiedade 🙁

Ela tem tido cada vez mais fixação por objetos, coisas que vê as meninas que ela admira usando. A maioria das coisas que ela me pede consigo contornar, com um “não mediado” (Não este, te dou aquele; ou: te dou outro dia; ou: ainda não tem jeito eyespor tal motivo, mas podemos fazer outra coisa legal…) porém quando ela recebe uma quantidade grande de “nãos mediados” ela começa a se irritar e se desorganiza, é como se ela perdesse o controle sobre as coisas. Por isso está tomando um remédio novo justamente para tentar reduzir a ansiedade. No primeiro ficou muito diferente, falante, dando abraços, diminuiu as manias e nós ficamos encantados. Mas como eu já esperava o efeito foi passando e agora percebemos que ela está menos ansiosa, mas voltou a ser nossa menina alertando a todos que não gosta de abraços e sem tanta desenvoltura.

Eu fiquei impressionada com este episódio, acho que pude vislumbrar um pouco do que qualquer familiar de uma criança com autismo sonha: como seria a criança sem autismo. Deu sim, aperto no coração ao perceber como aquela Milena estava falante, ligada, esperta, dando respostas prontamente, entendendo tudo e dando importância ao que dizíamos. Mesmo com apenas algumas habilidades melhoradas deu para perceber que o Autismo mascara a real personalidade da minha menina. É bem o que vimos no vídeo “A História de Carly” (para quem não viu está no YouTube). Quando chegou a noite, eu nem queria que ela dormisse…

???????????????????????????????Para terminar, fiquem com algumas gracinhas recentes de nossa mocinha, pelo menos aquelas que eu lembro:

Ao vestir uma bermuda que fica um pouco larga, Milena vira e pergunta:

-Madrinha meu cófinho tá aparecendo, acha?

Querendo me falar sobre uma mochila de uma certa princesa, tentava identificar a qual princesa ela se referia: “Aquela pecêsa… aquela cinderela de rabinho, aquela que nada”… – estava falando da pequena sereia.

– Mamãe meu peito vai crescer?

– Sim minha filha vai.

E eu tentando aproveitar o momento para aprofundar um pouco o assunto:

– Você sabe o que acontece depois que seu peito crescer?

Muito segura de si ela responde:

-Sei… – eu admirada e ela completa cheia de razão:

-…tem que usar sutiã…

beijim procês !

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