Autismo e comportamento

Esta dimensão de comprometimento também é sinalizada como Padrão Restrito de Comportamento e Interesses ou Imaginação. Na verdade diz respeito a capacidade de flexibilização do pensamento. O que nos faz mudar a postura frente um imprevisto, que nos faz nos entediar com a rotina. Imaginação, criatividade são características de quem está sempre inovando, mudando. Esta é uma das dificuldades das pessoas com autismo. Lembrando que dificuldade não significa inabilidade ou incapacidade.

Esquisitices…

As pessoas me dizem para consolar ou tentar me deixar à vontade: “isso é coisa de criança”, “deixa ela, criança é assim mesmo”. Eu realmente não dou a mínima para o constrangimento, não sou mais preocupada com os olhares, com o que as pessoas vão pensar.

Me importa muito porém, o ajustamento social da minha filha, sei que estas esquisitices vão afastá-la de amigos, vão atrair rótulos que irão aumentar o isolamento, a inadequação. Por isso a corrijo, ajusto, chamo a atenção, justifico. Seria perfeito um mundo mais tolerante, menos afeito às etiquetas ou se aos poucos as pessoas conhecessem e compreendessem o autismo poderiam dar de ombros dizendo: tudo bem, é diferente, é autista!

Quem assistiu a entrega do Emmy deste ano, viu que o filme Temple Grandin com 15 indicações (ganhou 8) colocou a própria Temple em evidência, notou o quanto ela se comporta de forma diferente em uma cerimônia onde a formalidade se impõe. Com todo o potencial que tem, com tudo o que conseguiu em termos de ajustamento, ela não se mistura ao comum, seu “jeito” diferente de ser se destaca, não há como negar, o comportamento é peculiar nestes indivíduos. Eis o link para quem quiser conferir: http://www.youtube.com/watch?v=ocjAq3Ji-JY.

O Andar de Milena é diferente. Já melhorou muito, mas ainda anda na ponta dos pés, embora hoje em dia ela não levante tanto os calcanhares – e olha que treinamos por anos na fisioterapia e damos o comando “calcanhar no chão” o tempo todo – mas arrasta as pontas dos pés e seus calçados ficam logo desgastados na frente. O calçado tipo Crocks tem sido a salvação, pois ele dificulta o arrastar de pés por ser antiderrapante. Ela tem três pares :).

A postura também é diferente, embora em alguns momentos ela fique bem comportada como uma garotinha de 07 anos, conforme o ambiente ou o humor, ela mantém pernas abertas, senta-se de forma desconjuntada, mexe nos cabelos e eles ficam embaraçados, coloca constantemente o cabelo ou a mão na boca e se está de pé, ela geralmente dá uns pulinhos na ponta dos pés.

Onde quer que a gente esteja geralmente ela se dirige às pessoas perguntando indiscretamente, o que você veio fazer aqui, aonde você vai, com quem você estava falando, onde está seu pai, onde você mora… Nem se importa com a resposta e se a pessoa pergunta algo, preciso intervir e repetir a pergunta da pessoa para que ela responda. Ela quer mesmo é interagir, mas acha que isso se faz com perguntas. Em muitos momentos consegue realizar um diálogo pois o adulto quando interessado, percebe que se trata de alguém diferente e compensa, direciona a falta de sentido de algumas perguntas. As crianças porém ao perceberem que a troca não acontece, partem à procura de algo mais interessante para fazer… Ela vai atrás.

A estereotipia (movimento sem função) é um capítulo à parte. Tem períodos em que ela faz muito o movimento, tem épocas em que quase não vemos. Seguindo o conselho de Temple Grandim, alertamos e pedimos para que ela pare com o comando: estereotipia não. Ela para às vezes, outras vezes continua. É como se fosse uma forma de descarregar a enorme empolgação ou nervosismo. Algumas pessoas com autismo defendem estes movimentos, dizendo o quanto as acalma. Às vezes eu fico com muita pena de inibir, mas quando penso nela adulta fazendo isso em público, insisto para que ela se organize. Em algumas ocasiões, como nos “parabéns pra você” tenho que ficar ao lado dela o tempo todo para conter a tal estereotipia ou sairá nas filmagens de quem quer que seja, uma menininha linda ao lado do aniversariante fazendo movimentos estranhos com seu corpo e rosto chamando a atenção de todos.

Outros comportamentos estranhos aparecem e somem com o tempo. Atualmente ela tem se fixado (mais do que sempre) em cabelos. Ela pega e ainda pior que isso, quer bater no cabelo… Ela pega uma mecha, principalmente se tiver amarrado e bate uma palma com o cabelo na mão. Não sei se traz uma sensação boa, ou se é outra ação sem sentido, sei que a maioria das pessoas não gostam nem um pouco e eu fico sem poder justificar tal comportamento e como vocês já sabem, não basta dizer não faça. Conforme o momento isso só irá piorar as coisas.

A grande questão dos desvios de comportamento na pessoa com autismo a meu ver, é que eles não querem provar nada pra ninguém. São como são, agem por impulso, não entendem o porquê de regras sociais e não vendo sentido em se moldar, não se esforçam em fazê-lo. A dificuldade em encontrar estratégias para se ajustar, em saber o que é adequado de para o momento em adequar impulsos fazem com que se sintam deslocadas.

São sinceras, diretas, dizem o que pensam e centram o mundo em seu próprio umbigo, justificando o rótulo Autismo que vem do grego Authós ( significa + ou – “em si mesmo”). Realmente as pessoas tem razão ao dizer que “todo mundo é assim”… de fato, toda pessoa com autismo é como seríamos sem todo o verniz social, sem o trabalho que foi feito para nos educarmos e nos adequarmos. Isso tem um lado fortemente positivo e também muitos inconvenientes, a depender do olhar de quem olha verá a beleza de uma pessoa pura, autêntica, espontânea ou verá a esquisitice de alguém que não se ajustou ao comum.

Bem, fico por aqui, agradecida como sempre aos que me visitam. Beijo de luz em cada coração e o desejo de que haja saúde e amor na vida de todos.

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