7 anos, Conscientização, Férias, Interação social

Férias

Antes de começar este post, quero esclarecer que nem sempre quando expressamos uma angústia em relação a alguma coisa significa que estamos depressivos, inconformados… Muitas vezes constatamos com tristeza uma realidade e sentimos necessidade de compartilhar este pensamento. Frequentemente, quando isso acontece comigo, recebo comentários de consolo e detesto!!! Acho que passa pela frase de minha amiga querida Cláudia Marcelino (Autismo em Foco, Diário de Um Autista, Sem Glúten e Sem Leite): “Aceitação Sim, Conformismo Nunca!”

Quando as pessoas dizem frases como: “Isso é assim mesmo… temos que aceitar… a vida é assim (eu também digo isso)” na verdade estão negando a possibilidade de pensar estratégias para mudar algo que está posto. É como colocar a culpa no governo para tudo de errado que está acontecendo e continuar jogando lixo pela janela do carro.

 

Superando medos e se divertindo

Milena está mais uma vez, na colônia de férias do clube. Deixo-a cedinho e busco só no final da tarde. Desceu o rio de “bóia cross”, desceu no toboágua, no tobogã, pulou no pula-pula aquático, andou na corda… Enfim, está superando o medo frente ao novo com a ajuda dos excelentes monitores que estão apaixonados por ela.

No primeiro dia, acompanhei o primeiro passeio para sentir como ela ficaria, ela desceu até o rio e não queria sentar na bóia, eu então corri até lá e auxiliei lembrando a ela que no ano passado ela desceu o rio. Ela então me respondeu: “A bóia era preta…” 🙂 Insisti para que ela fosse e deu certo, adorou. O monitor entendeu como ela “funcionava” e, a partir daí, passou a insistir mais no início da atividade e eu deixei minha doce garotinha entregue à vida, mesmo sabendo que ela vivenciaria momentos de exclusão e preconceito.

O tal do preconceito

Hoje pela manhã, fui levá-la e acompanhei o embarque no ônibus que a levaria a uma fazenda. Ela faz tudo o que as outras garotas fazem, senta na rodinha, cruza as pernas, se as meninas riem ela ri, ninguém que a visse de longe suspeitaria sequer que se trata de “uma criança especial”.

colonia2010bMas chegue bem perto e escute as outras garotas cochichando coisas sobre a Milena, olham para ela riem, passam a mensagem como um telefone sem fio, de ouvido a ouvido e todas olham para ela e riem. São garotas de oito anos, pois a Milena tem a altura de meninas mais velhas e é ali naquele lugar da fila que ela se encaixa. Ela fica ali olhando as garotinhas rindo e até ri de um jeito desconjuntado como se tivesse entendido a “piada” que foi contada a todas menos a ela.

O coração da mãe arrebenta de dor, o olho mareja de lágrima, engulo seco e me afasto vencendo a vontade de tirá-la dali, na certeza de que só vivendo é que aprendemos a viver. Logo chega uma monitora e pega a Mi pela mão, dá um beijo nela e ouço a minha filha perguntar: “Você tá bem, tia? Você dormiu bem?”

Empática e sensível

Essa é a minha autista, isolada do mundo de hipocrisia, plenamente conectada com o mundo da sensibilidade, da empatia. Logo, outro monitor se aproxima falando alto o nome da Milena, cumprimentando apenas ela, que aponta para sua mochila e pergunta: “Quê isso? Que cor é?” Estas perguntas “nada a ver” são feitas com o sorriso que expressa: “Quero me conectar a você e não sei o que dizer, não sei o que é adequado…”

O monitor entende e brinca com ela. Meu coração se acalma.

Por uma sociedade com mais tolerância e respeito

mobydick

Eu queria muito o que todos querem. Uma sociedade mais preparada para conviver com as diferenças, afinal, diferentes somos todos nós. A maior verdade é que de fato “de perto, ninguém é normal”.

Eu, como educadora que sou, acredito que a escola deveria se concentrar mais em desenvolver estes valores de tolerância e respeito, uma vez que nas famílias tais valores nem sempre estão presentes. Pedir isso a pais que ficam rindo de gays, fazendo piadas sobre negros, velhas, gordas, motoristas, turcos, fanhos, gagos,etc., seria pedir demais.

A última novidade da Milena é que, diante da frustração em se integrar às demais crianças, ela tem lançado mão da sua super mãe. Me chama o tempo todo para brincar com ela na praça ou no parque. Ontem me disse em tom de sentença: “Você é a filhinha e eu sou a mamãe.” 🙂 “Filhinha vai lá buscar água” (estávamos brincando na areia). E fiquei ali de filhinha, um tempão fazendo bolos de areia e piscinas de barro.

Entre as angústias da discriminação e a imensa alegria de ver minha filha se desenvolvendo e se superando cada dia mais, vou tocando em frente meus amigos.

Uma forte emissão de carinho para cada coração que me lê, paz e luz a todos vocês.

 

cortecabelo (1)

 

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