6 anos

Colônia de Férias

Este post vai ser longo…

Coloquei Milena na colônia de férias do clube. Estou 90% satisfeita, mas esta aventura trouxe um misto de emoções que quero partilhar com vocês.

Em primeiro lugar, ela está muito, muito feliz. Conta tudo o que faz e me surpreende com suas conquistas. No primeiro dia, quando eu vi a programação não acreditei que ela iria participar do Boia Cross (descer de boia pelo rio). Pois ela desceu, e sozinha. Eu fiquei em um canto qualquer do clube estudando e de vez em quando via as turmas passarem (são mais de duzentas crianças, divididas em grupos por idade). Eu ficava tentando localizar a Milena na fila, quando a vejo está sempre saltitando, feliz da vida. Neste dia quando eu vi as crianças descendo pela escada, se enfiando na boia, eu pensei que ela ficaria com medo. Que nada! Ela surpreendeu, desceu e sorriu quando passou por mim na ponte.

Essas minhas decisões, viajar, sair para todos os lugares, de certa forma, expor minha filha a situações em que ela aprenda a “se virar” sozinha são, na verdade, muito dolorosas. Hoje, o programa foi passear em um hotel fazenda, e para isso saíram bem cedo. Ela é muito querida pelos monitores, mas não tem um grupinho como as outras meninas. Ela vai precisar tomar conta de suas coisas e quando quiser ir ao banheiro, quando tiver que tirar e colocar a roupa, o biquíni, terá que pedir ajuda. O coração fica apertado, confesso.

Crianças e educação para as diferenças

No grupo estão dois ex-coleguinhas dela da escola, eles não demonstraram nenhuma alegria em revê-la e hoje na fila uma das mães toda feliz em rever Milena perguntou para o filho se ele tinha visto que a coleguinha estava lá e ele respondeu: “Eu vi, ela continua falando esquisito até hoje”. Na hora rebati: “Mas ela já melhorou, meu filho, e a cada dia ela se supera um pouco”.

Ei Cristina, é uma criança! Ele só está sendo sincero. E é verdade, é apenas uma criança que não tem em casa a educação para as diferenças, eu também nunca eduquei os meus para entenderem os diferentes… Simplesmente não está na nossa cultura. Somos os primeiros a julgar quando vemos uma criança gritando. Aconteceu comigo outro dia, na Inglaterra. Estava no supermercado e uma criança gritava em um carrinho, gritou por cerca de vinte minutos e eu comentei com meu marido: “Que mãe é essa que não acode essa criança?”. Na fila, meu marido traduziu o que ela falava para a atendente: “Não posso fazer nada, ele é autista”.

As lágrimas escorreram pelo meu rosto quando ele me contou. Eu estava ali julgando aquela mãe há minutos atrás, como sempre fiz antes do Autismo, e tive que admitir que a mudança interna que eu achava que tinha ocorrido em mim não era uma mudança real. Os paradigmas do normal, do uniforme, do padrão ainda estão aqui, firmes e fortes. “Preconceito, em que lugar você esconde o seu?” Foi a pergunta que me veio à mente.

Colônia de férias

Eu, junto a outras poucas mães, fiquei acompanhando a turma até o ônibus sair. Na fila, Milena esperava com um sorrisão no rosto. Um garotinho se aproximou e cochichou algo que eu não pude ouvir, só vi o olhar da Milena para ele, um olhar de quem não entende. Imediatamente me aproximei e ouvi o monitor brigando com a criança pedindo que ele não falasse com ela daquele jeito. Entendi que ele estava zombando da minha filha. Estou chorando, tamanha a dor que sinto só de relatar, mas preciso ser forte.

Eu também sofri com o chamado bullying, também tive que lidar com a rejeição, sofri na época. Passou e hoje não carrego traumas, acredito que acontece com todo mundo de uma forma ou de outra. Mas os elementos que tenho para analisar e entender que o outro não faz por mal, que é muito mais ignorância, que o sujeito que faz isso é ele que é digno de dó… Estes elementos internos minha filha não tem. Tenho muito medo do quanto de dor isso poderá trazer a ela. Mas eu vou tentar prepará-la o quanto for possível para ignorar esses indivíduos.

Aparentemente “normal”

Outra coisa que me preocupa é que Milena é bonita e aparentemente “normal”. Embora tenha seu lado bom, isso faz com que as pessoas subestimem suas dificuldades. Quando eu disse para a monitora que ela não tem noção de perigo, ela argumentou que Milena é esperta. De fato ela é, mas ela tem um desenvolvimento irregular, ou seja, se fosse um retardo mental a gente podia dizer, ela tem o desenvolvimento compatível com cinco anos…

Mas no Autismo não é assim. Ao mesmo tempo em que determinada competência da criança está no nível de sua idade, em outra competência a defasagem é enorme, e em outra pode estar até à frente. Muito difícil para um adulto que não tem experiência entender. É mais fácil uniformizar e pensar, “ela cá conta disso, logo, dará conta daquilo também”. Para os pais, ter que convencer o outro da dificuldade do filho é MUITO difícil fica parecendo que estamos subestimando nosso filho, fazendo drama.

Me sinto como o pai do Nemo quando entregava ele ao professor: “Olha ele tem uma nadadeira menor, então ele pode ter dificuldade…” e o Nemo: “Pai, agora você já pode ir!”

Milena faz a mesma coisa, olha para mim e fala, vai mamãe, não fica aqui. Senta lá naquela mesa. Ou então ela fala: “Não tem nenhuma mamãe, sai.”

É isso. Estas são as dores e as delícias de ter um filho. Especial ou não, ver nossos filhos crescendo e saber que eles vão sofrer, é muito difícil. Para terminar, eu fiquei pasma com o que ouvi de uma mãe ao entregar o filho: “Por favor ‘tia’ meu filho voltou com muitos ‘roxos’ na perna, se for possível me devolva ele sem machucados (!?)”. A monitora argumentou que eles estão subindo em árvores, tirolesa, mini escalada, mas a mãe irredutível pediu que seu filho fosse mais bem cuidado. Diante disso eu fiquei até sem graça de pedir uma atenção especial para a Milena. Pensei comigo, deixa minha filha se virar sozinha sim. Apesar dos “roxos” que vierem junto, ela estará mais autônoma e mais feliz!

Espero que me perdoem pelo “testamento”. Um abraço a todos.

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